O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade – 29 – por Raúl Iturra

 

Na teoria da personalidade freudiana[1] o inconsciente é o oculto – um outro da consciência – bem como a “verdadeira realidade” do psíquico, realidade relacionada funcionalmente com as noções de repressão e resistência. O maior problema é definir o conteúdo destes conceitos, bem como da consciência. Vivemos num mundo onde a resistência faz parte da vida. Na época do nosso analisado Freud, denominada vitoriana, porque sim, já que de empatia simpática pouco tinha e de ética ainda menos, havia um comportamento privado pouco amável e um outro público de muita simplicidade, eticamente aprovado. O meu amigo Hawking, foi capaz de viver apesar da sua doença (esclerose múltipla), criar os seus filhos, criar instrumentos para poder comunicar com os outros, aceitar o abandono da sua mulher. Steven marcou um ponto aprofundado na sua resistência. Ainda hoje, já Professor Emérito continua a pesquisar, o seu consciente não é reprimido pelo seu inconsciente, bem pelo contrário: o inconsciente fornece-lhe dados para ir sempre em frente.

 

Como eu com as minhas “gallalias”, que não encontrava, mas sabia existirem e bruxuleava para as encontrar, da mesma forma que Hawking descobre conteúdos dentro dos buracos negros que Einstein apenas soube identificar, sem neles entrar. O próprio Freud forneceu algumas respostas, num primeiro momento, definiu o inconsciente como o reprimido, em 1915, no seu texto O Inconsciente[2]. Mais tarde, altera a sua hipótese ao defender que o conteúdo do inconsciente representava as pulsões de vida e morte. O conceito de pulsão substituiu a clássica ideia de instinto, sendo o conceito inconsciente uma noção limite entre o somático e o psíquico. Conteúdos exprimidos em forma de “fantasia”, “textos imaginários”; fantasias e textos imaginários ligados ao conceito de pulsão, conceitos que se podem identificar como uma verdadeira encenação do “desejo”[3]. No entanto, os factos da cronologia histórica têm desmentido que o inconsciente seja um repressor.

 

O inconsciente é o amigo da razão que não descansa até não saber o porquê dos factos, acordados ou em sonhos. Os sonhos são a fantasia do Talmude, mas ao mesmo tempo e como o Talmude diz, aos que o entendem, a fantasia sem razão faz parte da realidade, quer dizer, desse dia-a-dia que nos leva a encontrar soluções para os problemas materiais. A título de exemplo, diria que Einstein, Hawking e pessoas como eu, pensamos com a razão, criamos ideias, que o consciente não apenas permite, bem como se apoia no inconsciente para ver a luz no fim do túnel. A pulsão não é uma falta de instinto, eu diria que é dinamizadora de actividades criativas, como tão bem provam Cyrulnik, Bion, Klein e Miller.


NOTAS:

 

[1]A teoria da personalidade de Freud está definida em vários textos, especialmente nos dois referidos antes : Le moi le ça, de 1923 e no Au-delà du principe du plaisir, de1920. Mas, para os mais leigos, o curso de Freud, de 1916, passado a livro, pode ajudar à sua elucidação: Introduction à la psychanalyse (Leçons professées en 1916).

Traduzido do alemão, com a autorização e revisão do autor, pelo analista Dr. S. Jankélévitch, em 1921, pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/intro_a_la_psychanalyse/intro_psychanalyse_1.doc. São dois cadernos com anexos, iniciando Freud com a seguinte frase: “Penso ser o meu dever supôr que não é sabido por vós que a psicanálise é uma metodologia médica para curar pessoas que sofrem de doenças nervosas”, a versão francesa diz: «Je dois toutefoi supposer que vous savez que la psychanalyse est un procédé de traitement médical de personnes atteintes de maladies nerveuses». Também no seu texto de 1901: Psychopathologie de la vie quotidienne. Application de la psychanalyse à l’interprétation des actes de la vie quotidienne, passado a livro, em Paris, revisto pelo autor, reeditado pelas Edições Payot, 1975, 298, pp., na colecção Petite bibliothèque Payot, nº 97. A versão francesa (1901) pode ser lida em: http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/psychopathologie_vie_quotid/Psychopahtologie.doc

 

 Define-se personalidade a tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros indivíduos, ou seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua individualidade pessoal e social. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único a cada indivíduo. O termo deriva do grego persona, com significado de máscara, designava a personagem representada pelos atores teatrais no palco. O termo é também sinônimo de celebridade. Pode-se definir também personalidade por um conceito dinâmico que descreve o crescimento e o desenvolvimento de todo o sistema psicológico de um indivíduo. Uma outra definição de personalidade passa por considerá-la como: a organização dinâmica interna daqueles sistemas psicológicos do indivíduo que determinam o seu ajuste individual ao ambiente. Mais claramente, pode-se dizer que é a soma total de como o indivíduo interage e reage em relação aos demais. Sobre esta temática, consulte-se http://pt.wikipedia.org/wiki/Personalidade.

[2] Texto citado antes e que, mais uma vez reitero, pode ser lido em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/laplanche.htm

 

[3] Para entender a relação psicanálise e felicidade precisamos resgatar alguns dos seus conceitos e categorias. O primeiro deles é o desejo. O desejo é humano, demasiadamente humano. O desejo (Der Wunsch), tal como é entendido pela psicanálise, não é a mesma coisa que necessidade. Enquanto a necessidade é um conceito biológico, natural, implicando uma tensão interna que impele o organismo para uma determinada direcção, no sentido da procura da redução dessa tensão ou satisfação, logo, a auto conservação (ex.: necessidade de fome, então procuramos comida), o desejo, sendo de ordem puramente psíquica, é desnaturado e como tal pertence à ordem simbólica. Enquanto a necessidade é biológica, instintiva e busca objectos específicos (comida, água, etc.) para reduzir a tensão interna do organismo, o desejo não implica uma relação com esses objectos concretos, mas sim, com o fantasma ou fantasia. Ou seja, “o fantasma é, ao mesmo tempo, efeito do desejo arcaico inconsciente e matriz dos desejos actuais, conscientes e inconscientes.

Texto completo em: http://www.espacoacademico.com.br/059/59esp_limafregonezzi.htm

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