Liguei o rádio e comecei a ficar tonta. Ouvi dizer que era o ministro das finanças que estava a falar, mas o nevoeiro já se tinha apoderado do meu cérebro. Fui investigar se havia alguma fuga de gás na cozinha. Não podia ser, eu tinha mudado a canalização há pouco tempo e o inspector garantira-me:
– Agora não vai ter mais perigos com o gás até ao fim da sua vida.
Não era o gás, não. Era só a voz do ministro das finanças.
Na minha cabeça, à roda, ressoavam intermitências: … 2012 … desemprego vai aumentar muito … REFER … REN … privatizações … Angola … 30% … os italianos queriam … ou não queriam … têm que empobrecer, passar fome, paciência! … jovens, vão-se embora!
A seguir, alguém pedia uma almofada. Parece que era o PS. Com a sonolência que aquele discurso provocava não me admiraria que alguém pedisse um colchão. Não sei é para que servirá a almofada do PS
Espera lá, disse para mim, com uma sacudidela forte ao pescoço:
– De certeza que me deixei dormir. Estou a sonhar. Isto não pode ser o ministro a dizer.
Mas era. Uma parte bem explícita, a outra subentendida. E com grande pompa e circunstância.
A escolha dos ministros é algo de sintomático neste governo. Com tanta força se impôs a urgência de nos lixarem (os punhos de renda não são meus) que nem deixaram as pessoas concluir o processo em que se encontravam mergulhadas antes de lhes porem nas mãos cargos de tanta responsabilidade.
Esta criatura que dizem ser o tal ministro das finanças ainda não devia ter recuperado bem da anestesia de algum processo operatório a que se submeteu. Pairava lá num recobro qualquer aonde o foram arrancar à força e, agora, cada vez que fala, atira com os restos do anestesiante ao nariz de quem o ouve. Ou, então, praticava hipnotismo e, por isso, foi seleccionado para tal pasta.
O que eu sei é que aquele embalo tem algo de maléfico que nos leva na onda. Anunciar a derrocada dum povo em tom de quem não quer acordar o menino só por extrema perversidade pode ser feito. Ou porque tudo foi muito bem planeado para surtir efeito.
Ou ele ou uma ministra das cristas que, se calhar, foi oportunamente escolhida para reintroduzir galos, galinhas e toda a outra fauna e flora que os portugueses, no tempo em que eram pobrezinhos, costumavam criar e cultivar em casa. Agora, que vão voltar a baixar a dita não terão outro remédio senão reactivar o quintal da criação e dos ovos frescos. A bem da saúde à falta do Serviço Nacional que não deve durar muito.
Relvas são só para os ricos dos buracos e do golfe. O quintal, o quintalinho chega bem para as hortaliças da subsistência. Voltamos à velha casa portuguesa.
A Amália que me perdoe porque não a quero metida nisto. Ainda para mais agora que o fado é candidato a Património Imaterial da Humanidade.
Sempre gostei de fado, mas palavra que me custa ver quão triste é o daquele ministro da economia submetido à tortura – dizem que voltámos ao fascismo – de ter de ir à Assembleia da República responder sobre temas cuja ignorância parece evidenciar. Olha-se para a cara dele e fica-se com pena do pobre homem: transpira, não levanta os olhos. E começamos a temer que apareça alguém com uma palmatória e lhe dê uma dúzia de reguadas.
Feliz, feliz só parece andar o Paulinho dos submarinos. Quem se safa duma como essa – e como a dos milhares de fotocópias -, safa-se de todas. Porque havia o rapaz de andar angustiado?
Fica por aqui o retrato. Já não tenho película nem paciência para mais.
Os golpes de Estado rolam pela Europa. Com punhos de renda. Quando cá chegaram já não nos surpreendem nada.
Quem será o capo que nos vai calhar em sorte?
Nem de propósito, acabei de ouvir dizer que o António Borges se demitiu do FMI, por razões pessoais.
É o fado de cada um. Ou será o nosso?

Excelente Augusta Clara, a seta atingiu o alvo. Que alguém me diga por favor que ministro empurra a juventude para fora?Eu por acaso gostava de saber como pode um país funcionar sem a energia da juventude e a sabedoria dos mais velhos…Os meus sinceros parabéns e um enorme beijo
E tu és uma porreiraça ! Estás sempre ao leme. Um beijinho (o Carlos não gosta mas eu não passo sem eles, os beijinhos)
Ora aí está um texto bonito, inteligente, crítico, cheio de humor e de revolta. Parabéns Augusta
Obrigada, Adão. Que remédio temos nós senão ridicularizar esta gente…até que caiam.