EMPOBRECEI! – Por Fernando Preira Marques

François Guizot, académico e político francês que foi chefe do Governo nos anos quarenta do século XIX, ficou conhecido por, em determinada altura, ter exortado os seus concidadãos a “enriquecer”: Enrichissez-vous! Importa dizer que tal não constituía propriamente a síntese de um programa, mas sim uma resposta aos que reivindicavam o fim das restrições censitárias e o sufrágio universal. Se queriam votar, então que tivessem rendimentos para isso. Passos Coelho, actual primeiro-ministro, ficará na história por ter traçado para os portugueses, como horizonte de futuro e “desígnio nacional”, o empobrecimento: Empobrecei! Horizonte e desígnio de tal modo assumidos pelos membros do seu Governo que um secretário de Estado, pasme-se, da Juventude, em recente alocução aconselhou os jovens… a emigrarem.

 

Dir-me-ão que estou de má-fé e que pretendo fazer ironia deturpando o que pretendiam de facto dizer os referidos governantes. Mas não. O problema reside em eles pensarem exactamente o que disseram e de as suas políticas serem com isso coerentes.

 

Na verdade, após anos de euforia especulativa, de liberalismo selvagem, de fundamentalismo mercantil, de domínio do capital financeiro e de consequente desmantelamento das estruturas produtivas – inclusive através da deslocalização e do dumping social – , aqui, à nossa dimensão, como em grande parte dos países desenvolvidos, europeus e de outros continentes, a realidade acabou por se impor como já tinha acontecido – para não falar noutros períodos – em 1929 e na década seguinte do século passado. No que nos concerne a isto se devendo acrescentar, a partir dos consulados de Cavaco Silva, um ciclo de desbaratamento de fundos europeus, de promiscuidade entre negócios e política, de nepotismo e compadrio, de auto-estradas fazendo ver até ao ricos países nórdicos, de PPPs, BPNs, estádios grandiosos, Euros futebolísticos e Expos, espectáculo e novo-riquismo, caciques locais esbanjadores, gestores públicos e privados com ordenados milionários, banqueiros de pacotilha, crédito a rodos e ao preço da uva mijona, cartões “Gold” que chegavam pelo correio sem ninguém os pedir.

 

Inevitavelmente, quando se gasta sem produzir e como valores que não correspondam a riqueza produzida só servem para forrar paredes (e agora com a informática nem para isso), presas da sua própria visão da economia e do mundo, mas sobretudo dos seus interesses, os responsáveis por essas políticas e pelo seu desenlace procuram agora salvar-se salvando a banca e os que lhes pagam, desmantelando serviços públicos essenciais, privatizando empresas estratégicas, eliminando conquistas sociais obtidas pela luta de gerações e reduzindo, drasticamente, os rendimentos dos que trabalham e dos mais desfavorecidos. É isto a que chamam “políticas de austeridade”, ou se se quiser, de empobrecimento dos já pobres ou daqueles medianamente acima desse limiar (as classes médias). Por isso, reconheçamos, Passos Coelho e os seus ajudantes são sinceros.

 

Essas “políticas de austeridade”, monetaristas e privilegiando a oferta, já se viram noutros tempos, e será bom reler a série de textos dos anos 30 em que Keynes as denunciava e desmontava. Os seus resultados foram recessão, desemprego, desagregação social e política. Em poucas palavras, contribuíram para a profunda crise que precedeu a II Guerra Mundial e para o advento de regimes autoritários/totalitários.

 

Temo que, contrariamente ao que dizia Marx, a História se repita mas não em comédia, sim outra vez em drama. Sobretudo quando nos apercebemos da cegueira, da ignorância histórica, da pusilanimidade de quem tem actualmente responsabilidades de governação, particularmente na Europa e também entre nós. É patético como, nos últimos dias, descobriram que governar democraticamente pode ter inconvenientes, incluindo o de se poder consultar a vontade dos povos através de um referendo ou de como se lembraram de que existem militares na Grécia. Isto é, tão deslumbrados estão pelos holofotes das salas de reuniões e a ostentação dos palácios por onde vagueiam, que ignoram que a Democracia não é um urso de peluche como o que a Senhora Merkel – a Führer da UE – ofereceu, ternurenta, ao seu petit ami Sarkozy, mas uma construção complexa que assenta em relações de forças, pois as sociedades são compostas por pessoas que se podem tornar multidões organizadas e mobilizadas, consequentemente que podem determinar os equilíbrios de poder. Aparentemente não se apercebem do perigoso fosso que se aprofunda entre as instituições democráticas e os cidadãos, nem das manifestações de radicalismo fascizante que crescem um pouco por todo o lado e, pelos vistos, esqueceram-se mesmo de que há poucos anos – falo da década de 90 – houve guerra no coração da Europa, massacres, campos de concentração. Isto para não referir outros focos de instabilidade e outras ameaças.

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