VIAGEM COM PASQUALINI- 1 – por Sílvio Castro

SÍLVIO CASTRO

 

“como me deverei comportar na nova Legislatura?”

 

V i a g e m c o m P a s q u a l i n i

 

(romance político)

 

 

Não sejam os remédios particulares, sejam universais; não carreguem os tributos somente sobre uns, carreguem sobre todos. […] A lei de Cristo é uma lei que se estende a todos, com igualdade, e que obriga a todos sem privilégio: ao grande e ao pequeno; ao alto e ao baixo; ao rico e ao pobre: a todos mede pela mesma medida.

 

Pe. Antônio Vieira Sermão de Santo Antônio (1642)

 

Homens humildes e desprezados do povo, boa nova! Se a natureza ou a fortuna foi escassa convosco no nascimento, sabei que ainda haveis de nascer outra vez, e tão honradamente como quiserdes: então emendareis a natureza; então vos vingareis da fortuna.

 

Pe. Antônio Vieira Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)

 

Pasqualini me disse

 

os políticos têm de pensar e agir de modo tal que se exalte menos a política e mais a democracia. É preciso diminuir sempre e sempre o «deficit» de democracia na vida nacional. Todos os indivíduos – principalmente os injustiçados e os ofendidos – devem poder sentir a presença dessa atmosfera rara. os políticos não podem ignorar que as suas ações desencadeiam ou um aumento ou uma diminuição do «deficit»; assim como não podem senão agir com a consciência de que este «deficit» é desde sempre a realidade da vida política brasileira. Esta é a razão porque todos eles estão obrigados a concentrar as próprias ações na perseguição do fim da tragédia continuada. Se não existe uma tal convicção naqueles mais diretamente atuantes na organização e manifestação do Estado, o brasileiro – principalmente o abandonado pelo poder político – não pode sintonizar-se com a ação da política oficial. Se, ao contrário, todos os que têm uma responsabilidade política procuram agir na direção da diminuição do «deficit» de democracia sofrido, os homens – ainda mesmo os injustiçados – podem transformar a desconfiança constante em confiança. todavia, Sílvio, tudo isso é muito difícil que aconteça, porque os políticos trabalham mais a favor do «deficit» do que contra ele. Não existe uma vontade política de mudar os comportamentos e de assumir a consciência da crise que atormenta a realidade quotidiana do Brasil. Os brasileiros não conseguem reconhecer nos seus representantes ou nos homens detentores do poder político outra intenção senão a de concentrar esse mesmo poder nos espaços de interesse puramente pessoal ou de grupo. Não existe a ação de uma inteligência política capaz de serenar o povo nas lutas constantes pela conquista de valores da sobrevivência mais elementar. E mesmo quando uma pequena parte consegue satisfazer em modo circunstancial os graus mínimos dos problemas de suas existências, a esses indivíduos aparentemente privilegiados não resta jamais a certeza da justa estabilidade. Tudo vai contra a qualidade da vida da gente. para que uma tal realidade antidemocrática não perdure, é lícito, indispensável, o uso de meios radicais de denúncia. Um deles me parece absolutamente convincente: o uso da verdade como instrumento de desestabilização da política.

 

Pasqualini me disse

 

não devemos, nós que temos um mandato popular, nos esconder por detrás de meias expressões quando é indispensável dizer a verdade. Naturalmente esta não deve ser tomada em dimensões irreais. A verdade para nós deve ser aquela correspondência com fatos e valores capazes de provocar evidentes ressonâncias na vida. Na vida dos homens, da sociedade civil e na do Estado nacional. Por isso, ela é sempre forte como natureza moral e ética. Mas deve ser igualmente impregnada de política; isto é, consciente dos valores de ruptura de que é carregada. não a usaremos nas dimensões isoladas da moralidade pessoal, mas apoiaremos a mensagem política na certeza da liberdade que, sendo nossa, deve ser igualmente de todos. a verdade declarada como elemento de ruptura não é uma verdade diversa; é somente a verdade assumida. certamente, Sílvio, quando assim agimos, devemos manter clara a preocupação de não traduzir a enfatização da força da nossa liberdade individual; mas, muito pelo contrário, aquela do povo. Porque é no interesse do povo que pensamos quando atingimos a coragem da verdade usada contra abusos do poder político. Eu declaro esta verdade e vou mesmo contra as instituições: na realidade, agindo dentro da consciência de uma denúncia a favor do povo, não vou contra as instituições; vou na direção da restauração das instituições denunciadas.

 

Pasqualini me disse

 

são muitas as coisas que obrigam sempre a nossa mais profunda atenção, Sílvio, mas uma delas talvez contenha a síntese de todas: a corrupção. Dentre os males inimigos da democracia, a corrupção é um dos maiores. Devemos estar sempre atentos às suas costumeiras aparições; devemos ser capazes de individuá-la com rapidez; capazes de distingui-la de qualquer outra ambiguidade menos nociva de que é rico o poder político em ação. Quando a vemos de forma indiscutível, devemos gritar contra ela. Porque a corrupção é o sutil instrumento que corroi a convivência civil e limita a liberdade de todos nós. Não devemos calar diante dela, mas denunciá-la sempre. O político sobrevive somente se é capaz do grito contra a corrupção e os corruptos. Não importa se ela nasça no nosso próprio partido: como se fosse contra a de um outro, devemos denunciá-la sem timidez, porque os partidos podem ser mudados, mas a democrática consciência política deve valer sempre mais que as falsas fidelidades.

 

(Continua)

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