Consultório Linguístico – Verbos irregulares – por Magalhães dos Santos

 

 

 

 

Ainda não me foram transmitidas reações negativas (muito menos furibundinas…) a respeito de eu ter começado dois destes textos com uma anedota… De modo que, enquanto as “queixas” chegam e não chegam e enquanto me ocorrerem historinhas a propósito do que eu quero transmitir… aí vão elas… (as historinhas…)

 

Num dos estabelecimentos de Ensino em que fui professor, calhou-me de ter uma turma constituída por uma única aluna. (Nos meus sexto e sétimo anos do Liceu fui eu próprio único aluno em Francês e eem Grego. O meu professor de Francês no sexto ano, o tão saudoso Pai Lisboa, chamava-me “o seu numeroso aluno”…)

 

A cachopa… coitada dela… e de mim, que cinco ou não sei quantas horas por semana tinha de estar sozinho com ela, sem que ela fosse nem de longe (literalmente e não só…) “coisa” que se visse…. nem que se ouvisse. Não era descendente do Newton nem do Einstein e não se contasse com ela para Prémio Nobel fosse de que fosse.

 

Um bazulaque!

 

Um dia quis alertá-la quanto à conjugação de certos verbos irregulares compostos de outros também irregulares. E lembrei, por exemplo, o verbo TER, dos mais importantes. Se, com um verbo regular, como BEBER ou COMER (para muito boa gente COMER E BEBER não são ações muito regulares…), o imperfeito do indicativo é, BEBIA, BEBIAS, BEBIA, e COMIA, COMIAS, COMIA, o pretérito perfeito desse mesmo modo é BEBI , BEBESTE, BEBEU, e COMI, COMESTE, COMEU, com o verbo TER a coisa fia mais fino: TINHA, TINHAS, TINHA, e TIVE, TIVESTE, TEVE.

 

E o grande perigo está em “regularizar”, isto é: conjugar com as terminações dos verbos regulares verbos que não o são.

Pelo que, “levados” pelas aparências e pelas falsas analogias, há distraídos que dos verbos CONTER ou MANTER, por exemplo, dizem contia, contias, contia, ou conti, conteste, conteu, em vez dos corretos CONTINHA, CONTINHAS, CONTINHA, ou CONTIVE, CONTIVESTE, CONTEVE.

 

Ou, com o verbo MANTER, dizem  erradamente, mantia, mantias, mantia, ou manti, manteste, manteu, em vez de dizerem corretamente MANTINHA, MANTINHAS, MANTINHA, ou MANTIVE, MANTIVESTE, MANTEVE.

 

Acabada a exemplificação, perguntei à cachopa se tinha percebido.

 

– Percebi, sim!

 

Graças a Deus, percebia sempre. O pior era quando eu ia testar aquela perceção toda…

 

E lá fui eu confirmar:

 

– Então, diga o pretérito perfeito simples do verbo REAVER…

 

Saiu só isto:

 

– EU REAVINHEI, TU REAVINHASTE, ELE REAVINHOU…

 

Dominei-me e ensinei-lhe (não sei se ensinei… só se pode garantir que se ensinou quando se tem a certeza de que a outra pessoa aprendeu…) que o verbo solicitado se conjuga, naquele tempo e modo:

 

EU REOUVE, TU REOUVESTE, ELE REOUVE…

 

 

 

Para não me ficar só pela trágica anedota, sempre lhes digo-lembro que da primeira conjugação, em –AR, são dois os verbos: DAR e ESTAR. É provável que, com historinha ou sem ela, volte a este assunto dos verbos irregulares.

 

 

1 Comment

  1. Meu caro amigo Magalhães dos Santos, já se perguntou o que pensaria a aluna dessa “”coisa” que se visse” literalmente – não no sentido do saber, claro – ser o professor? Da história gosto, desse aparte não.

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