UM CAFÉ NA INTERNET – «A 20 de Novembro», peça de Lars Norén, pelo Teatro dos Aloés – por António Gomes Marques

Um café na Internet

 

  

Aconteceu no dia 9 de Novembro, no Recreios da Amadora, a estreia da peça de Lars Norén, com tradução de José Peixoto, revista por Solveig Nordlund, brilhante interpretação do jovem actor João de Brito, muito bem dirigido por Jorge Silva, ali se mantendo em cena até ao dia 20 de Novembro, seguindo-se a habitual digressão da companhia.

 

 

 

 

Lars Norén

 

Mas quem é este autor? Nascido em Estocolmo, Suécia, em 9 de Maio de 1944, é um dos mais importantes autores suecos, tendo-se estreado como poeta em 1963 e, como dramaturgo, em 1973, sendo autor de mais de 70 peças e um dos dramaturgos mais representados em todo o mundo e, seguramente, as suas peças são das mais produzidas na Europa por um autor vivo. Em Portugal, por exemplo, estreou-se com «Demónios», em 1997, a que se seguiram «A noite é mãe do dia» (1998); «Coragem para matar» (1999); «Categoria 3.1 / Morire di classe» (2001); «O caos é vizinho de Deus» (2001); «Acto» (2004); «A ronda nocturna» (2008); «Do Amor» (2011), em representação pela Companhia de Teatro de Almada, estreada no Festival deste ano; e agora «A 20 de Novembro», sendo esta peça uma notável demonstração do teatro sociológico que passa a produzir a partir de 1990.

 

Actualmente, Lars Norén é o Director do Teatro Nacional de Gotemburgo desde 2009, tendo sido Director do Teatro Dramático Real e Director Artístico do Teatro Nacional desde final de 1999 até 2007.

 

Vive com a actriz Annika Hallin desde o início de 2000, de quem tem uma filha.

 

No Festival de Almada assistimos à encenação de Solveig Nordlund, que foi também a sua tradutora, mas foi na estreia deste novo espectáculo do Teatro dos Aloés, a que assistimos, que sentimos a importância deste autor, seguramente um dos dramaturgos que melhor mostra os tempos conturbados que vivemos e que muito nos ajudará a consciencializar que é necessário continuar a ter esperança e a lutar por um mundo melhor. Na verdade, foi um verdadeiro murro à Frazier ou à M. Ali que sentimos, confirmando o que com Sartre aprendemos: somos sempre responsáveis por tudo o que no Mundo acontece.

 

Mas o que José Peixoto escreveu para a «folha de sala do espectáculo» é bem elucidativo do conteúdo da peça que nos é apresentada, da sua importância para o momento que vivemos e também da razão de ser desta companhia de teatro.

 

Passemos então a palavra a José Peixoto:

 

A propósito de «A 20 de Novembro» Uma faceta interessante da nossa companhia é todos terem a possibilidade de propor textos e experiências e assim contribuir para a formação de um repertório ou de um programa. O colectivo aprecia e vai decidindo por consenso. Deste modo estamos mais ou menos todos envolvidos no projecto, o que me faz pensar ser decisivo para a nossa unidade e para a multiplicidade dos caminhos estéticos a percorrer e dos temas a abordar. É pelo menos um processo democrático. Depois levar ou não a cena vai depender de orçamentos e calendários e do apreço que quem distribui apoios tem por esta questão de não estar no centro, considerar útil trabalhar na periferia, não achar fundamental estar na moda, o que não significa não querer correr os riscos da inovação própria da arte, nem pensar que a internacionalização está antes de se fazer o que é preciso ser feito cá dentro. Por vezes esperamos alguns anos e por vezes outras questões mais imperiosas levam-nos a arquivar definitivamente projectos antigos. Mas há textos que não podem ser adiados, porque são do ” aqui e agora”, porque seria traição às razões que nos fazem estar no teatro. Aí a equipa dá as mãos, cerra fileiras, conjuga esforços, divide tarefas e vai para a frente contra ventos e marés. Dividir tarefas é outro acontecimento fundamental para a dinâmica e coesão internas, porque cada um de nós tem de fazer muita coisa, porque de outra maneira não haveria teatro neste país. Desta vez calhou-me a tarefa de apresentar uma proposta de tradução para ser revista, por um colectivo mais alargado. Devo confessar que a primeira leitura que fiz do texto de Lars Norén me perturbou, me fez perder o fôlego, me deixou perplexo, me desestabilizou. As leituras seguintes geraram em mim um crescente mal estar, uma imensa má consciência por tão tardiamente ter despertado para esta problemática, que tão urgente é preciso questionar. Diante de mim não estava só a violência, estava uma mão estendida, uma súplica, uma necessidade de amor, de paz, de fraternidade, de busca de um mundo melhor. Mesmo que encontremos razões genéticas, perturbações psicossomáticas próprias da adolescência, a sociedade não pode alijar a sua quota de responsabilidade tratando os seus filhos como massa informe. Responsáveis somos todos nós que o pretendemos integrar numa sociedade injusta onde ele não pode sobreviver, que ele não compreende, nem pode aceitar.

 

Para ele é a concorrência de valores absurdos, para a qual não está preparado, um percurso de rumo cego ao nada. O que lhe impõem é uma existência sem sentido. E não são questões de países distantes. É aqui onde eu vivo que isto acontece. Não poderei aceitar que digam aos jovens do meu país que se preparem para emigrar. Negam-lhes um futuro, fazem desaparecer um povo e um país. E não nos digam que fazemos um teatro sem esperança. Somos apenas o reflexo da sociedade onde vivemos. Muito me orgulho que no teatro, olhos nos olhos, seja possível abordar estas questões e que se não as resolvermos nesta sala, que cada um leve para casa esta inquietação e que no fundo da sua consciência nasça a vontade de agir, a capacidade de dizer não é isto que queremos, uma nova sociedade é possível, democrática, justa, fraterna e cooperante. E porque acreditamos que isso é possível continuamos a fazer Teatro.

 

Amadora, Novembro de 2011

 

 José Peixoto

 

 

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