Entre as crianças por mim observadas ao longo dos meus quarenta anos de trabalho, sou capaz de apreciar os desvios que elas fazem somente para não passarem pelo trilho do murmúrio dos seus fantasmas. Ideia retirada de uma das obras de Cyrulnick onde, ele próprio, acaba por confrontar esses meios que fazem dele um ser humano criativo, que guarda a força que dá o sofrimento, para construir obra. Como muitos de nós, ao longo da vida, tentamos esquecer as nossas tristezas e limitações emotivas, no meu caso, recorrendo à escrita. No dia em que não escrevo, sinto um dedilhar desse passado que no presente me atormenta na criação dos meus descendentes. Sempre pensamos estar a fazer o melhor, criamos rituais que, se não contribuem em nada, parece-nos ficarmos sem alternativas. Todavia, há sempre uma criação à nossa espera.
Mas o que mata? A pouco e pouco essa resiliência acaba por ser parte da nossa condenação em vida. Especialmente se estamos ao pé de pessoas que têm sofrido traumas e não sabem usar essa capacidade oxymoron ou resiliência, como já definido dentro deste texto que hoje escrevo . Cyrulnik, que foi capaz de sobreviver e criar novas ideias para apoiar as pessoas traumatizadas na infância, foi capaz de escrever não apenas textos sobre resiliência, bem como comentar como ela deve ser tratada. No livro citado em nota de rodapé, no Capítulo que corresponde, diz: Governados pela imagem que se faz de nós próprios.
A criança no decorrer das suas interacções quotidianas, aprende a contestar perante si, a ideia estruturada por ela própria, na relação de “ela com os outros”. Todo o ser vivente inevitavelmente reage às percepções que advêm do mundo externo, mas um ser humano pequeno, a partir do sexto mês de idade, contesta também as representações formuladas por ele ou representações “de ele com os outros”, construídas pelo próprio que impregnam a sua memória. Um ser humano recém-nascido apenas sobrevive se tem junto de si as imagens de referência de carinho, de vínculo protector, de afeição ou de apego emotivo. Sozinho, não tem nenhuma alternativa para se desenvolver, para crescer. No desenvolvimento espontâneo dos factos biológicos, a imagem afectiva, é, na maioria das vezes, a imagem da mãe, que tem levado a criança dentro de si.
No entanto, toda a pessoa que tenha alimentado com amor e boa vontade, outra mulher que não seja a mãe, ou um homem ou, ainda, uma instituição, passa a assumir a função de figura terna de apego, composta de imagens afectivas, de sentimentos afectivos e de factos carinhosos endereçados ao recém-nascido. Entre gesto e gesto de ternura e simpatia, esta realidade sentimental, sensorial, emotiva, impregna-se na memória do mais novo e ensina-lhe a pôr atenção a comportamentos certos que advêm das figuras de afeição. Toda a mãe infelizmente vencida pela sua história, pelo seu marido ou pelo contexto social, apenas pode emitir sentimentos de mulher deprimida: face pouco expressiva, falta de sedução corporal, olhares desviados dos outros, uma verbalização decaída. Por causa desse patamar de sentimentos da mãe, que invade e influência os sentires dos outros, o bebé aprende a reagir com comportamentos de decaimento emotivo.
A partir do primeiro ano de idade, é-lhe suficiente perceber essa figura de afecção, como uma imagem de apego emotivo infeliz, causando dor. O bebé não reage apenas a essa percepção de mãe triste, a sua reacção é do amor à beira do precipício, da falta de carinho emotivo aprendendo tristeza com antecedência, porque é infelicidade o que lhe é ensinado pela figura afectiva.
NOTAS:
Parte do texto está retirado da minha experiência, outra, especialmente a vida de Cyrulnick, do texto antes citado, que pode ser lido em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2007000400016&lng=es&nrm=iso,
denominado: Falar de amor à beira do abismo, Boris Cyrulnik. São Paulo: Martins Fontes, 2006, 181 pp, em: Rev. bras. Psicanál v.41 n.4 São Paulo dic. 2007, da autoria de Josette Czerny. O livro em língua lusa é uma tradução do livro em francês: Parler d’amour au bord du gouffre, Ódile Jacobs, 2004, Paris, 256 páginas, pode-se aceder a extractos, em:
Um desses extractos, retirados do capítulo que cito a seguir, diz: Gouvernés par l’image qu’on se fait de nous-même, título que em português seria: “Governados pela imagem que fazemos de nós próprios”. Esse capítulo tem ideias que traduzi para o texto central, guardei o original em francês, para esta nota de rodapé, que, entre outras ideias, desenvolve a seguinte: L’enfant a appris, au cours des interactions quotidiennes, à répondre à l’idée qu’il se fait de ” lui avec les autres “. Tout être vivant réagit inévitablement à des perceptions, mais un petit humain, dès le sixième mois, répond aussi à la représentation de ” lui avec les autres ” qui s’est construite en s’imprégnant dans sa mémoire. Un nouveau-né ne peut survivre que s’il dispose autour de lui de figures d’attachement. Seul, il n’a aucune chance de se développer. Dans le déroulement spontané des faits biologiques, la figure d’attachement est presque toujours la mère qui l’a porté. Mais toute personne qui veut bien s’occuper du nourrisson, une autre femme, un homme ou une institution, assume cette fonction de figure d’attachement composée d’images, de sensorialités et d’actes adressés au nouveau-né. De gestes en gestes, ce réel sensoriel s’imprègne dans la mémoire du petit et lui apprend à attendre certains comportements qui viendront de ces figures d’attachement. Une mère rendue malheureuse par son histoire, son mari ou son contexte social, émettra une sensorialité de femme déprimée : visage peu expressif, absence de jeux corporels, regards détournés, verbalisé morne. Dans un tel bain sensoriel qui traduit le monde mental de la mère, le bébé apprend à réagir par des comportements de retrait. Dès la fin de la première année, il lui suffit de percevoir cette figure d’attachement malheureuse pour qu’il attende des interactions de mère triste. Le bébé ne réagit pas seulement à ce qu’il perçoit, il répond à ce qu’il guette, il anticipe ce qu’il a appris. Dès la troisième année, le petit, arrivant à l’âge de l’empathie, devient capable de répondre aux représentations qu’il se fait des représentations du monde mental de sa mère, de ses motivations, de ses intentions et même de ses croyances : ” Elle va encore croire que c’est moi qui ai mangé le chocolat, alors que c’est mon frère. ” Un bébé qui se développe dans un monde glacé s’attend à ce que les autres lui apportent la glace. Il pense presque : ” Toute relation affective provoque le froid. ” À l’inverse, un enfant qui se sent aimé se croit aimable puisqu’il a été aimé. Cette empreinte dans sa mémoire, à l’occasion de la banalité des gestes de la survie, a donné à l’enfant une représentation de soi confiante et aimable, à laquelle il répond quand il entre en relation. Cet apprentissage donne un style affectif durable qui s’exprime encore lors des premières rencontres amoureuses : ” Quand je pense à qui je suis, je m’attends à ce qu’elle me méprise. ” Le jeune peut aussi penser : ” Quand je pense à qui je suis, je crois qu’elle va m’accepter. ” Cette représentation de ” moi avec un autre ” est une co-construction qui dépend des rencontres mais peut évoluer, comme tout phénomène de mémoire, vers l’effacement, le renforcement ou la métamorphose. Texto em :
http://www.psychotherapeutes.net/amour-gouffre.htm.
