Existe uma literatura em língua mirandesa? (O mínimo sobre a língua mirandesa – 13), por Amadeu Ferreira

 

 

 

O MÍNIMO SOBRE A LÍNGUA MIRANDESA

 

 

por Amadeu Ferreira

 

 

(continuação)

 

 

13. Existe uma literatura em língua mirandesa?

 

 

Sempre existiu uma riquíssima literatura mirandesa de tradição oral, nos mais diversos domínios da expressão popular: poesia, romance, conto, cantiga, oração, etc. Uma parte importante desse património está ainda por recolher e, sobretudo, por organizar e estudar. Parte importante dessa literatura é em português e em castelhano, mas um núcleo significativo é em mirandês. Só por desconhecimento dos organizadores se pode compreender que apenas um poema popular mirandês figure na antologia Rosa do Mundo, editada em 2000 e que pretende ser representativa da poesia mundial dos últimos 2000 anos. Essa literatura, a par de outros aspectos da cultura mirandesa, faz parte do património cultural da humanidade

 

A literatura escrita em língua mirandesa inicia-se em 1884, com a publicação do poemário de José Leite de Vasconcelos, Flores Mirandesas. A este autor se devem também algumas traduções de trechos de Luís de Camões. Ainda no século XIX, assistimos à publicação de poemas originais por Francisco Meirinhos, de traduções de Camões e de Antero de Quental por Manuel Sardinha, de Camões e dos Quatros Evangelhos por Bernardo Fernandes Monteiro, autor que também publica a tradução de contos e diálogos vários. Deve-se a Francisco Garrido Brandão uma peça de teatro em mirandês, Sturiano i Marcolfa, publicada por José Leite de Vasconcelos e uma versão de inúmeros lhaços em mirandês, ainda inéditos.

 

Já no século XX, António Maria Mourinho publica vários poemas em mirandês, depois reunidos no volume Nuossa Alma i Nuossa Tierra, a que se veio juntar mais tarde o poema Scoba Frolida an Agosto e outros poemas dispersos. A um autor não mirandês se deve uma importante peça de teatro em mirandês, As Saias (1938), que chegou a ser representada no Teatro Nacional D. Maria II.

 

Este período, sem prejuízo do valor literário das obras produzidas, teve como principal finalidade o estabelecimento de um corpus que fixasse um património linguístico ameaçado, como é expressamente referido pelos autores. Porém, a evolução da língua mirandesa como língua literária, em sentido moderno, não tem parado, apesar de a pouca difusão das suas obras tornar tal realidade menos evidente. Também do ponto de vista literário não há línguas menores, porque nenhuma língua é, à partida, inferior a qualquer outra e a nenhuma está negada a capacidade de expressão literária elevada. É neste contexto que deve ser encarado o surto de literatura mirandesa a partir dos anos 90 do século XX, e o surgimento de autores vários que saliento têm vindo a publicar com mais ou menos regularidade:

 

i. na poesia, Adelaide Monteiro, Alcides Meirinhos, Amadeu Ferreira (e dos seus pseudónimos Fracisco Niebro, Marcus Miranda i Fonso Roixo), Célio Pires, Conceição Lopes, Domingos Raposo, Emílio Martins, José António Esteves, José Francisco Fernandes, Manuel Preto, Marcolino Fernandes, Rosa Martins.

 

ii. em prosa, Alcides Meirinhos, Alcina Pires, Alfredo Cameirão, Amadeu Ferreira (e os seus pseudónimos Fracisco Niebro i Marcus Miranda), Ana Maria Fernandes, António Bárbolo Alves, Bina Cangueiro, Carlos Ferreira, Duarte Martins, Faustino Antão, Válter Deusdado.

 

Várias das obras destes autores estão dispersas por jornais e revistas, em especial o Jornal Nordeste / Fuolha Mirandesa, mas também por sítios e blogs na internet, onde outros autores têm vindo também a fazer o seu caminho. A estes autores devem acrescentar-se vários escritores jovens que se têm revelado nos jornais escolares e na revista La Gameta. Muitas outras pessoas têm vindo a escrever mirandês com regularidade, mas já não no domínio literário, razão por que não são aqui referidas.

 

A capacidade de gerar literatura em vários níveis e em diversos géneros tem sido seguramente um dos modos de afirmação da língua mirandesa. Apesar de tudo o que fica dito, a literatura mirandesa é sobretudo uma literatura do século XXI, pois nos poucos anos deste século se escreveu mais do que em toda a história da língua. Embora ainda muito presa ao seu próprio passado, de cunho memorialista, e ao tema da própria língua, a literatura mirandesa, em especial a poesia, cada vez mais se aventura pelos caminhos da modernidade, nenhum tema ou forma lhe sendo alheios.

 

Como tem acontecido em qualquer literatura nascente, também em mirandês é muito significativo o número de traduções de obras de vário tipo, em particular a banda desenhada (Asterix, l Goulés e L Galaton), o conto e a poesia (Ls Lusíadas) e a história (Stória dua Lhéngua i dun Pobo, de José Ruy), para referir apenas alguns exemplos.

 

Uma boa maneira de ir acompanhando o que de novo se vai fazendo na literatura mirandesa é acompanhar os diversos blogues i sítios da internet acessíveis a partir de http://frolesmirandesas.blogspot.com

 

 

(continua – 14. Que uso faz o mirandês e os mirandeses da internet?)

 

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