(Conclusão)
Vamos agora apresentar alguns exemplos destas operações no século XIX.
1.1 A manipulação de John Lyon em 1872
A 6 de Outubro de 1871 deu-se um incêndio espectacular – conhecido como “the Chicago Great Fire ” que devastou uma grande parte da cidade e que destruiu designadamente o edifício e os arquivos do CBOT e 6 dos dezassete silos que aí estavam situados . Considera-se que a capacidade de armazenamento se reduziu assim de cerca de 8.000.000 de alqueires para cerca de 5.500.000 alqueires. Isto incentivou John Lyon, um importante comerciante de cereais, a lançar um ataque especulativo, um corner, na segunda metade de 1872. Associou-se com Hugh Maher, um comerciante de madeiras que se tornou comerciante de cereais e depois um importante agente imobiliário e com F.J. Diamond, um mais importantes corretores do CBOT cuja lista dos clientes compreendia nomeadamente Munn &; Scott, uma mais maiores empresas de armazenamento de trigo em Chicago.
Na Primavera de 1972 começaram a comprar simultaneamente trigo no mercado dito físico, secando este mercado e ocupando os silos e a comprarem contratos com prazo de conclusão em Agosto. Em Julho o preço do trigo atinge $1.16 – 1.18 para terminar no fim do mês a $1.35. Este aumento dos preços provoca chegadas maciças de trigo da colheita de1871 a Chicago. Se estes excedentes não existissem o trigo necessariamente continuaria a subir. Ascendiam, habitualmente, em cerca de 15.000 alqueires por dia. A partir de 15 de Julho atingiam 20.000 e depois, durante a última semana do mês de Julho, cerca de 25.000 alqueires por dia para se chegar aos 27.000 no início de Agosto.
Neste momento, a 5 de Agosto, um outro silo – Iowa Elevator – é destruído pelo incêndio. A propriedade deste silo era objecto de conflito jurídicos que implicava Hugh Maher. Esta destruição ainda limitou mais a capacidade de armazenamento em Chicago. Ao mesmo tempo as más condições atmosféricas suscitaram rumores segundo os quais a colheita de 1872 seria retardada para além do mês de Agosto. Isto provoca um forte aumento dos preços ao mesmo tempo no mercado físico e no mercado a prazo onde certos vendedores dos contratos tentam sair das suas posições, antes que os preços subissem mais e, por esta razão, procuravam neutralizar as suas posições anteriores, querendo comprar agora contratos, como o nosso aldrabão que chega ao CBOT a dizer que está a chover para fazer descer os preços. Mas aqui não descem, vão continuar a subir e trata-se de quererem comprar para minimizar as perdas. Acontece aqui o mesmo que aconteceu com os títulos da Volkswagen. No caso desta empresa (2009) os vendedores a descoberto descobriram que em vez de descerem os títulos da Wolkswagen subiam vertiginosamente, passam do de 200 euros a mais de mil! Neste contexto em que nós estamos, o do trigo no século XIX, o preço atinge $1.50 a 10 de Agosto e os $1.61 a 15 de Agosto, o que constitui o pico deste acontecimento.
Este aumento dos preços acelerou as colheitas nas regiões tributárias de Chicago (os rumores revelaram-se exagerados). Os agricultores querendo aproveitar-se do nível excepcional dos preços aumentaram consideravelmente o ritmo das colheitas. Ferris [3] refere-se aos comboios que se encaminhavam para as regiões de produção cheios de lanternas a fim de poderem iluminar os campos para assim se poder ceifar mesmo durante a noite. No regresso transportavam para Chicago quantidades de trigo cada vez mais importantes.
Estas chegadas eram muito mais importantes do que o que esperava Lyon e os seus amigos ao lançarem o ataque especulativo, o corner, obrigando‑os a comprar todo o trigo que aparecia, para que o seu preço não descesse. Esgotaram-se os recursos financeiros do grupo, obrigando-os a procurarem o apoio dos bancos da praça de Chicago.
Durante a maior parte do dia 19 de Agosto, Lyon continuava a fazer as suas aquisições de trigo mas deixou de o fazer quando soube que os bancos lhes recusaram empréstimos suplementares. Naquela data os preços desceram de 25 cêntimos para atingir os níveis de $1.27. Na manhã seguinte ao anúncio do malogro do corner os preços ainda cairam mais 17 cêntimos.
Isto conduziu à falência dos iniciadores do corner. J. Lyon ficou na ruína , P.J. Diamond destruiu as suas contas e desapareceu enquanto que Munn & Scott foram declarados em falência e obrigados a venderem os seus silos.
Durante a segunda semana de Agosto as chegadas de trigo ascendiam a 75.000 alqueires por dia para atingir os níveis de 172.000 a19 de Agosto. Esperava-se que as chegadas diárias até ao fim do mês de Agosto sejam de 175.000 a 200 000 alqueires por dia. Observou-se igualmente a inversão dos canais comerciais habituais. Com efeito o trigo era encaminhado das planícies de Mid-West em Chicago para redireccionarem por Búfalo para as grandes cidades da costa Leste. Os preços em Búfalo eram habitualmente mais elevados que os preços de Chicago. Mas nesse momento o preço em Chicago era suficientemente superior ao de Búfalo de modo que o trigo que já era expedido para Búfalo era reenviado de voltado para Chicago.
Quem eram os compradores deste trigo? De facto, para poder levar a bom fim o corner os manipuladores eram obrigados a manter os preços elevados e a controlar o trigo armazenado nos silos. É esta é a única condição para que pudessem pedir um preço extremamente elevado na data de execução dos contratos a prazo que estes tinham acumulado. É pois J. Lyon que era obrigado a assumir-se comprador destas novas chegadas.
É igualmente nesse momento que os silos que foram destruídos durante o incêndio do ano anterior foram restaurados, modernizados e aumentados. Por conseguinte a capacidade de armazenamento da praça comercial de Chicago aumentou de 2.000.000 alqueires em relação à situação de antes de “ O Grande Fogo “.
Estas chegadas eram muito mais importantes do que o que esperava Lyon e os seus amigos ao lançarem o ataque especulativo, o corner. Esgotaram-se os recursos financeiros do grupo o que os obrigava a procurarem o apoio dos bancos da praça de Chicago.
Uma história elucidativa da ganância dos homens, da lógica dos mercados não regulados como os de agora, que não se tornou colectivamente trágica porque havia bons excedentes, porque os Deuses também ajudaram com uma boa colheita desse ano, e se assim não fosse como em 2008 haveria possivelmente corpos destruídos pela fome que outra história nos contariam mais tarde.
Da Volkswagen, da fortuna que o corner operado pela família Porsche terá ou não realizado, dos milhões que ganhava por minuto nesse ano de 2008, falaremos numa outra crónica sobre este mundo estranho da alta finança.
E boa leitura.
Júlio Marques Mota
