António Botto no Brasil – 7 – por António Augusto Sales

 

     As Espessas Nuvens de Niteroi

 

(continuação)

 

O ano de 1954 será de profunda mudança na vida do autor de Nove de Abril, começando com a carta que o consulado de Portugal no Rio de Janeiro, ainda lhe envia para a morada de Vila Violeta, em Niterói, a convocá-lo para comparecer na sede da chancelaria (Rua Teófilo Otini, nº 4 -2º), no dia 21 de Março de 1954, «a fim de tratar da sua repatriação e de D. Carminda conforme solicitou». A questão estaria oficialmente bem encaminhada se o casal tivesse dinheiro para regressar, mas não tinha, pelo que é feita uma subscrição com o objectivo de reunir fundos. Contrariamente ao que o poeta diz num documento, a subscrição não foi oficial tendo partido da iniciativa particular do vice-cônsul João José Diniz. Várias pessoas e instituições contribuíram pois no espólio há um registo de nomes e quantias (que desconheço se é a totalidade), perfazendo insuficientes 37.000 cruzeiros.

 

Uma coisa é certa, o poeta não regressou e do dinheiro não se regista caminho levado. Esta situação falhada e o penoso capítulo de Vila Violeta, acabam por empurrar o casal a abandonar a Casa Três, o tal “palácio” que o poeta elogiara, regressando ao roteiro dos hotéis manhosos, agora o Greogotá, instalado num edifício degradado, será vítima de uma derrocada parcial provocada pela chuva. Em Setembro de 1954 o casal regressa definitivamente ao Rio de Janeiro, pois em Dezembro uma carta de João Sassetti, sobre os direitos de autor das canções de Gado Bravo, já é endereçada para aquela cidade (o problema das canções de “Gado Bravo” já vinha em discussão desde Lisboa devido a adulteração de letras sem autorização do autor. Só nesta altura, 1954, acabou por ficar resolvido).

 

O salto a Niterói, que começara envolvido em esperança, chegava ao fim marcado pelo desalento e pela pobreza.

 

 

 

Após a falhada tentativa de regresso a Portugal a hipótese foi colocada definitivamente de parte. Em termos literários e sociais tem a consciência de que Portugal já lhe dera o que podia. Se alguma dívida se mantém em aberto são as honras do país para consigo. O poeta jamais se interrogou sobre a queda do seu prestígio, isso seria admitir o princípio de uma humildade de que era desprovido. Toma conta dos poucos haveres e volta novamente ao Rio para representar o último acto num palco literário onde, qual Fénix, Botto renascerá das cinzas a acreditar nas notícias encumeásticas do Jornal do Comércio, em Janeiro de 1953: «É, o sr. António Botto o maior poeta português contemporâneo (…). O seu génio pertence a uma obra vasta de genialidade, de ritmos poderosos que são apenas seus. Ilumina a inteligência do leitor. Cativa-o, surpreende, encanta e fica na lembrança inesquecível de quantos o sabem compreender e sentir».

 

Desconheço se Fernando Pessoa levantou a tua carta do céu, mas sendo amigo admito-o, explicando-te que o sol marcava o horóscopo no signo de Leão visto teres nascido em 17 de Agosto de 1897. Não era o que dizias pois sempre roubavas dois ou quatro anos lançando a confusão nos espíritos. Mas foi a 17 às oito horas da manhã, meu poeta, com bons aspectos indiciando capacidade criativa, sucesso literário, auto-afirmação. Porém, Pessoa, não terá deixado de advertir para aspectos desfavoráveis de narcisismo, ego desmesurado, mitomania e exibicionismo. Uma “doença” a agravar-se desde Lisboa nos anos trinta, obrigando-te a viver acorrentado à idolatria de ti próprio, incapaz de aceitar os limites literários de um percurso com a atitude de quem, embora reconhecendo o seu talento, não consegue evitar que este o devore pela vaidade, mas não só…

 

O Rio de Janeiro nos anos 50

 

Os estigmas colam-se ao corpo, agarram-se à imagem e perseguem-na através do tempo fazendo, por vezes, de um sujeito vulgar uma personalidade destacada e outras exactamente o inverso. A tua homossexualidade assumida, versejada, afirmada, literariamente enriquecida, foi uma manifestação de carácter não só socialmente imperdoável como, por isso mesmo, “condenável”. Ficou-te colada à pele, ao nome e à obra de tal modo que ainda hoje, apesar da evolução, não te conseguiste divorciar dessa marca quando se fala de ti. Pela tua parte, não é menos certo, praticaste a possível ostentação. Não escondias nem disfarçavas, antes assumias, e dessa postura acabaste vítima de estórias anedóticas e cruéis como a que Ricardo de Araújo Pereira transcreve (JL – Jornal de Artes Letras e Ideias – “No Rasto do Poeta”, nº 699,pág.21, 30.07.97), segundo relato de Moitinho de Almeida: «O Pessoa era um gozão. Contava, por exemplo, que um dia, um amigo do Botto, encontrando-o de braço dado com um marinheiro, numa Sexta-Feira Santa, disse-lhe: “António, parece impossível. Comer carne na Sexta-Feira Santa!” Ao que Botto respondeu (e aqui Pessoa aflautava a voz): “Mas não é carne. É peixe.”». Passe a caricatura, uma entre muitas e algumas conhecias, este foi um comportamento que não ocultaste nem mesmo a Carminda quando ela desejou viver em tua companhia. Foste sério, corajoso, leal, varreste a hipocrisia. Todavia não foi só isso o que te perseguiu, talvez mais do que isso o teu carácter, essa personalidade faminta de sucesso, esse drama interior de glória impeditivo da paz de espírito ajudou a criar à tua volta certo ambiente hostil.

 

À medida que te venho acompanhando compreendo melhor toda a tua complexidade, ou seja, as tuas fraquezas como as tuas forças escondidas sob o folclore exterior da frivolidade. Sei que te comoveste com a dor alheia, que cultivaste a amizade, que na solidão do infortúnio procuraste minorar o desespero da tua mulher. Agora que o capítulo de Niteroi, que começou radiante, chega ao fim marcado pelo desalento e pela pobreza, verifico quanto é vulnerável o nosso destino. O teu António, na minha visão, acaba por ser o de uma personagem de romance que procura na tragédia o sentido da vida.

 

 

 (Continua)

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Hoje vamos ouvir um ensaio de Blandino & Sara Luz . É uma versão muito diferente da mesma “Canção 6” que ouvimos a Mariza sob o título “Os anéis do meu cabelo”.


 

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