DIÁRIO DE BORDO, 15 de Novembro de 2011

 

 

O caso Berlusconi intriga muita gente. O seu afastamento foi influenciado, ao que tudo indica, pela presente crise financeira (pelo menos, é assim que lhe chamam) Como é que um produto típico do capitalismo, acaba por ser rejeitado pelo próprio capitalismo? Será  que este também tem um lado ético? Ter-se-ão os mercados ofendido com o deboche, em que parece mergulhado o venerando capo? Procurando responder, ou pelo menos formular uma hipótese plausível, concluiremos que, por um lado, é realmente verdade que Berlusconi, ao fim de dez anos de governo, foi obrigado a reconsiderar o seu rumo na política por estar desacreditado junto de muitos dos seus apoiantes. Contudo, se lerem o texto de Peter Gomez, Berlusconi demitiu-se, uma festa amarga, publicado ontem às 22 horas, aqui, n’A Viagem dos Argonautas, perceberão que ele sai com armas e bagagens, pronto para tentar regressar ao governo, se não ele próprio (já chegou aos setenta e cinco anos), pelo menos fazendo avançar alguém da sua confiança. Berlusconi suportou mal a exposição pública resultante de ocupar o cargo de primeiro ministro, apesar de ter tanto poder, e perdeu apoios. Mas, como nota Maurizio Viroli (ver post que publicámos ontem às 13 horas), ele perdeu apoios não por razões éticas, mas sim porque alguns dos seus antigos amigos, ao verem-no em dificuldades com as exigências da UE e do FMI, preferiram mudar de barco. É claro que daqui não virão melhorias para Itália. O aperto dos chamados mercados vai ser duro, e a economia italiana vai ressentir-se ainda mais.

 

Li há pouco o texto que a Clara Castilho publicou sobre o II Congresso Internacional da Adopção que está a decorrer na Gulbenkian. E ouvi nos últimos tempos algumas notícias sobre crianças adoptadas que são devolvidas à procedência. Trata-se de uma matéria que requer urgente reflexão. Em Portugal, apesar da enorme quebra de natalidade, continuam a existir muitas criançasem risco. Nestecampo, como noutros, gostamos de soluções miraculosas. Quando vemos uma possibilidade de encaminhar um problema que nos afectar, avançamos logo a toda a força sem pensar primeiro nos obstáculos ou desvios possíveis. Queremos uma solução instantânea e universal. No caso das crianças em risco, foi há cerca de trinta anos que as colocações familiares foram aventadas como panaceia geral. Há cerca de quinze foi a vez da adopção. Chegou-se a afirmar que era a solução para o número excessivo de crianças e jovens que estãoem internatos. Aoutra face desta maneira de encarar as coisas é que quando sentimos que o milagre não aconteceu (é normal, claro) perdemos o entusiasmo, e o trabalho declina em quantidade e qualidade. 

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