PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE – Um grande espectáculo final – por Rui Vieira Nery

Iniciamos hoje a publicação de uma série de artigos e crónicas dedicados ao fado. No próximo dia 27 de Novembro, a UNESCO anuncia a decisão da comissão de peritos e saber-se-á se o fado vai integrar, ou não, o Património Imaterial da Humanidade. Começamos com este texto do Professor Rui Vieira Nery – prefácio da obra Amália – Confidências em Noite de Primavera, do escritor e ensaísta Luís Machado,  cujo lançamento decorreu no passado dia 10 de Novembro no Museu do Fado, em Lisboa, com apresentação de Eduardo Lourenço e Guilherme d’Oliveira Martins.

 

 

 

Amália deu ao longo da sua carreira de mais de meio século muitas entrevistas. Na sua maioria foram de mera circunstância, ao sabor da habitual obsessão mediática pela petite histoire pessoal das figuras célebres, com perguntas estereotipadas a que Amália se limitava a responder nesse mesmo registo de rotina. Noutros casos, como naquelas que resultaram no livro fundamental de Vítor Pavão dos Santos, Amália – Uma Biografia, de 1987, foram momentos de introspecção preciosos, que representam documentos indispensáveis ao conhecimento da sua vida, da sua personalidade e do seu pensamento. E já depois da sua morte foram vindo de quando em quando a lume registos póstumos de conversas tidas com alguns dos seus próximos, evocadas ora por escrito ora em testemunhos orais, alguns dos quais muito reveladores – a par com um ou outro caso de evidente fraude jornalística a posteriori, de teor manifestamente inverosímil para quem quer que a tenha conhecida de perto.

 

Esta conversa com Luís Machado, no contexto das tertúlias em que, ao longo da década de 90, este foi levando ao velho Martinho da Arcada tantas figuras centrais da vida cultural portuguesa, insere-se claramente na segunda destas categorias, com a particularidade de ser, muito provavelmente, a última grande entrevista da artista, dada a um interlocutor para com quem é evidente da sua parte uma postura de empatia pessoal e de respeito intelectual, e de representar, por isso, um depoimento precioso para fixar o que eram o seu estado de espírito e o seu olhar sobre si mesma nessa fase derradeira da sua vida.

 

Era uma fase marcada pela tristeza, como ela própria não se cansa de sublinhar ao longo da conversa. Amália sentia-se a chegar ao fim («tenho esta idade, não posso correr como corria»), com a voz a traí-la («hoje em dia a voz já não é a mesma, eu já não sou a mesma») e angustiada com esse confronto, não tanto com a morte, por si mesma, mas com uma vida em que já não podia continuar a conquistar o afecto do seu público senão pelas memórias da grandeza passada. E para essa angústia, como a entrevista igualmente deixa bem claro, tinha contribuído muito o choque da onda de rejeição inesperada com que se deparara subitamente após o 25 de Abril («fizeram-me muito mal»), inclusive por parte de algumas pessoas do seu círculo tradicional de amigos ou visitas habituais de sua casa, deixando-lhe a partir daí um lastro depressivo de dúvida constante sobre o carinho que até então acreditara ser unânime à sua volta.

 

Neste contexto, havia alturas em que Amália, quando alguns dos seus convivas desse período final a encorajavam nesse sentido, se deixava arrastar com facilidade para uma espécie de lamentação amargurada, evocando desnecessariamente a evidência dos êxitos da sua carreira internacional ou os principais testemunhos de apreço que fora recebendo em todo o mundo, como se precisasse de se legitimar. Mas quando se sentia desafiada por perguntas ou observações pertinentes, que estimulavam a sua inteligência viva e o seu enorme senso de humor, esse clima depressivo parecia desfazer-se e a sua conversa voltava a ganhar a vivacidade, a lucidez,a graça e por vezes a malícia que faziam da sua companhia um prazer infinito. Esta tertúlia com Luís Machado parece-me claramente uma dessas ocasiões.

 

O diálogo lê-se com fluência e basta-se a si mesmo, mas valerá talvez a pena sublinhar alguns aspectos importantes das respostas de Amália. Antes de mais, o quadro inteligente que nos traça da representação da figura paternal de Salazar no imaginário popular do seu tempo de infância, e a diferença moral essencial que é preciso traçar entre esta visão, sem dúvida distorcida, mas fomentada com enorme eficácia por toda a máquina de propaganda do Estado Novo, e qualquer atitude de conivência política activa com o regime. Vale a pena, por sinal, ler a este respeito as palavras clarividentes de Jean-François Chougnet no texto magnífico que escreveu para o catálogo da exposição Amália: Coração Independente.

 

Mas há depois reflexões importantes da artista sobre o repertório que cantou. Por um lado deparamo-nos com uma distinção relevante – e porventura inesperada – entre aquilo que ela própria considerava como sendo ou não sendo Fado, incluindo até nesta última categoria, a par com o folclore e as marchas de Lisboa, alguns dos trechos mais célebres de Alain Oulman – a Maria Lisboa, a Madrugada de Alfama, por exemplo – a que faz questão de chamar «cantigas». Não creio que nesta categoria Amália incluísse, pelo contrário, a Gaivota ou o Fado Português, do mesmo Oulman, mas é curiosa esta sua preocupação de separação de géneros poético-musicais na sua auto-representação, apesar da sua repetida afirmação de que cantava tudo aquilo «que lhe sabia a Fado». E é também sintomático que – tal como o fazia habitualmente quando lhe era posta a questão – as suas referências absolutas no Fado sejam as figuras clássicas de Alfredo Marceneiro e Hermínia Silva (lembro-me de que nessas ocasiões fazia também questão em reconhecer sem hesitações a sua admiração pelo talento de Maria Teresa de Noronha, embora acrescentasse por vezes, com uma pontinha de maldade bem-humorada, que «soava um bocadinho a igreja»…).

 

Por outro lado, vemo-la evocar mais uma vez o seu estatuto de ponte de ligação privilegiada entre tradições populares e eruditas, esse mesmo ecletismo em última análise tão coerente, na sua diversidade interna, que lhe permitia cantar o Malhão de Cinfães e o Cochicho ou a poesia de Alexandre O’Neill e Luís de Macedo, mas que foi ao longo de toda a sua vida tão frequentemente mal-entendido por alguma crítica, que ora a acusava de populismo fácil ou de erudição artificial. Sobre as suas preferências poéticas é clara («aqueles de que eu gosto mais são o Pedro Homem de Mello e o David Mourão-Ferreira, mas o maior de todos, para mim, é o Camões») e volta a citar com evidente satisfação a aprovação de Hernâni Cidade ao facto de se ter atrevido a cantar a lírica camoniana, contra as vozes, em simultâneo, dos puristas do Fado castiço e dos intelectuais da Academia. Lá está, também aqui, o seu habitual discurso de auto-defesa de insistir, a propósito ou a despropósito, na dimensão autodidáctica da sua formação cultural («não tenho a tal cultura que é preciso ter»), mas sente-se agora suficientemente confiante para poder por fim assumir com segurança os seus próprios versos, embora faça questão de os colocar num escalão distinto do dos seus modelos eruditos («não são propriamente versos, eu chamo-lhes letras, porque os versos são dos poetas, e eu não sou poeta»).

 

Depois há, aqui e ali na conversa, pequenas jóias pontuais de observação que são outros tantos sinais da perceptividade inteligente e da graça natural que já assinalei. Veja-se, a propósito de um espectáculo de teatro, o seu apontamento lúcido sobre a importância que têm «o ritmo, o timing do espectáculo» – afinal, precisamente um dos seus grandes contributos à definição de modelo actual da apresentação do Fado em concerto que ela própria iniciou com a sua enorme sabedoria de como estar em cena. E, já agora, refira-se a mordacidade divertida (e a actualidade) do seu comentário quando lhe pedem que comente o senso de humor de uma destacada figura política nacional: «Até agora não tenho dado por isso»…

 

Esta é a Amália de que me lembro com carinho, misto imprevisível de tristeza e alegria, ora angustiada ora bem-disposta, umas vezes ingénua e quase infantil, outras sábia e complexa, fazendo questão de combinar uma espontaneidade afectiva evidente com a construção constante de uma figura a actuar permanentemente à nossa frente como se estivesse ainda em palco (o que José Manuel dos Santos definiu de forma emblemática em termos que cito de memória: «nós éramos sempre o seu público»). Esta entrevista vale também por isso, por ser de algum modo, um grande e fascinante exercício de auto-representação, uma espécie de grande espectáculo final.

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