De uma tomada da Bastilha que se fez a uma outra que ainda está por fazer – 1. Estamos verdadeiramente próximos de uma nova revolução francesa. Por Cédric Mas. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Numa Europa de ontem ou de hoje, onde este texto se  aplique, evidentemente  que não pode ser  uma Europa que integre, é uma Europa cujo processo de integração  mais parece ser o da desintegração dos seus cidadãos, uns contra os outros, segundo a pura lógica lei da mais desenfreada concorrência, bem defendida esta pela Comissão Europeia.


Numa Europa onde este texto se  aplique é, então, uma Europa em que a maioria dos cidadãos que nela vivem, vivem então nos seus  subúrbios e, se assim é, uma outra tomada da Bastilha se deseja.


Numa Europa onde este texto se aplique, é uma Europa submetida submetida à pura lógica dos mercadores financeiros, dos cavaleiros da noite cuja função é trazer para a luz do dia e por eles que só a noite conhecem, os valores dos activos, cuja função é então a de tornar transparente o que pela mãos deles nunca o será, é uma Europa submetida à lógica dos especuladores dos diversos quilates que Proudhon tão  bem  denuncia no texto citado e de que nós todos somos hoje as verdadeiras vítimas. E, para além de tudo , como a citação o assinala e como a realidade o prova, para estes  violadores da ética ou sem ela  não há lei, não há justiça  que os limite na sua ganância de se poderem estar a apropriar do trabalho dos outros  e, face à necessidade de acumulação produtiva, esses mesmos recursos andarem a esbanjar. E esta é a Europa dos nossos dias…


Numa Europa onde este texto se aplique como o é a Europa dos nossos dias, uma outra tomada da  Bastilha assume assim o carácter de necessária, de urgente. Está na nossa mão, na mão de todos nós, criar as condições para que o sonho de muitos que ainda mal sabem sonhar ou que o sabem de forma mais amarga como os Indignados de Atenas , de Madrid, de Lisboa ou de outras cidades, se venha em realidade a transformar.


São  estes os nossos votos para este dia

 

Júlio Marques Mota

 

Um texto de antes da tomada da Bastilha


Face ao espectáculo de algumas fortunas rápidas, inatacáveis talvez do ponto de vista de uma legalidade incompleta, mas perfeitamente ilegítimas face à consciência, e julgadas como tais, vive alquebrada a multidão das pessoas em quem a sede do bem-estar evoluiu mais rapidamente que o senso moral.


Uma convicção se formou no silêncio universal, espécie de profissão de fé tácita que substituiu nas massas os antigos programas políticos e sociais:


Que de todas as fontes de rendimento, a do trabalho é a mais precária e a mais pobre.


Acima do trabalho está em primeiro lugar o feixe das forças produtivas, fundo comum da exploração nacional de que o governo é principal agente de distribuição.


Vem em seguida a especulação entendendo-se por esta o conjunto dos meios, não previstos pela lei, ou não descortináveis pela justiça, para se apoderarem do bem alheio.


Que no resto a economia das sociedades é apenas, segundo a definição de grandes autores actuais, um estado de anarquia industrial, de concorrência e de guerra social, onde cada propriedade, privilégio, monopólio, tem direito a ser protegido e bem. Em que o direito e o dever são indeterminados pela sua própria natureza, a justiça só o é por excepção, a própria natureza de bem e do mal confundidos, a verdade é relativa, as contradições da teoria, o espírito dúbio da legislação, o arbitrário da autoridade, vêm sucessivamente desconcertar a razão e torcer a moral, onde enfim cada um é contra todos, submetido aos resultados da guerra (a concorrência) e só as leis desta é suposto ter que respeitar. 


Proudhon, Le manuel du spéculateur, Paris 1857.

 

 

 

I  Para uma outra tomada da Bastilha

 

  1. Estamos verdadeiramente próximos de uma nova revolução francesa .

 Cédric Mas

 

O período actual revela-se rico de perigos e de perspectivas inquietantes. Entre o necessário desmoronamento ecológico e energético inerente à finitude do nosso mundo e do abismo  económico e social a  que  nos destinam as nossas cegas elites, os tempos de hoje não nada de  optimismos, pelo menos para as pessoas sensatas e advertidas que lêem os textos por este blog publicados .

É difícil contestar o lento desmoronamento de um sistema, que está em vias de  implodir  sob os nossos olhos impotentes. O único problema, é que embora espectadores desta auto-destruição, fazemos  corpo com ela, e reencontremo-nos no meio das consequências dramáticas que este desmoronamento não deixará de provocar. Com efeito, vivemos (ou sobrevivemos ) graças a este sistema ao qual abandonamos toda as nossas capacidades de independência, e nos submetemos voluntariamente à uma distribuição hiper-especializada das tarefas.

Apesar disto, uma análise atenta dos factos  e, sobretudo, dos seus encadeamentos e da sua própria dinâmica não deixa de ser  apaixonante.


Os  leitores atentos  notarão até  que  ponto a referência a 1788 ocupa aqui um lugar central e aparece como interessante  questionar esta referência , primeiramente para ver o que é que ela subentende em termos de  análise da situação  mas também para apreciar a sua pertinência.

Precisemos  em primeiro lugar que a referência a 1788 só tem interesse na  nossa  intenção  apenas porque foi o ano que precedeu 1789 (até agora , até mesmo o mais extremista dos monetaristas  terá dificuldade  em  não aderir ao nosso objectivo – garantimos que esta adesão corre o risco de se apagar pouco depois desta última frase…), ou seja , é o ano em que se  vive a explosão à face do mundo da Revolução francesa, cujos efeitos se fazem  ainda sentir hoje, mesmo se eles se reduzem   a  reminiscências  das esperanças nascidas nessa época, e desiludidas depois (decepção começada com  o Thermidor e que se terminou em 1983, com uma etapa muito importante em 1885).


A pergunta merece por conseguinte ser colocada: estamos  realmente numa configuração comparável à da sociedade francesa pré-revolucionária?

Várias das características da nossa sociedade permitem-nos assim  pensar. Sem estar a entrar nos detalhes, embora sejam apaixonantes, assinalemos  por conseguinte três séries “de concordâncias” entre a França de hoje e a de 1788:

* Uma sociedade socialmente bloqueada: as perspectivas de ascensão social estão gripadas  pela multiplicação das rigidezes estruturais. As  origens destes bloqueios são sobretudo sociais, mas também étnicas (é assim mesmo na França recente). Este bloqueio acompanha-se obviamente da multiplicação das situações de rendas ilegítimas, reforçando as desigualdades na distribuição dos rendimentos e do património, e alargando  a  prazo o sentimento intenso das  desigualdades   (que é mais devastador  que a realidade das desigualdades);

* Uma sociedade politicamente exausta e em plena sensação de asfixiada: como em 1788, as políticas, que se limitam à uma casta endogâmica, já não têm mais soluções  para oferecer e não alargam as suas competências senão para manter  um poder da qual não sabem fazer nada mais de aceitável em relação ao interesse geral. Acrescentamos a isto a aplicação  progressiva durante a queda da  5ª  República, de um regime de novo absoluto, a  que podemos chamar de O Estado absoluto, servidos por uma Corte à qual se  opunham  episodicamente os poderes provinciais (como no tempo das lutas entre Versalhes e os Parlamentos). Como em 1788, o nosso sistema político (à imagem do conjunto da sociedade) já não está em condições de  permitir uma renovação dos homens, o que é sempre  o melhor meio para assegurar a sua própria sobrevivência perante novas  situações  difíceis . Que se pense, por comparação com a tão mal fadada  IIIª República que soube várias vezes renovar o conjunto da classe política (antes de ficar bloqueada  e de se afundar  com a ajuda activa da Alemanha nazi – e ainda que  não tenha sido muito  necessário ). A  não  renovação dos homens está intimamente ligada à  não renovação das ideias políticas, a maior parte destas a serem propostas para as eleições  em 2012 e simultaneamente a não serem nada mais do que  a continuação de programas concebidos antes de 1985 (incluindo as posições extremas), e efectuados por homens (e mulheres) que acabaram os seus cursos entre 1975 e 1985 (“os mais jovens” terminaram antes de 1990), o que explica a sua incapacidade para  oferecerem  outra coisa que não sejam  soluções “sem opções” (reproduzindo a famosa  expressão de Thatcher, There is no alternative , mais conhecida  por  “TINA” );

 
* Por último, uma sociedade em regressão. É sobretudo este sentimento sentido  no conjunto da população que se revela o elemento chave dos acontecimentos de 1789: a Revolução francesa corresponde a um período de dificuldades económicas que se sucedem a um período fausto, ou sentido como tal.

Será que se deve dizer que quando se  pode  estar a verificar  a conjunção destes diferentes sintomas comuns, nos estamos  então a aproximar  inelutavelmente de uma nova revolução?

Nada é mesmo menos certo, porque existiram  na nossa história rica de má situações  e de catástrofes, períodos onde,  apesar da reunião destes sintomas, ou mesmo de outros mais graves ainda, nada disto se veio a desencadear  necessariamente sobre uma revolução.

Por  outras palavras , a referência ao período pré-revolucionário   é, sobretudo, uma formidável confissão de optimismo e de esperança (certamente sobre o longo prazo porque sobre o curto prazo , uma revolução não tem nada  de alegre). No entanto, a relação entre que  a forma como vivemos hoje e a forma como   viveram os nossos antepassados em 1789 não é nem automática, nem infelizmente inelutável.

A realidade oferece com efeito perspectivas ainda menos alegres. A que  outro período poderíamos comparar a nossa situação actual?

Poderíamos tentar a comparação com a queda do Império romano, mas neste caso, a tarefa  corre o risco de encontrar rapidamente os seus limites. Com efeito, a queda desta formidável construção humana foi lenta e sobretudo submetida a outros causas, e os sintomas nem sequer são os  mesmos  (a  pressão do exterior, chamada impropriamente mundos bárbaros, era bem mais viva que hoje).

Existe uma  outra época que parece mais propícia à comparação com o mundo actual: trata-se da grande  crise medieval do XIV e do  XV século , época que foi um dos períodos mais sombrios da história do Ocidente. Esta época marcou duravelmente os sobreviventes, ao ponto de ser muito importante  sobre a percepção havida do conjunto da Idade Média, injustamente ignorado e condenado.

Descobrimos assim uma crise de origem financeira (já), ligada à liberalização das trocas e à monetarização  das economias (tenha, tem…) acompanhada de constrangimentos ambientais excepcionais  (brutal arrefecimento  do clima, gerando muito más colheitas e fomes) e epidemiológicos (é a época da peste negra).

Ora, apesar de vazio das elites (Rei louco, nobres vendidos ao Ingleses…) e da existência de desigualdades dramáticas na sociedade, não houve lugar a nenhuma revolução,  ainda que numerosos “motins ” foram reprimidos e com banhos de   sangue.

 

Bem pelo contrário, ao preço de um esforço formidável, a monarquia saiu reforçada ao ponto de chegar a transformar-se e de se  tornar  um sistema caracterizado pelo absolutismo real, que começou a ser teorizado  no final desta época.

Estaremos de acordo  que tal perspectiva não tem nada de alegre , dado que se sabe que  as vítimas da crise desaparecem  fisicamente (entre as guerras, as epidemias, e sobretudo as fomes terríveis com os últimos casos provados de canibalismo em França), e a um nível tal que levaria à redução de quase metade da população no espaço de um século!

Há aí  também os métodos de produção agrícola e industrial  que se alteram bastante  mas com um enormíssimo custo social ,  (fim dos pastores, substituídos pelas pastagens  que necessitam muito menos mão de obra), e de modificações das estruturas (aparecimento das corporações…).

E por último, chegamos ao resultado oposto  ao previstas depois de 1789: o aumento de poder dos poderosos  quanto à  violência e à  dependência ideológica (renovação do fanatismo religioso, as perseguições das minorias…) dos  mais fracos, quando estes conseguem  sobreviver dado o desaparecimento brutal dos recursos e dos equilíbrios que lhes asseguram  a sua subsistência.

O nosso propósito não é aqui o “pintar o diabo sobre a muralha”, mas sim o de querer  reflectir sobre a possibilidade de uma tal evolução, fundada nomeadamente sobre a ausência de reacção da maioria, vítima das desordens actuais causadas por aqueles que delas se aproveitam. Não é com efeito certo que a crise actual desemboque inelutavelmente sobre uma nova sequência “revolucionária”, por referência à que se desenrolou entre 1789 e 1799.

Com efeito, não é certo que os acontecimentos actuais conduzam  “a uma saída pela parte de cima”, que permitiria encarar uma melhoria duradoura da sociedade, como foi nomeadamente o caso em 1789 ou 1945.

Sublinhemos  nomeadamente, que contrariamente a 1788 ou 1929, a crise do nosso sistema político e social pode num futuro próximo conjugar-se com constrangimentos externos excepcionais, ligados ao esgotamento dos recursos e às degradações climáticas. O seu desmoronamento não provocará inelutavelmente  o questionar   das elites que estão directamente na sua origem. Existiram  épocas, não muito  remotas, onde pelo contrário, a ocorrência de graves crises conduziu a uma situação caracterizada , por imensos sofrimentos e por  um  reforço dos poderes daqueles mesmo que se tinham bem aproveitado do sistema falido, e de que eram fortemente responsáveis.


Trata-se de um elemento de reflexão importante que não é necessário perder de vista na preparação “do mundo depois de “.

Com efeito, os prazos  aproximam-se, a existência mesmo de uma  tal eventualidade poderá fundamentar-nos nas nossas reflexões, mas também  nos  poderá alertar  sobre os pontos de inflexão importantes que vão ocorrer, a fim de nos ajudar  nas escolhas que cada um de nós deverá fazer. Trata-se por conseguinte de lutar contra o risco de que o nosso futuro colectivo não mude  de uma perspectiva de esperança para um horizonte bem mais sombrio. 

 

(Continua)

 

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