
O menino Boris – por vezes mencionado como Bernard nos seus livros – foi salvo por uma mulher que o conhecia. Ela empurrou-o para dentro de uma ambulância, no exacto momento em que os seus pais e familiares eram deportados pela Gestapo para os campos de extermínio. Depois disso nunca mais os encontrou. Passou por vários abrigos e orfanatos e tornou-se ele próprio um grande resiliente. Vencedor na vida, especializou-se em conhecer melhor o comportamento humano, principalmente o dos denominados traumatizados. Como revelou numa entrevista transmitida na televisão francesa, carrega sempre no bolso, coberto por um lenço, o trauma que abalou toda a sua infância. Quando necessário, puxa do bolso um pedacinho daquele conteúdo e “tricota” algo criativo em forma de estudos, palestras e livros. Portanto, cada livro de Cyrulnik trata também da sua própria resiliência em permanente evolução. O seu depoimento serve de ajuda, como “tutor de resiliência”, para os grandes feridos da vida. Para a mulher que o salvou, Marguerite Farge, ele pleiteou a Medalha dos Justos entre os Justos, que ela recebeu em 1997.
Falar de amor à beira do abismo refere-se àqueles que superam um traumatismo e experimentam muitas vezes uma impressão de sursis , que multiplica o gosto da felicidade e o prazer de viver o que ainda é possível. Neste ensaio vibrante sobre a vida, o autor mostra que mesmo os que têm graves feridas afectivas podem transformá-las em grande felicidade. O título traz uma figura de retórica que o autor transforma em conceito para caracterizar os resilientes. Trata-se do oximoro, que consiste em associar dois termos antinómicos: falar de amor/beira do abismo. Aqueles que vencem um traumatismo conseguem fazer coabitar doravante o horror e a poesia, o desespero e a esperança, a tortura gelada e o calor humano. Esse título paradoxal surpreende-nos; é uma nova e rica contribuição que o autor desenvolve ao longo da obra.
Cyrulnik considera, no seu amor à beira do abismo, que, depois de um trauma psíquico, como o trauma físico, instala-se uma perda de tecido afectivo, com necrose e escarras. É carregar a morte dentro de si. Acrescenta: Todo traumatizado é obrigado a mudar, senão fica morto.
A obra de Cyrulnick passou a ser o panteão glorificante da salvação de muitos que têm sofrido desgarros na sua vida infantil, mas são capazes de os superar, tal como o autor que leva no bolso o trauma guardado dentro de um lenço .
NOTAS:
[1] Sursis é uma metáfora usada por Cyrulnick: Sursis é um instituto de Direito Penal com a finalidade de permitir que o condenado não se sujeite à execução de pena privativa de liberdade de pequena duração, ou seja, permite que, mesmo condenada, uma pessoa não fique na cadeia. Sursis quer dizer suspensão, derivado de surseoir, que significa suspender. Se o juiz define o prazo de dois anos para o sursis, o condenado ficará durante esse período em observação. Se não praticar nova infração penal e cumprir as determinações impostas pelo juiz, este, no final do período de prova, eterminará o fim da pena. Se durante o período de prova houver revogação do sursis, o condenado cumprirá a pena que se achava com a execução suspensa.
[2] Cyrulnik, Boris, 2003 : Le murmure des fantômes, Éditions Odile Jacob, Paris, retirado de : http://www.comprar-livro.com.br/livros/1853362127/ (citado anteriormente).
