Diz-se, e aparentemente não há razão para contestar, que a moda é cíclica, as tendências aparecem, desaparecem, fazem a travessia do deserto do “fora de moda” e reaparecem renovadas, com um retoque aqui e ali como chancela da novidade no que já foi novidade para os nossos avós.
Com os tecnocratas acontece mais ou menos a mesma coisa. O seu período de glória foi há 20/30 anos no advento da era neoliberal que nos tritura, depois foram perdendo espaço para os políticos tecnocratizados, entretanto reciclados em fim das ideologias e pensamento único para fazerem exactamente o mesmo, e agora reaparecem, com o retoque da autoridade baseada na genuinidade predestinada, como salvadores das sociedades perante a crise e para vergonha dos políticos cábulas.
Os tecnocratas são uns seres que têm aparência de pessoas, vestem-se da mesma maneira que os políticos, a dispendiosa pasta de pele com código de segurança cada vez os distingue menos de figuras da governação, da finança e do empresariado, e as suas figuras até se reflectem nos espelhos, o que os iliba de serem vampiros. Mimetizam-se entre nós, mas não são como nós.
Agora estão de regresso lá onde a crise aperta mais, na Grécia à beira da bancarrota, e na Itália, às voltas com uma dívida gigantesca a dizer-nos que o quinto ou sexto gigante da economia mundial tem delicados pés de barro. Nada garante que os tecnocratas não emerjam noutros países como as figuras certas no lugar certo quando se provar que os políticos falharam – ou pelo menos não cumpriram a preceito a tarefa de defender os interesses dos mercados. Com os tecnocratas não haverá esses problemas. Eles incarnam os mercados nos domínios da política, não são imitações, clones fragilizados pelo próprio processo de clonagem ou portadores de viroses originadas por quaisquer resquícios filosóficos ou ideológicos.
Os tecnocratas são a frieza metálica do dinheiro em corpo de gente. Parecem-se com pessoas mas para eles as pessoas são outra coisa, são anjos quando geram dinheiro mas transformam-se em demónios a exorcizar quando precisam de dinheiro para sobreviver. Os tecnocratas gerem o Estado do dinheiro, não sabem o que é isso do Estado social e por isso não descansam enquanto suspeitam de que tal existe. Os tecnocratas não conseguiram ainda modelar a figura ideal do cidadão, aquele que produz 100 e gasta zero para continuar a produzir 100, mas continuam a esforçar-se por dar-lhe o sopro da vida ou gerá-lo a partir da costela adequada num desses laboratórios do dinheiro que são as praças financeiras. Acham que vão conseguir, aliás têm de o conseguir depois de os políticos, pelo menos alguns, terem desperdiçado a oportunidade que lhes foi dada.
Engana-se redondamente quem acha que os tecnocratas são os robots a soldo dos mercados. Eles são, de facto, os cardeais dos mercados que apascentam convictamente aqueles que já foram ovelhas de um gigantesco rebanho, agora condenados à robotização em vida. Hitler puxava da pistola quando lhe falavam em cultura. Os tecnocratas brandem números, estatísticas e milhões quando lhes falam em cidadãos.
