(1921 – 2010)
Um Café na Internet
Dizem que o meu país é um jardim à beira-mar plantado
E eu sei que o meu país é um jardim à beira-mar pintado
Molhando os pincéis do exílio no mar e em faces sofridas
Sei que não estou no meu país embora enterre os pés da minha
/infância num jardim
Sempre pintado, nunca plantado
E ficava a noite inteira agarrada aos ferros da cama à espera
/de conhecer o pintor, ajoelhada,
Quando tinha idade para ter a infância que não tive
Hoje doem-me os pés ainda doem-me as mãos
E os olhos de olhar esse jardim
E os joelhos de estar ajoelhada
Não encontrei flores nem raízes fora daquela pintura azul
Salgada e muda. Nunca.
E o pintor está morto num túmulo de madeira dentro do mar.
Fui buscar este poema a Voz Nua, Livros Horizonte, 2001. Os nossos agradecimentos aos familiares de Matilde Rosa Araújo, a quem, embora tardiamente, apresentamos os nossos pêsames pela morte desta notável escritora, que também foi professora do ensino técnico profissional, e deu um curso de Literatura para a Infância na Escola do Magistério Primário. A sua obra foi muito variada, embora com especial relevo na literatura infantil. Matilde Rosa Araújo mereceu numerosas distinções em Portugal e no estrangeiro.


