O governo de Sílvio Berlusconi não poderia durar muito tempo neste nosso mundo mas o primeiro-ministro está longe de ter perdido o controle sobre a Itália.
A crise política é, em grande parte, a história deprimente de um país onde a maioria da sua classe política se esqueceu de que para ser um representante numa república democrática significa servir o bem comum, e não estar ao serviço de um homem. Mesmo que saiba enfrentar a enorme crise económica presente a Itália tem um longo caminho a percorrer antes que possa ser considerado um país democraticamente fiável, uma vez mais.
No rescaldo de uma votação sobre o orçamento nesta terça-feira que deixou claro que já não tinha uma maioria por trás dele, Berlusconi declarou que renunciaria logo que o Parlamento aprovasse a lista das reformas económicas exigidas pela União Europeia. Isso não significa, no entanto, que Berlusconi não vá manter uma parte considerável do seu poder e continuar a afectar a vida política italiana.
Depois com o governo de unidade sob a direcção de Mario Monti, um ex-comissário europeu, organizam-se novas eleições, Berlusconi poderia manobrar nos bastidores para colocar um dos seus mais leais servos, Angelino Alfano, o secretário do partido de Berlusconi, o equivalente de Dmitri A. Medvedev para Vladimir V. Putin, como o próximo primeiro-ministro.
É uma possibilidade bem realista porque, embora Berlusconi tenha caído em popularidade, os seus opositores estão ainda bastante divididos: a União dos Democratas Cristãos e o partido dos Democratas do centro, o Partido Democrata de centro-esquerda e a esquerda radical não são susceptíveis de formar uma coligação que funcione.
E não pode haver nenhuma dúvida de que, para derrotar seus inimigos, Berlusconi poderia retomar um velho argumento que já anteriormente explorou com sucesso no passado, ou seja, que ele, a escolha do povo como primeiro-ministro, teria conseguido ser bem sucedido se não fossem um pequeno grupo de maus e ingratos traidores. Na verdade, ele já rotulou como traidores os membros do seu próprio partido que votaram contra ele na terça-feira.
Mas isto é mais do que uma táctica retórica: o comportamento de Berlusconi e as suas próprias palavras eloquentemente dão a mostrar como o seu governo está apostado em ganhar a lealdade através de benesses privadas. Berlusconi, na verdade, sente-se traído pelos políticos eleitos que colocaram em primeiro lugar os votos dos seus eleitores do que a lealdade que a ele, Berlusconi, deviam .
Ele pode ser perdoado por se sentir assim. Devido ao seu enorme poder pessoal – construído sobre uma imensa fortuna, sobre a propriedade de um império dos media, a sua capacidade retórica de um demagogo e o controlo de um partido político que ele criou – foi capaz de conseguir a lealdade de muita gente. O sistema que ele criou tem as características de um tribunal senhorial: o senhor feudal fica no centro, rodeado por um grande número de cortesãos e servos que lhe devem o seu próprio poder, a sua riqueza e a sua fama.
Muitas das pessoas de que Berlusconi se rodeou são corruptas e servis, foi tudo muito fácil para ele conseguir dominá-las. Pessoas com princípios são consideradas como inimigos perigosos.
Então, porque é que ele caiu do governo? Um tal sistema só pode funcionar enquanto os cortesãos e os servidores têm fé de que o signore vai permanecer no poder. Berlusconi desde há muito tempo mostrou ser improvável a sua queda por razões internas. Mas agora a pressão dos mercados internacionais e da União Europeia convenceram alguns dos seus cortesãos que ele já não poderia continuar a garantir a sua reeleição e os seus privilégios. Como resultado, alguns deles já andam à procura de outros lugares para outras oportunidades mais concretas de sobrevivência política.
Isto proporciona à Itália uma chance de iniciar um processo de regeneração cívica e política. Para isso, deve libertar-se não só de Berlusconi, mas também do seu sistema de poder assim como dos maus hábitos políticos e morais que ele reforçou e instalou na elite política e em amplos sectores da opinião pública.
O primeiro passo deve ser o de abandonar a crença, promovida pela elite de Berlusconi, que para se ser um cidadão livre é preciso ser-se livre face à própria lei, face aos deveres cívicos. Os italianos também devem rejeitar o outro dogma fundamental da doutrina de Berlusconi, ou seja, de que o povo não é apenas soberano mas é também o juiz, e que os políticos devem, então, serem responsáveis perante o povo, e não apenas perante os magistrados. E, finalmente, os italianos devem redescobrir uma confiança saudável na República, liberta esta de toda e qualquer espécie de enorme poder.
Isto significa ir para além de algumas reformas necessárias. Deve ser um processo sério de renovação moral inspirado pelos verdadeiros princípios da cidadania.
Para que isto seja possível, é preciso um líder político capaz de unir, inspirar e reacender a paixão pela cidadania activa. Posso estar errado, mas não vejo um líder com essas qualidades no actual cenário político do país. Até que um possa aparecer é prematuro anunciar o fim da Itália de Berlusconi.
Maurizio Viroli, Can Italy Put Berlusconi Behind It?, New York Times, 11 de Novembro de 2011.
Maurizio Viroli, professor de teoria política na Universidade de Princeton e na Universidade da Suíça italiana, em Lugano. É o autor de “The Liberty of Servants: Berlusconi’s Italy.”
