Numa Europa de ontem ou de hoje, onde este texto se aplique, evidentemente que não pode ser uma Europa que integre, é uma Europa cujo processo de integração mais parece ser o da desintegração dos seus cidadãos, uns contra os outros, segundo a pura lógica lei da mais desenfreada concorrência, bem defendida esta pela Comissão Europeia.
Numa Europa onde este texto se aplique é, então, uma Europa em que a maioria dos cidadãos que nela vivem, vivem então nos seus subúrbios e, se assim é, uma outra tomada da Bastilha se deseja.
Numa Europa onde este texto se aplique, é uma Europa submetida submetida à pura lógica dos mercadores financeiros, dos cavaleiros da noite cuja função é trazer para a luz do dia e por eles que só a noite conhecem, os valores dos activos, cuja função é então a de tornar transparente o que pela mãos deles nunca o será, é uma Europa submetida à lógica dos especuladores dos diversos quilates que Proudhon tão bem denuncia no texto citado e de que nós todos somos hoje as verdadeiras vítimas. E, para além de tudo , como a citação o assinala e como a realidade o prova, para estes violadores da ética ou sem ela não há lei, não há justiça que os limite na sua ganância de se poderem estar a apropriar do trabalho dos outros e, face à necessidade de acumulação produtiva, esses mesmos recursos andarem a esbanjar. E esta é a Europa dos nossos dias…
Numa Europa onde este texto se aplique como o é a Europa dos nossos dias, uma outra tomada da Bastilha assume assim o carácter de necessária, de urgente. Está na nossa mão, na mão de todos nós, criar as condições para que o sonho de muitos que ainda mal sabem sonhar ou que o sabem de forma mais amarga como os Indignados de Atenas , de Madrid, de Lisboa ou de outras cidades, se venha em realidade a transformar.
São estes os nossos votos para este dia
Júlio Marques Mota
Um texto de antes da tomada da Bastilha
Face ao espectáculo de algumas fortunas rápidas, inatacáveis talvez do ponto de vista de uma legalidade incompleta, mas perfeitamente ilegítimas face à consciência, e julgadas como tais, vive alquebrada a multidão das pessoas em quem a sede do bem-estar evoluiu mais rapidamente que o senso moral.
Uma convicção se formou no silêncio universal, espécie de profissão de fé tácita que substituiu nas massas os antigos programas políticos e sociais:
Que de todas as fontes de rendimento, a do trabalho é a mais precária e a mais pobre.
Acima do trabalho está em primeiro lugar o feixe das forças produtivas, fundo comum da exploração nacional de que o governo é principal agente de distribuição.
Vem em seguida a especulação entendendo-se por esta o conjunto dos meios, não previstos pela lei, ou não descortináveis pela justiça, para se apoderarem do bem alheio.
Que no resto a economia das sociedades é apenas, segundo a definição de grandes autores actuais, um estado de anarquia industrial, de concorrência e de guerra social, onde cada propriedade, privilégio, monopólio, tem direito a ser protegido e bem. Em que o direito e o dever são indeterminados pela sua própria natureza, a justiça só o é por excepção, a própria natureza de bem e do mal confundidos, a verdade é relativa, as contradições da teoria, o espírito dúbio da legislação, o arbitrário da autoridade, vêm sucessivamente desconcertar a razão e torcer a moral, onde enfim cada um é contra todos, submetido aos resultados da guerra (a concorrência) e só as leis desta é suposto ter que respeitar.
Proudhon, Le manuel du spéculateur, Paris 1857.
I Para uma outra tomada da Bastilha
- Estamos verdadeiramente próximos de uma nova revolução francesa .
Cédric Mas
O período actual revela-se rico de perigos e de perspectivas inquietantes. Entre o necessário desmoronamento ecológico e energético inerente à finitude do nosso mundo e do abismo económico e social a que nos destinam as nossas cegas elites, os tempos de hoje não nada de optimismos, pelo menos para as pessoas sensatas e advertidas que lêem os textos por este blog publicados .
É difícil contestar o lento desmoronamento de um sistema, que está em vias de implodir sob os nossos olhos impotentes. O único problema, é que embora espectadores desta auto-destruição, fazemos corpo com ela, e reencontremo-nos no meio das consequências dramáticas que este desmoronamento não deixará de provocar. Com efeito, vivemos (ou sobrevivemos ) graças a este sistema ao qual abandonamos toda as nossas capacidades de independência, e nos submetemos voluntariamente à uma distribuição hiper-especializada das tarefas.
Apesar disto, uma análise atenta dos factos e, sobretudo, dos seus encadeamentos e da sua própria dinâmica não deixa de ser apaixonante.
Os leitores atentos notarão até que ponto a referência a 1788 ocupa aqui um lugar central e aparece como interessante questionar esta referência , primeiramente para ver o que é que ela subentende em termos de análise da situação mas também para apreciar a sua pertinência.
Precisemos em primeiro lugar que a referência a 1788 só tem interesse na nossa intenção apenas porque foi o ano que precedeu 1789 (até agora , até mesmo o mais extremista dos monetaristas terá dificuldade em não aderir ao nosso objectivo – garantimos que esta adesão corre o risco de se apagar pouco depois desta última frase…), ou seja , é o ano em que se vive a explosão à face do mundo da Revolução francesa, cujos efeitos se fazem ainda sentir hoje, mesmo se eles se reduzem a reminiscências das esperanças nascidas nessa época, e desiludidas depois (decepção começada com o Thermidor e que se terminou em 1983, com uma etapa muito importante em 1885).
A pergunta merece por conseguinte ser colocada: estamos realmente numa configuração comparável à da sociedade francesa pré-revolucionária?
Várias das características da nossa sociedade permitem-nos assim pensar. Sem estar a entrar nos detalhes, embora sejam apaixonantes, assinalemos por conseguinte três séries “de concordâncias” entre a França de hoje e a de 1788:
* Uma sociedade socialmente bloqueada: as perspectivas de ascensão social estão gripadas pela multiplicação das rigidezes estruturais. As origens destes bloqueios são sobretudo sociais, mas também étnicas (é assim mesmo na França recente). Este bloqueio acompanha-se obviamente da multiplicação das situações de rendas ilegítimas, reforçando as desigualdades na distribuição dos rendimentos e do património, e alargando a prazo o sentimento intenso das desigualdades (que é mais devastador que a realidade das desigualdades);
* Uma sociedade politicamente exausta e em plena sensação de asfixiada: como em 1788, as políticas, que se limitam à uma casta endogâmica, já não têm mais soluções para oferecer e não alargam as suas competências senão para manter um poder da qual não sabem fazer nada mais de aceitável em relação ao interesse geral. Acrescentamos a isto a aplicação progressiva durante a queda da 5ª República, de um regime de novo absoluto, a que podemos chamar de O Estado absoluto, servidos por uma Corte à qual se opunham episodicamente os poderes provinciais (como no tempo das lutas entre Versalhes e os Parlamentos). Como em 1788, o nosso sistema político (à imagem do conjunto da sociedade) já não está em condições de permitir uma renovação dos homens, o que é sempre o melhor meio para assegurar a sua própria sobrevivência perante novas situações difíceis . Que se pense, por comparação com a tão mal fadada IIIª República que soube várias vezes renovar o conjunto da classe política (antes de ficar bloqueada e de se afundar com a ajuda activa da Alemanha nazi – e ainda que não tenha sido muito necessário ). A não renovação dos homens está intimamente ligada à não renovação das ideias políticas, a maior parte destas a serem propostas para as eleições em 2012 e simultaneamente a não serem nada mais do que a continuação de programas concebidos antes de 1985 (incluindo as posições extremas), e efectuados por homens (e mulheres) que acabaram os seus cursos entre 1975 e 1985 (“os mais jovens” terminaram antes de 1990), o que explica a sua incapacidade para oferecerem outra coisa que não sejam soluções “sem opções” (reproduzindo a famosa expressão de Thatcher, There is no alternative , mais conhecida por “TINA” );
* Por último, uma sociedade em regressão. É sobretudo este sentimento sentido no conjunto da população que se revela o elemento chave dos acontecimentos de 1789: a Revolução francesa corresponde a um período de dificuldades económicas que se sucedem a um período fausto, ou sentido como tal.
Será que se deve dizer que quando se pode estar a verificar a conjunção destes diferentes sintomas comuns, nos estamos então a aproximar inelutavelmente de uma nova revolução?
Nada é mesmo menos certo, porque existiram na nossa história rica de má situações e de catástrofes, períodos onde, apesar da reunião destes sintomas, ou mesmo de outros mais graves ainda, nada disto se veio a desencadear necessariamente sobre uma revolução.
Por outras palavras , a referência ao período pré-revolucionário é, sobretudo, uma formidável confissão de optimismo e de esperança (certamente sobre o longo prazo porque sobre o curto prazo , uma revolução não tem nada de alegre). No entanto, a relação entre que a forma como vivemos hoje e a forma como viveram os nossos antepassados em 1789 não é nem automática, nem infelizmente inelutável.
A realidade oferece com efeito perspectivas ainda menos alegres. A que outro período poderíamos comparar a nossa situação actual?
Poderíamos tentar a comparação com a queda do Império romano, mas neste caso, a tarefa corre o risco de encontrar rapidamente os seus limites. Com efeito, a queda desta formidável construção humana foi lenta e sobretudo submetida a outros causas, e os sintomas nem sequer são os mesmos (a pressão do exterior, chamada impropriamente mundos bárbaros, era bem mais viva que hoje).
Existe uma outra época que parece mais propícia à comparação com o mundo actual: trata-se da grande crise medieval do XIV e do XV século , época que foi um dos períodos mais sombrios da história do Ocidente. Esta época marcou duravelmente os sobreviventes, ao ponto de ser muito importante sobre a percepção havida do conjunto da Idade Média, injustamente ignorado e condenado.
Descobrimos assim uma crise de origem financeira (já), ligada à liberalização das trocas e à monetarização das economias (tenha, tem…) acompanhada de constrangimentos ambientais excepcionais (brutal arrefecimento do clima, gerando muito más colheitas e fomes) e epidemiológicos (é a época da peste negra).
Ora, apesar de vazio das elites (Rei louco, nobres vendidos ao Ingleses…) e da existência de desigualdades dramáticas na sociedade, não houve lugar a nenhuma revolução, ainda que numerosos “motins ” foram reprimidos e com banhos de sangue.
Bem pelo contrário, ao preço de um esforço formidável, a monarquia saiu reforçada ao ponto de chegar a transformar-se e de se tornar um sistema caracterizado pelo absolutismo real, que começou a ser teorizado no final desta época.
Estaremos de acordo que tal perspectiva não tem nada de alegre , dado que se sabe que as vítimas da crise desaparecem fisicamente (entre as guerras, as epidemias, e sobretudo as fomes terríveis com os últimos casos provados de canibalismo em França), e a um nível tal que levaria à redução de quase metade da população no espaço de um século!
Há aí também os métodos de produção agrícola e industrial que se alteram bastante mas com um enormíssimo custo social , (fim dos pastores, substituídos pelas pastagens que necessitam muito menos mão de obra), e de modificações das estruturas (aparecimento das corporações…).
E por último, chegamos ao resultado oposto ao previstas depois de 1789: o aumento de poder dos poderosos quanto à violência e à dependência ideológica (renovação do fanatismo religioso, as perseguições das minorias…) dos mais fracos, quando estes conseguem sobreviver dado o desaparecimento brutal dos recursos e dos equilíbrios que lhes asseguram a sua subsistência.
O nosso propósito não é aqui o “pintar o diabo sobre a muralha”, mas sim o de querer reflectir sobre a possibilidade de uma tal evolução, fundada nomeadamente sobre a ausência de reacção da maioria, vítima das desordens actuais causadas por aqueles que delas se aproveitam. Não é com efeito certo que a crise actual desemboque inelutavelmente sobre uma nova sequência “revolucionária”, por referência à que se desenrolou entre 1789 e 1799.
Com efeito, não é certo que os acontecimentos actuais conduzam “a uma saída pela parte de cima”, que permitiria encarar uma melhoria duradoura da sociedade, como foi nomeadamente o caso em 1789 ou 1945.
Sublinhemos nomeadamente, que contrariamente a 1788 ou 1929, a crise do nosso sistema político e social pode num futuro próximo conjugar-se com constrangimentos externos excepcionais, ligados ao esgotamento dos recursos e às degradações climáticas. O seu desmoronamento não provocará inelutavelmente o questionar das elites que estão directamente na sua origem. Existiram épocas, não muito remotas, onde pelo contrário, a ocorrência de graves crises conduziu a uma situação caracterizada , por imensos sofrimentos e por um reforço dos poderes daqueles mesmo que se tinham bem aproveitado do sistema falido, e de que eram fortemente responsáveis.
Trata-se de um elemento de reflexão importante que não é necessário perder de vista na preparação “do mundo depois de “.
Com efeito, os prazos aproximam-se, a existência mesmo de uma tal eventualidade poderá fundamentar-nos nas nossas reflexões, mas também nos poderá alertar sobre os pontos de inflexão importantes que vão ocorrer, a fim de nos ajudar nas escolhas que cada um de nós deverá fazer. Trata-se por conseguinte de lutar contra o risco de que o nosso futuro colectivo não mude de uma perspectiva de esperança para um horizonte bem mais sombrio.
(Continua)
