Os espanhóis foram a votos em plena crise e com a certeza de que, mais dia menos dia, entram no clube dos países da Zona Euro que estão sob o regime de soberania limitada imposto pelos especuladores internacionais através da troika formada pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Daí que estas eleições tenham tido duas vertentes: a do Estado nacional, mais tarde ou mais cedo submetido às ordens estrangeiras; e a das regiões, onde se acumularam dados muito importantes a que os políticos, por muito hábeis que sejam na arte de fingir que não vêem, terão que dar respostas.
Não houve surpresas nos resultados no âmbito do Estado nacional. O Partido Popular, uma das organizações direitistas europeias que ainda não conseguiu fazer o luto das tendências autoritárias e policiais, neste caso herdadas do franquismo, assumiu a sua vez de governar no quadro do bipartidarismo imposto pelo sistema político regido pela economia neoliberal e que se tem multiplicado, de país em país, numa cópia pobre do sistema norte-americano, sem raízes e desligada das realidades nacionais, sobretudo na União Europeia.
O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que do velho partido da luta pela democracia pouco ou nada tem, ruiu como se previa, esmagado pelo paradoxo já meramente teórico, mas ainda assim presente no subconsciente dos eleitores, de que um partido que se diz de esquerda não serve para gerir o capitalismo, muito menos o capitalismo actual ditado pelo poder dos mercados, algures lá onde quer que estejam.
Chegou, naturalmente, a vez da facção mais à direita deste bloco central transformado em partido único com vocação governante. O Partido Popular, seja de Aznar ou de Rajoy ou de ouro nome de dirigente que chegue ao topo, é ainda o esconderijo da Espanha que não completou o luto pelo ditador, que está em permanente de ajuste de contas numa guerra civil ideológica que alimenta para fins políticos, culturais e religiosos. Esta Espanha, porém, por muito que tenha prometido pouco vai governar. Amanhã ou dentro de meses cairá sob a alçada da troika e depois de ter dito, por exemplo, que promoverá crescimento e emprego está destinada a gerir recessão e mais desemprego.
Ao nível nacional, estas eleições revelaram a consistência de três forças, uma delas à margem do programa de partido único, a Esquerda Unida, que registou uma subida fulgurante, procurada pelos cidadãos de esquerda desencantados com o mimetismo dos socialistas.
A Espanha, porém, tem que olhar para si própria. Alguns dos seus maiores partidos são regionais (ou nacionais, se assumirmos a plurinacionalidade do Estado). Apesar de votados em parcelas do território conseguiram representações com impacto nacional no Parlamento de Madrid.
E, entre eles, há um elemento novo. Chama-se Amaiur: é a organização que mais deputados elege no País Basco, vencendo os partidos nacionais e ultrapassando o tradicional Partido Nacionalista Basco. Amaiur é a coligação de duas organizações da esquerda nacionalista e independentista: Bildu e Aralar, que já tinham estado no topo nas recentes eleições regionais. Os propagandistas de Madrid chamam-lhe “o braço político da ETA”. Palavras que assumem outro significado agora que a ETA abandonou as armas. A questão da independência transferiu-se para o jogo político e Madrid está longe de assumir essa nova realidade.
Na Catalunha, na Galiza, mesmo na Comunidade Valenciana as afirmações nacionalistas entram também em força no Parlamento de Madrid.
Entre a crise e estas realidades, a Espanha vai ter que se olhar ao espelho.

Máximo responsable de la presencia de Amaiur en el Congreso de los Diputados = Pascual Sala Sánchez……
Ao contrário, o máximo responsável pela presença da Amaiur no Congresso dos Deputados do Estado espanhol é o conjunto de pessoas que nele votaram.Inaceitável seria excluir na secretaria um movimento que demonstra ter tal apoio no País Basco.