OS HOMENS DO REI – 74 – por José Brandão

Duque da Terceira (1792-1860)

 

Filho primogénito dos condes de Vila Flor, ligado à melhor nobreza do Reino, D. António José de Sousa Manuel e Meneses Severim de Noronha nasceu em Lisboa, a 18 de Março de 1792.

 

Promovido a tenente em 1809 e a capitão em 1811, serviu primeiro como ajudante do general conde de Sousel e, depois, do general Beresford. Já com o posto de major, seguiu com o exército anglo-português através de Espanha, na perseguição às tropas francesas, distinguindo-se particularmente na batalha de Vitória (1813). Elevado rapidamente a tenente-coronel e a coronel, foi escolhido em 1817 para governador e capitão-general do Pará, ascendendo em 1819 a marechal-de-campo, para no ano seguinte ser nomeado governador e capitão-general da Baía.

 

Regressou a Lisboa com o soberano, mas, numa época em que se entrechocavam ideologias opostas, uma carreira de militar ou de homem da corte exigia uma tomada de posição política. E Vila Flor, se de início acompanhou o infante D. Miguel, de quem foi ajudante-de-ordens (1823), orientou-se depois para o lado liberal.

 

Assim, promulgada a Carta Constitucional de 1826, foi par do Reino e combateu as forças miguelistas, alcançando as vitórias de Coruche, da Beira e da Ponte do Prado, forçando as tropas do marquês de Chaves a refugiarem-se em Espanha.

 

Todavia, com a aclamação de D. Miguel como rei absoluto, foi obrigado a emigrar para Inglaterra. Tomou parte na expedição do Belfast para apoiar a revolta de 1828 no Porto, mas, dado o fracasso verificado, retirou de novo para aquele país. Daqui passou à ilha Terceira única parcela do território português fiel à rainha – e foi nomeado pelo marquês de Palmela governador da ilha, fazendo parte, mais tarde, da regência instituída em nome de D. Maria II. E, com grande coragem e capacidade de organização, dirigiu a ocupação das outras ilhas açorianas.

 

Comandante do exército de terra da expedição que veio desembarcar no Mindelo, teve acção de grande relevo no período dramático da contra-ofensiva miguelista, designadamente no ataque às Antas.

 

Entretanto, como se tornasse necessário dar à guerra um rumo decisivo, foi o então já duque da Terceira encarregado do comando de uma expedição que, transportada na esquadra do almirante Napier, veio desembarcar no Algarve, entre Cacela e Tavira, a 24 de Junho de 1833.

 

Aureolado pelo seu prestígio de soldado, soldado sincero, obediente, reflectido, assaz diferente de Saldanha, que foi, pode dizer-se, um soldado profissional e irrequieto, o duque da Terceira transitou, após a Convenção de Évora-Monte (1834), para as lutas políticas que vão arrastar-se, situando-se sempre na ala direita liberal. Assim, sobraçou a pasta da Guerra no primeiro Ministério constitucional presidido por Palmela, e, após várias vicissitudes políticas, foi chamado a constituir Ministério em 19 de Abril de 1836. Mas a oposição por parte dos extremistas era cada vez maior, e o Ministério foi derrubado pela revolução de Setembro (1836). E o duque da Terceira, que sempre se manteve fiel à Carta, organizou, com Saldanha, a revolta dos Marechais (1837), inútil e fracassado movimento cartista que dá evidência à superioridade da dedicação com que serviu a rainha sobre a inteligência com que serviu a Nação.

 

Nomeado comandante da l.ª Divisão militar após a Convenção de Gramido (1847), geriu a pasta da Guerra no primeiro Gabinete saído da Regeneração (1851) e, em 1855, assumiu as funções de ajudante-de-campo de D. Pedro V. Incumbido novamente, em 1859, de formar Ministério, exercia as funções de presidente do Conselho quando faleceu no ano seguinte, a 26 de Abril, sendo sepultado no panteão de S. Vicente de Fora.

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