A ADOPÇÃO VISTA POR CRIANÇAS por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

Inicia-se hoje e amanhã o II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ADOPÇÃO na Fundação Calouste Gulbenkian, numa organização conjunta da Associação Portuguesa para o Direito de Menores e da Família – CrescerSer com o Instituto da Segurança Social IP e Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

A esse propósito, abordarei aqui este tema em vários posts. Começo com uma conversa entre várias crianças, entre as quais duas a viver em duas instituições de acolhimento diferentes, em que numa delas uma criança tinha sido adoptada. É um bom começo para se ver o sofrimento, a confusão e as consequências no desenvolvimento psíquico que situações de carência afectiva trazem na vida pessoal e social das crianças. É a isto que a adopção pretende dar resposta.

A propósito de uma dificuldade de outra criança tinha-se estado a falar do tema “Mãe”. Uma das crianças, que não sabia nada da mãe avançou:

         

      C – Agora estou preocupado… a minha mãe pode estar a morrer e ninguém sabe… nos meus   pensamentos…

       M –Onde está a tua mãe ?

       C – Está no Algarve. Nunca estive com a minha mãe, só com o meu pai.

       M – Já foste adoptado ?

       C – Ela tinha um bebé na barriga e perdeu-o. Ele morreu na barriga dela. E se ela morrer? Ninguém sabe…

       M – Gostavas de ser adoptado?

       C – A minha mãe já levou uma facada num olho, foi operada.

       M –  Como sabes?

       C –  Ela telefona às vezes. Eu quero ver a minha mãe. Mas onde ela está ? É longe…

      M – Sabes o caminho para a tua mãe, para ir para casa? E a casa do teu pai? É perto? Tens um olho todo vermelho!

      C – Quando fico chateado fico com o olho vermelho…. Eu tenho um problema. Ela agora está a namorar com outro e ele pode matá-la. Ele é um vadio. Quando ela estava com o meu pai estava tudo bem… Às vezes o meu pai vai-me visitar…

      M – A mim, já não vem ninguém. A V. (irmã) e eu não queremos ser adoptados. A mãe já disse que tem medo que a gente seja adoptados.

      C – Ser adoptado… não sei… mas acho mal! Se a mãe morresse, se eu fosse adoptado.. Mas o que é isso? Estar com desconhecidos? O que é isso?!!

      M – Eu gostava de estar com a mãe, mas ela não sabe cuidar de mim.

      C – E o teu pai?

      M – O meu pai é bêbado.

      C – O meu pai bebe água e sumo. Tenho uma tia mas não a vejo. A minha mãe não quer saber de mim, eu tenho primos, ela está a cuidar dos primos em vez de nós, que somos filhos dela! … Eu queria que o pai e a mãe se juntassem outra vez. O pai vive com a tia que é muito má. Ela põe-me na rua quando está a chover. Depois o meu pai põe a tia na rua outra vez.

       M– No Natal, um dia nós não fomos a casa…

      C – Quando eu morava com a mãe, ela ia trabalhar e eu ficava em casa a jogar Playsation. Uma vez ela deixou-me no autocarro e eu fiquei com a mão presa. Quando ela me perdia dizia às outras pessoas: “Deixe estar que ele sabe o caminho de volta para casa”. Eu era muito pequenino e não sabia… O meu pai pegava-me ao colo com um dedo. O meu pai chega ao teto da casa. É muito alto e trabalha nas obras, de noite e de dia e ganha muito dinheiro. Quando ele não quer trabalhar vai visitar-nos a mim e ao meu irmão.

     M – Um amigo meu lá do ATL goza com a minha mãe. Diz que é gorda. Para mim ela é bonita.

      C – Se alguém gozasse com a minha mãe, eu ia-lhe à cara! Lá no colégio, um dia um miúdo gozou e levou!

 

 

 

 

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