Júlio Marques Mota comenta o artigo do Le Monde “AAA: aberto inquérito após o erro da S&P”, saído hoje.

Aos visitantes, aos leitores, aos viajantes argonautas  

 

Esta manhã fiquei pasmado. Ontem acabei   um texto intitulado “Debaixo do fogo dos mercados financeiros, dos ataques da União Europeia: os países periféricos: um outro olhar sobre os CDS” e que  está para revisão onde escrevi, mas foi ontem e não hoje : “Todos os Estados-Membros estão dependentes dos mercados financeiros, devido aos clausulados em que está fundamentada a União Monetária. No caso presente bastou que a taxa de financiamento público possa ser diferente país a país com percepção de risco também ela diferente Estado-membro a Estado membro  para que a brecha pela qual os mercados de capitais passaram a dominar a União Europeia se transformasse numa verdadeira auto-estrada onde estes se passeiam como querem e lhe apetece, impondo estranhamente, a cada país a taxa de financiamento ou refinanciamento que quiserem. As regras são então dos mercados e aos Estados cabe a obediência e a adaptação sucessiva às regras que lhes são por aqueles impostas. Por essa via, são todas as políticas nacionais que são claramente afectadas e duvidamos que assim se possa dizer que os países são verdadeiras democracias. Eu, pessoalmente, diria que não, que somos governados pela ditadura dos mercados financeiros, por um poder sem rosto, pelos comerciantes do medo que eles instalam em todos os mercados para aí melhor poderem especular, fazendo disparar as taxas de juro sobre a dívida soberana de cada país”

 

Esta manhã leio o texto de Le Monde abaixo publicado e mais uma vez creio que os senhores que presidem, sob o nosso silêncio, aos destinos da União Europeia  nos estão politicamente a destruir como cidadãos, como pessoas , como projecto pessoais e colectivos, como futuro, o nosso, o dos nossos filhos, o dos nossos netos, o de todas as gerações vindouras, porque os custos desta venda “soberana” aos mercados de capitais vai ter custos a pagar durante décadas.


No início de Setembro publicámos um a longa série de textos a que demos o título de Rumores, Tremores, Tumores, onde também aí houve enganos, mas esses enganos registam-se num outro passivo, o da França o da Europa dos cidadãos. A realidade continua a mostrar-nos que são textos a reler por quem já os leu, ou textos a ler por quem destas  matérias quer aprender.


Olhemos para o gráfico que no texto do Le Monde coloquei, olhemos para os valores do princípio de Agosto, e poderemos sem margem para dúvida que esta variação de spread custará à França anualmente cerca de 20 milhares de milhões, pois um por cento de 2 milhões de milhões representa 20 milhares de milhões a mais  de encargos na dívida soberana, encargos que o Estado deve pagar! Inacreditável.  Façamos o exercício de uma outra maneira. Vejamos os cortes orçamentais propostos em Agosto e em Novembro expressos no texto do Le Monde:  12 mil milhões mais 7 mil milhões agora! As contas são fáceis de fazer,  mas para aqueles  que as irão pagar  será muito mais difícil.


A terminar esta pequena nota deixem-me citar um pequeno texto de um dos maiores especialistas dos mercados financeiros,  um pequeno excerto de um texto de Frank Partenoy:

 

“No entanto, as agências de rating de crédito diferem dos outros guardiães em várias e importantes maneiras. Embora as agências de rating de crédito tenham funcionado tão  mal como os outros guardiães durante os últimos cinco anos, os seus valores de mercado, os seus lucros pura e simplesmente dispararam. Desde 2002, como as empresas de valores mobiliários alteraram  as suas práticas sobre  títulos sujeitando-as às acções de notação, de rating,  em resposta a uma onda de litígios entre agentes privados  e a repressão do governo (assim como  o declínio geral na reputação das classificações de analistas de valores mobiliários), o processo de classificação de crédito manteve-se praticamente  intacto  e as agências de rating de crédito tornaram-se mais proeminentes, mais importantes e valiosas.

Além disso, as agências de rating de crédito continuam a ter enormes  conflitos de interesses que são potencialmente mais graves do que os de todos  outros guardiães: eles continuam a ser pagos directamente pelos  emitentes, dão  ratings não solicitados que pelo menos exercem sobre os emitentes fortes pressões para lhes pagarem  honorários, e que adicionalmente comercializam serviços de consultoria relacionadas com a atribuição de  notação. As agências de rating tem aumentado de importância  na  finança estruturada e nos novos e complexos produtos de dívida, particularmente os derivados  de crédito, que hoje geram uma parte substancial dos rendimentos e lucros das agências de rating. Em relação a esses novos instrumentos, as agências têm-se situado mais como “gateopeners” do que guardiães, do que gatekeepers; (…)

Uma outra razão pela qual as  agências de rating de crédito diferem dos  outros guardiães é que eles têm estado  amplamente imunes quanto à sua  responsabilidade civil e criminal por prevaricação.  Mais importante ainda, vários juízes aceitaram em tribunal – erradamente, na minha opinião – os argumentos das agências de rating de que as suas notações  são opiniões protegida pela Primeira Emenda (…).

As notações sobre créditos  continuam a apresentar um paradoxo fora do comum:  as variações dos seus ratings são importantes  ainda que possuem pouco valor informativo.

 

Os ratings de crédito não ajudam  as partes interessadas a gerirem  o risco, ainda que as partes interessadas dependam cada vez mais destes mesmos ratings. As agências de notação de crédito não são muito consideradas entre  os participantes sofisticado dos mercados, mas a sua franquia é cada vez mais valiosa. As agências argumentam que estas  são apenas editores de opiniões de jornalistas financeiros ainda que as  suas notações sejam para a opinião pública  muito mais valiosas do que as opiniões dis mais  proeminentes e respeitados editores financeiros. “

 

Em vez de nos protegerem a casa,  as agências funcionam mais como os agentes que abrem as portas das nossas casas, dos nossos países, do nosso presente e do nosso futuro   à voragem do ladrões, são sobretudo isto em vez  do que guardiães  do que deviam guardar.  E é a estes que a União Europeia e as restantes instituições têm guardado vassalagem, tem dado cobertura, têm legalmente garantido a sua importância, e agora disso se queixam. Pelo tribunal da História devem ser todos eles julgados, nas suas masmorras devem ser bem guardados e a pão de futuro apenas devem ser alimentados e no julgamento dos votos aí, isso sim, devem ser definitivamente penalizados.

 

E é tudo.

 

Júlio Marques Mota

 

AAA : enquête ouverte après l’erreur de S&P

 

 

A Autoridade dos mercados financeiros anunciou na quinta-feira 10 de Novembro a abertura de um inquérito sobre a informação errada difundida nesse  dia pela agência de notação Standard and Poor’s a respeito de uma suposta degradação da nota soberana francesa. Paris tinha pedido mais cedo à  AMF e à  Autoridade de supervisão financeira europeia para tomarem em mãos esta questão.


A agência de notação financeira Standard and Poor’ s (S&P) reconheceu, de facto,  ter difundido por erro a alguns dos seus assinantes um “mensagem” anunciando que a nota da França tinha sido baixada, com o risco de aumentar o nervosismo já  extremo dos mercados perante o contágio da crise da dívida soberana  na Europa. “Não é o caso: a nota da República francesa permanece  inalterada ao nível ‘AAA‘, acompanhada de uma perspectiva estável, e este incidente não está  ligado a nenhuma  actividade de vigilância da nota “, indica o comunicado da agência.


O ministro francês das finanças, François Baroin,  qualificou de  “rumor bastante chocante as  informações que não correspondem a nenhum fundamento”. “Não se deixará passar nenhuma mensagem negativahttp://conjugaison.lemonde.fr/conjugaison/search?verb=passer. Tem-se uma estratégia, tem-se um linha a realizar  em matéria de défices que está  fixada. Não se mudará  um  milímetro sequer, “, declarou na quinta-feira em Lyon à  margem de uma conferência sobre a economia.


O  PRIMEIRA ALERTA DE MOODY’S

 

Este erro, que  a agência de notação prometeu esclarecer, acontece na altura em que a diferença entre a taxa a 10 anos da Alemanha e da França atingiu  um novo recorde histórico na quinta-feira, para além dos 170 pontos básicos. Este spread  reflecte a diferença de tratamento pelos investidores entre os dois países, sendo no entanto que os   dois países têm a mesma notação, triplo A, os AAA, atribuídos pelas agências de rating.

 

 

Fonte Bloomberg

 

 

Em meados de Outubro, a agência Moody’s tinha dado um primeiro golpe rasteiro ao triplo A da França, ao anunciar  que dentro de três meses iria  determinar e informar de seguida se a perspectiva “estável” da nota tinha estado  a ser  justificada, perante a degradação da situação económica. Este anúncio desempenhou um papel importante na decisão do governo francês de anunciar na segunda-feira um novo plano de austeridade, que prevê economias de 7 mil milhões de euros em 2012. Este programa de austeridade veio acrescentar-se  a um precedente conjunto  de medidas no final de fim Agosto era suposto que se arrecadasse 12 mil milhões de receitas suplementares em 2011 e 2012.

 

A França beneficia actualmente da melhor nota possível por parte das três agências de notação que são Moody’s, Standard and Poor’ s e Fitch Ratings. Esta notação  permite-lhe ir ao mercado de capitais levantar fundos  em condições teoricamente muito favoráveis. As agências de notação, que avaliam para os investidores a capacidade dos Estados ou das empresas honrarem a sua dívida, são  acusadas de ditar a sua lei aos governos da zona euro, que multiplicam as garantias  de boa vontade em relação aos mercados para não colocarem  em perigo o financiamento da sua dívida.

 

 

Le MondeAAA : enquête ouverte après l’erreur de S&P11 de Novembro de 2011

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