Depois de 1974, um ex-ministro de Salazar disse que nem todos os componentes dos governos da ditadura eram salazaristas. Porém, se queriam «servir o País», não podiam esperar que a situação mudasse e, sendo convidados, integravam os gabinetes que Salazar formava e demitia (“como quem puxa o autoclismo”, era a expressão usada). Há casos conhecidos (Adriano Moreira, por exemplo) que confirmam a afirmação feita por um homem que, em todo o caso, teve a hombridade de acrescentar que ele fora ministro e fora salazarista.
O ministro da Educação Nuno Crato falava ontem na Assembleia da República, advogando a necessidade de, no âmbito da reorganização em curso, concentrar algumas disciplinas e reduzir as matérias curriculares ao estritamente indispensável. Foi então que da bancada do PCP veio um aparte: “se quem determina o essencial nos currículos escolares é a troika ou a União Nacional, aludindo à tese de Salazar segundo a qual «aos portugueses basta saber ler, escrever e contar».
Agastado, o ministro ripostou: “Antes de o senhor deputado ter nascido já eu andava em manifestações contra a União Nacional”.Talvez seja verdade. Nuno Crato tinha um currículo bonito,. Não sabemos em que manifestações contra a União Nacional terá entrado, nem nos lembramos de nenhuma especificamente organizada contra aquele instrumento ao serviço da repressão fascista. O que sabemos é que agora está no partido que é, de facto, o prolongamento no regime democrático da União Nacional, ou mais propriamente da Acção Nacional Popular. Foi da ala liberal do partido de Salazar a que Marcelo Caetano fez uma leve cosmética (mudando o nome) que veio o PPD/PSD. Ainda há no partido do Governo gente que que aceitou ser deputado do partido único num regime ditatorial de extrema-direita.
Por isso dizemos que o currículo de Nuno Crato era bonito (da perspectiva dos democratas, claro). O tal antigo ministro da Educação talvez tenha razão – há quem não goste de perder comboios. Seja qual for o destino desses comboios. Mas Nuno Crato não tem que se ofender com estes apartes, pois ofendendo-se está a ofender gente do partido do Governo.
Ainda neste capítulo das susceptibilidades – já agora, ele que é uma pessoa inteligente, não diga que aceitou integrar este Governo para «servir o País». Seria uma ofensa à nossa inteligência.


Apoiado, e com grande desgosto meu.
Apoiado e com grande desgosto pela Escola Publica…