O Pato algemado – 10 – coordenação de Carlos Loures

O Pato algemado

 


 
  
  

 

 

 

O nosso convidado de hoje, Ricardo Araújo Pereira, nasceu em Lisboa em 28

 de Abril de 1974 – chegando três dias atrasado à Revolução (é uma piada que o tem acompanhado desde o berço). Licenciado em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica, trabalhou como jornalista no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Na agência “Produções Fictícias” foi co-autor de alguns programas de humor. O sucesso chegou, no entanto, quando ligado a José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis criou o Gato Fedorento. Hoje em dia, o Gato Fedorento, nos seus diversos formatos, constitui a principal referência do humor televisivo em Portugal.

 

Agradecemos a RAP e aos seus companheiros, ao humor inteligente que os caracteriza, os momentos de boa disposição que nos têm proporcionado.

 

 

 

 

 

Orgias sexuais repletas de sexo, cópulas, coitos e fornicaçõespor Ricardo Araújo Pereira

 

 

 

 

O caso das orgias promete ser ainda mais orgástico do que parecia. Ora ainda bem. Não há nada como uma boa orgia para animar um povo, e o nosso bem precisa que o animem. Uma rápida pesquisa na internet revela que os jornais Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Sol e a revista Lux noticiaram o caso, fazendo referência, não a orgias, mas a “orgias sexuais”. Preocupados com a confusão que sempre se estabelece quando se fala de orgias, vários meios de comunicação puseram um rigor especial nas notícias: as orgias de que se fala são mesmo de carácter sexual. Uma confirmação para aquela gente de horizontes limitados, que não conhece orgias de outro tipo; uma desilusão para todos os que esperam há anos uma boa orgia contabilística: uma dessas festas de que tanto se ouve falar, em que os convivas comparecem com dossiês e facturas e desatam libidinosamente a calcular o IRS uns dos outros.

 

Chamar “orgia sexual” a uma orgia constitui uma orgia lexical reveladora de uma orgia de significados. Por um lado, talvez os jornalistas sintam a necessidade de esclarecer que aquilo que se vê no vídeo é mesmo sexo. É possível que se trate de uma orgia tão canhestra que não cumpra os requisitos das orgias a que os jornalistas estão habituados. Por outro lado, pode dar-se o fenómeno inverso. Esta, sim, é a verdadeira orgia, com sexo a sério, que se distingue das pífias orgias do costume a ponto de requerer o qualificativo de orgia sexual. A terceira hipótese, e mais preocupante, é a que aponta para o facto de os jornalistas desconhecerem que uma orgia é, por natureza, sexual. Analisemos cada uma das hipóteses, que o caso merece estudo amiudado.

 

A primeira hipótese é provável, até porque não há, até hoje, notícia de um vídeo caseiro de orgias que seja satisfatório. Por azar, são quase sempre filmes protagonizados por gente que não fazemos questão de ver vestida, quanto mais nua. As figuras públicas que realmente gostaríamos de ver num vídeo deste tipo, por descuido ou maldade nunca filmam a sua participação em orgias – sexuais ou outras.

 

A segunda hipótese parece inverosímil. Ficaria muito surpreendido se empresários do Norte e figuras do jet-set soubessem protagonizar uma orgia decente. Não duvido da sua capacidade de deboche, atenção. A minha intenção não é ofender. Limito-me a não acreditar que sejam capazes de deboche de qualidade.

 

Finalmente, a hipótese da ignorância dos jornalistas, que é intolerável. Aceito que um jornalista, no âmbito do seu trabalho, por ter de se debruçar sobre vários assuntos, não possa ser especialista em todos. Admito que um jornalista não saiba muito sobre economia, fraqueje na história, hesite na ciência política. Mas recuso ser posto ao corrente da actualidade por pessoas que não sabem o que se faz numa orgia. Há um mínimo de cultura geral de que uma sociedade civilizada não pode abdicar.

(in revista Visão)

 

                    Em louvor do piaçaba

                       “Uma das mais belas palavras da língua portuguesa”


  Ricardo Araújo Pereira explica sucinta, mas eloquentemente por que se deve dizer piaçaba e não piaçá.
  
  

 

  

1 Comment

Leave a Reply