VIAGEM COM PASQUALINI – 5 – por Sílvio Castro

(Continuação)

 

Estou de novo na corrida do trem, mas já me sinto diversamente de quanto não sentia no momento da partida na Central de Brasília. Estou fazendo alguma coisa intensa neste correr do trem pela planície do Brasil Central. Começo a integrar-me na realidade da viagem identificando-me mais concretamente com o território que desejo descobrir para atingir com certeza a finalidade da viagem que me é indispensável. Pois o conhecimento do território foi uma das constantes lições que escutei de meu amigo.

 

Este território que agora tenho diante de meus olhos não é uma paisagem imediatamente bela, mas o é com a duração do encontro com ela. A vegetação é baixa e rara, de predominantes tons amarelos, um amarelo queimado, mas que não repugna à vista. Fixando-o da janela em movimento, gozo de vaga sensação de prazer, porque sinto que as árvores baixas, os arbustos, as plantas não sempre verdejantes me mostram uma intensidade que resulta da ação da brisa que as movimenta com serena graça. Os movimentos causados pelo vento em breve se integram com o horizonte aberto da planície goiana, modulada por montes quase colinas que se mostram e se escondem com a contínua corrida do trem.

 

Sem que a minha atenção as detivesse, passou na corrida Cristalina e logo Paracatú era Minas Gerais. Passar de Goiás para Minas não é somente saber que mudaste de Estado ou que já te encontras diante de um outro espaço. É mais que isso: é sair e entrar em dimensões diversas de tua maneira de confrontar-te com a realidade física do território e com as dimensões sentimentais que a cultura sobre tudo isso te inspira. Diante da serena participação com o que te vem do conhecimento do espaço de Goiás, participação que mais de determinada sensação direta provoca aquela de uma flutuante presença-ausença, Minas é um abrir os olhos para coisas e experiências que te parecem vindas de uma tua memória sem declives.

 

Não é que a paisagem tenha mudado muito. Mas parece que sim. O buriti que persite nos meus olhos que guardam a paisagem na corrida é uma árvore que esculpe muitas dimensões na paz da planura mineira que se afasta e se aproxima com o correr veloz do trem.

 

Depois que passou correndo a movimentação de Três Marias, mesmo sem parar o trem me deixa ler no alto de uma estação que logo se perde, seu nome: Buritizinho. Quem sabe se não chegarei nesta viagem em Cordisburgo para ver porque Guimarães Rosa olhava como olhos sentimentais a beleza do buriti, intensa de gradação no diminutivo que se faz estação, parada, centro de vida.

 

Certo que chegarei a Cordisburgo; mas antes o trem se prolonga na planura na direção de outras paisagens.

 

O viajante corre junto e a favor da velocidade. Ele é o repouso no movimento que aumenta sempre com o mudar da paisagem, mas não pelo movimento incansável, pela descoberta a cada instante da paisagem de fronte, pela paisagem que se confunde com o trem. No repouso frontal o viajante toma a cada metro vencido o verde das árvores, os morros, colinas, casas, animais, coisas que chegam vêm correm para os olhos privilegiados como se tudo fosse uma só coisa paisagem.

 

O viajante muda de lugar, opondo-se à velocidade, dentro do trem, mas como se fosse uma corrida na escada-rolante. A paisagem fica atrás das costas do viajante agora insone.

 

Passando por uma estação à direita, como num museu, ali está uma locomotiva antiga. Mas, em verdade, não é como em um «museu do trem», pois esta locomotiva, ainda que antiga, muito antiga, tão antiga que é como se mostrasse visivelmente também a azáfama do foguista a fazer fogo e o falar distante do maquinista iluminado de vermelho e de rosto banhado de suor, mesmo sendo assim esta máquina não está naquela posição estática das locomotivas do «museu do trem». Parece que se move na inércia aparente, pronta a correr de novo sempre dentro da paisagem ferroviária da estação de consertos. A locomotiva é bela esbelta ainda que redonda por metade, com chaminés e apitos, enquanto a sua outra metade se faz um depósisto cubo-retângulo para lenha e carvão.

 

Bela e escura, de uma cor preta luminosa, é a locomotiva que parece um cavalo sempre pronto ao salto ainda que parado. As rodas da frente são pequenas; as detrás, grandes. Todas desenhadas de branco e vermelho que fazem da máquina uma mariposa pousada em trilhos.

 

 

 

 

De repente os olhos do viajante modificam a locomotiva mariposa e novas locomotivas – todas belas como esta, mas surgidas de longe, confundidas com o riso alegre do menino que conhece muitas locomotivas – brincam na estação de serviços e consertos.

 

Pasqualini me disse

 

a posição da mulher na vida brasileira é feita de injustiças; e mais ainda quando a economia de mercado condiciona o País. Penso que este é um dos fatores de maior peso para o estado de «deficit» democrático em que vivemos. para combater e superar esta anormalidade insuportável, é preciso que se criem nos mais diversos setores da realidade brasileira – nas universidades, nas fábricas, nos clubes, nos partidos políticos, mas principalmente na estrutura do Estado – organizações, comissões e movimentos de «igualdade de direitos». Essas comissões, formadas principalmente por mulheres, devem lutar pela justiça referida ao mundo feminino, seja no trabalho, no estudo, nas casas, na atividade partidária. xxx é preciso começar pelas representações políticas. As mulheres parlamentares são demasiado poucas. Tudo porque nos partidos, até mesmo nos mais progressistas, continua a vigorar um machismo de raízes profundas. o Estado deve organizar-se acolhendo o mais amplamente possível nas suas estruturas a presença feminina. Isso fará com que outros setores tomem consciência da necessidade da urgência de «igualdade de direitos» entre os sexos. a operária, a empregada, a empresária, a intelectual, o trabalho feminino em geral deve receber a proteção de leis justas. A presença da mulher no trabalho não deve ser visto como ameaça àquele do homem. Homens e mulheres têm direito ao trabalho. O Brasil está em condições de acolher democraticamente a mão-de-obra feminina, e isto não somente nas estruturas mais simples de prestação de serviço, mas igualmente naquelas outras de forte complexidade de atuação.

 

Porém, tudo isso deve partir das atividades políticas. Deve-se chegar ao ponto de ruptura que obligue aos partidos de reservar parte significativa de suas listas eleitorais – nas eleições federais, estaduais e municipais – para candidatar mulheres competentes. Essas, depois de eleitas, saberão levar o país à melhor igualdade de direitos dos cidadãos, sem distinção de sexo. O mesmo deve acontecer na Justiça. Precisa-se alargar a presença de juízes mulheres nas primeiras instâncias, para chegar-se até à mais alta hierarquia do poder judiciário, o Supremo Tribunal Federal. a solução de justiça para com a mulher é o ponto saliente para o encontro de soluções para a superação de outras injustiças sociais sofridas pelos mais fracos na sociedade brasileira; principalmente quanto a das crianças abandonadas.

 

(Continua)

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