A fábrica da alma estandardizada – por Eva Illouz*

 

Construir consensos e pacificar as relações, levar as pessoas a conhe­cerem-se, privilegiar o diálogo, dominar as emoções – tudo isto são virtudes hoje em dia recomendadas nas empresas e na vida privada. Será por tais virtudes personificarem um comportamento idealmente adulto ou por favorecerem uma melhor rendi­bilidade do indivíduo?

 

 

 

Toca um despertador. No seu aparta­mento  de  Nova  Iorque,  Michael Galpert. de 28 anos, empresário da Internet, salta da cama. Retira da cabeça a faixa que regista durante a noite as suas ondas cerebrais e estuda o alinhamento das fases do seu sono. Vai à casa de banho, pesa-se e calcula a sua massa muscular com um instrumento digital que põe esses dados na Internet.» Mais tarde, Michael Galpert instala-se no seu escritório. «Um britânico desenrola um gráfico de 3,65 metros que identifica as flutuações da sua disposição de espírito ao longo do ano anterior. (…) Deslocações, suor, cafeína, recor­dações, stresse, sexo e encontros, tudo pode ser reduzido a uma estatística. E embora o necessário instrumento ainda não tenha sido inventado, sê-lo-á com certeza nos próximos anos.»1 Inclusive no que diz respeito à alma.

 

Apresentado pelo Financial Times, este arqué­tipo do homem moderno considera que o seu próprio «eu» não depende do desconhecível nem do infinito, mas sim de um conjunto de forças materiais, químicas, susceptíveis de serem medidas e controladas a partir de um modelo abstracto de «normalidade».

 

O pensamento pré-moderno tinha uma outra concepção do humano. Postulava com frequência a existência da alma, «superior» ao corpo, inson­dável, eterna, ligada ao divino, tendência que o cris­tianismo exprimirá com grande intensidade. A alma era concebida como infinita, embora susceptível de ser perturbada por aquilo a que se chamava as paixões, ou seja, os sentimentos, as disposições de espírito, os afectos; em suma, tudo quanto se furtava à razão e à vontade. O cristianismo identifi­cava por vezes as paixões com os sete pecados capi­tais, de que as pessoas podiam purificar-se recorrendo a actos de penitência. As paixões inte­gravam-se numa concepção moral do indivíduo e aprender a dominar as emoções fazia parte da formação geral dos membros da comunidade humana, formação essa que promulgava ou combatia uma visão do bem e do mal, da salvação e da condenação.

 

A passagem das paixões da alma para as emoções definidas como uma série de elementos manipuláveis faz parte daquilo que o sociólogo Max Weber designou como «desencanto do mundo», a perda da fé, a vagatura do sentido, que bem pode constituir uma das características do nosso tempo, consubstanciada na racionalização da vida pelas instituições da ciência e da tecnologia (que abolem o «mistério» reduzindo o mundo a uma série de objectos de conhecimento) e pela lógica própria à economia de mercado, exigindo esta que o indi­víduo ponha a sua vida interior em concordância com o seu interesse pessoal. Tudo o que não concorrer para o lucro imediato é desconsiderado e tido como inútil. Mas a riqueza emocional poderia contrapor-se a este desencanto, apresen­tando a possibilidade de dar sentido às vivências na sua totalidade e de as pessoas se empenharem nelas com empolgamento. Era o que pensava Max Weber. Mas ele não previu a força dos movimentos que após a Primeira Guerra Mundial, e ainda mais claramente após a Segunda Guerra Mundial, deci­diram racionalizar até mesmo as emoções2.

 

 

Vender o nosso «eu», positivo e eficaz

 

Difíceis de dominar, as emoções escapam muitas vezes à consciência. Como constata o narrador do romance de Philip Roth, Indignation, «aceitei com alegria trabalhar para o meu pai quando tive de o fazer e aprendi docil­mente tudo o que ele pôde ensinar-me a respeito do talho. Mas nunca conseguiu levar-me a gostar do sangue, nem sequer a ser-lhe indiferente»3. Admite-se em geral que podemos aprender a esconder os nossos sentimentos, mas que os senti­mentos em si mesmos não se educam. Terá a junção entre ciência e mercado aberto novos hori­zontes neste âmbito?

 

Wilhelm Wundt, cujo trabalho se revelou deci­sivo para o reconhecimento da psicologia experi­mental como ciência, introduziu a requalificação da alma como «personalidade» ou como «psiquismo», desde então moldável, quando afirmou que a noção de alma não era pertinente para o investigador e que só a observação de fenómenos físicos permitia compreender os seres humanos. A psicologia trans­formou assim radicalmente a imagem do «eu», graças a um ideal de saúde mental e de bem-estar que penetrou em todos os campos da sociedade: na economia (com as teorias da gestão de empresas), na educação (com os modelos pedagógicos), na vida privada (com os conselheiros conjugais), nas prisões (com os programas de reabilitação), na publicidade, no marketing e nos media (com os programas de debate), e até nos conflitos interna­cionais, com a abordagem dos traumatismos resul­tantes das guerras e dos genocídios. A psicologia integrada no mercado propõe terapias no mundo inteiro fazendo do indivíduo autónomo, da saúde mental e do desenvolvimento pessoal objectivos a atingir e objectos de consumo. Para vender este novo produto – o «eu» positivo e eficaz – a psico­logia utiliza normas de apreciação e de medida do indivíduo e das suas emoções.

 

Nos Estados Unidos, no início da década de 1920, os psicólogos, com frequência influenciados por uma interpretação simplificada do pensamento freudiano, já tinham contribuído de forma eficaz para o recrutamento no exército ou para a cura dos traumatismos de guerra, tendo então o mundo empresarial decidido recorrer às suas competências para avaliar os trabalhadores e melhorar as relações profissionais e a produtividade.

 

Através de testes da personalidade estabelecidos na primeira década do século XX e destinados a ter um papel determinante4, esses psicólogos encarre­garam-se de seleccionar os candidatos que corres­pondiam melhor às características do emprego. E desde a década de 1930, na sequência de Elton Mayo, fundador da escola das «relações humanas», os sentimentos dos trabalhadores tornaram-se o principal objecto das técnicas de gestão de empresas, a partir daí científica. Estão assim inven­tariadas vinte e cinco espécies de testes da persona­lidade, que representam um mercado de 400 milhões de dólares; 89 das 100 maiores empresas utilizam estes exames para admitir pessoal e formar os seus empregados5.

 

Doravante, para levar as pessoas a darem o seu melhor nas empresas, os responsáveis já não têm que exercer pressões sobre outrem, como fazia o contramestre de outrora; em contrapartida, têm de exercer um controlo sobre si mesmos, de modo a personificarem a eficácia e a racionalidade – de modo, em suma, a dirigirem a vertente humana da rendibilidade. Torna-se assim indispensável que os indivíduos dominem as suas emoções, sobretudo as negativas, recomendando também os psicólogos que eles apresentem um estado de espírito cordial, favorável à cooperação. O espírito de equipa, a orientação positiva e a capacidade de empatia são os atributos do bem gestor de empresas, cujo papel consiste em transformar os dados afectivos em instrumentos de gestão.

 

Dos anos 30 aos anos 70, todas as teorias elabo­radas nos manuais de gestão empresarial conver­giram para um modelo cultural: a «comunicação». Para ser um bom comunicador, o indivíduo tem de saber avaliar-se «objectivamente», devendo portanto saber como é visto pelos outros. Daí a necessidade do trabalho de introspecção, para iden­tificar as emoções, nomeá-las, avaliá-las, comparando a imagem que tem de si mesmo com a imagem que os outros têm a seu respeito. Mas também tem de saber interpretar o comportamento dos outros e compreendê-lo por dentro, disso dependendo a sua aptidão para evitar conflitos e para criar um clima de cooperação. A comunicação difunde técnicas e meca­nismos susceptíveis de serem aplicados em toda a parte, do âmbito privado à esfera política, com vista a pacificar as relações e contribuir para defender os interesses próprios do comunicador, permitindo-lhe ao mesmo tempo «respeitar» o outro, quer seja filho, esposa ou colega.

 

Para atingir este ideal, é necessário que o indi­víduo intelectualize as emoções; que ultrapasse os sentimentos negativos e se abra a experiências posi­tivas; que deixe de ser arrebatado, que prefira o meio-termo, onde se equilibrem a atenção a ter com ele próprio e com outrem, e que saiba que a flexibilidade de carácter favorece a cooperação. Poder controlar as suas emoções mostra a capaci­dade de reconhecer e defender os seus próprios interesses – coisa hoje em dia assimilada a um sinal de maturidade. O postulado da ligação entre os tipos de carácter e o desempenho profissional e social está no âmago da noção de «inteligência emocional».

 

Esta noção, que surgiu na década de 1990, adquiriu rapidamente o estatuto de novo instrumento de avaliação de competências. Graças a ela, os psicó­logos puderam «descobrir» objectivamente aquilo que eles próprios haviam forjado: o papel das emoções na avaliação. Confirmou-se assim que o modo como cada indivíduo governa as suas emoções revela características essenciais, que podem ter valor suficiente para o pôr num lugar de direcção.

 

 

Crianças aptas para o espírito empresarial

 

Foi esse o fim do longo processo que quis submeter as emoções a objectivos econó­micos. A inteligência emocional – a capaci­dade de o indivíduo se controlar – serve como instrumento de classificação no mundo do trabalho e age como factor de homogeneização. São muito frequentados os estágios em que as pessoas aprendem a modificar o seu comportamento, e nas escolas as práticas pedagógicas procuram fornecer às crianças as ferramentas que as tornem aptas ao espírito empresarial: autodomínio, empatia, flexibi­lidade e boa disposição de espírito. A inteligência emocional e a comunicação são intermutáveis, agindo ambas sobre o campo emocional como instrumento de bom desempenho económico. Nos empregos de média complexidade (vendedor, mecânico), a produtividade do trabalhador mais eficaz é doze vezes superior à dos menos bons; nos empregos mais complexos (segurador, gestor de títulos financeiros), o empregado mais eficaz é pelo menos duas vezes mais produtivo do que a média. Uma investigação levada a cabo em mais de duzentos grupos empresariais aventa que cerca de um terço desta diferença decorre da aptidão técnica e das capacidades cognitivas e que os outros dois terços resultam da competência emocional; em lugares de direcção, essa diferença pode corres­ponder a mais de quatro quintos.

 

É um dos aspectos mais originais da economia do século XX: a pessoa, naquilo que tem de íntimo, tornou-se alvo de uma indústria cuja principal mercadoria é o indivíduo. Para que o ser humano seja cada vez mais rentável, estandardizou-se a alma.

 

* Professora de Sociologia. Autora do livro Les Sentiments du capitalisme. Seuil, Paris, 2006.

 

1  April Dembosky, «Invasion of the Body Hackers», Finan­cial Times, Londres, 10 de Junho de 2011.

2  Ler Manière de voir, n.” 96, «La fabrique du conformisme», Dezembro de 2007-Janeiro de 2008.

3  Philip Roth, Indignation, Gallimard, Paris, 2010. [Edição portuguesa: Indignação, Dom Quixote, Lisboa, 2009.]

4  Andrew Abbot, The System of Professions: An Essay on the Division of Expert Labor, University of Chicago Press, 1988.

5  Annie Murphy Paul, The Cult ofPersonality, Free Press, Nova Iorque, 2004.

 

(in Le Monde Diplomatique, versão portuguesa, Nº. 61, II Série, Novembro de 2011)

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