Com textos de Fernando Pessoa, Aristóteles e Manuel Bandeira, inauguramos esta nova artéria – a Avenida da Poesia – poetas de todas as épocas irão expender o seu conceito de “arte poética” – as ilustrações são de Adão Cruz.
Surpreendido por Almada Negreiros a tomar o seu café, o Fernando diz-nos o que é um poeta:
Bernardo Soares – Fernando Pessoa (1888- 1935) – AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Com este poema de Fernando Pessoa (sob o heterónimo de Bernardo Soares), superiormente dito pelo grande actor brasileiro Paulo Autran, declaramos solenemente aberta a Avenida da Poesia. Venham o Aristóteles e o Bandeira! Venham todos!
Aristóteles (Séc. IV a.C.) – ORIGEM DA POESIA
Parece haver, em geral, duas causas, e duas causas naturais, na génese da Poesia. Uma é que imitar é uma qualidade congénita nos homens, desde a infância (e nisso diferem dos outros animais, em serem os mais dados à imitação e em adquirirem, por meio dela, os seus primeiros conhecimentos); a outra, que todos apreciam as imitações.
Prova disto é o que se passa na realidade. Daquilo mesmo que vemos com desagrado, apreciamos contemplar a imagem muito exacta, como, por exemplo, as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres.
Outro motivo ainda é que aprender é muito agradável, não só aos filósofos, mas aos outros homens igualmente. Porém, curta é a parte que nela têm. Por isso se regozijam, ao verem as imagens, porque têm oportunidade de aprender enquanto observam, e de compreender o que cada uma representa, por exemplo, que este assim e assim é fulano. Se se der o caso de a não terem visto anteriormente, já não é a imitação que provoca o prazer, mas a execução, o colorido, ou qualquer outro motivo neste género.
Ora, como é natural em nós a imitação, a harmonia e o ritmo (pois é evidente que os metros são partes dos ritmos), de início, os que nasceram para isso, progredindo aos poucos, criaram a Poesia, a partir dos seus improvisos.
(“Poética”, 1448 b, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira).
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político Raquítico Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cosenos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação



