UM CAFÉ NA INTERNET – AVENIDA DA POESIA – Sílvio Castro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Pablo Neruda

 

 

 

 

 

 

 

Sílvio Castro

(Laranjais, Rio de Janeiro, 1931)

 

O POEMA E SEUS SENTIDOS

 

(exercício de falso soneto de versos brancos)

 

 

Não cinco, mais que seis sentidos são

todas as linhas primárias do poema

nascente no tempo e em seu espaço

de claridade onde sempre escorre.

 

O primeiro fulgor todo indistinto,

mas lampejante como a certeza

do encoberto caminho pressentido,

logo ilumina o vagar da luz insone.

 

Fulgor caminho corrida e luz

concorrem unidos no espaço aberto

como nuvens ácidas doces verdes.

 

Tudo se recolhe no edifício de

abertas janelas ao verdor de um tempo

túrgido de amor romã e aroma.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Porto, 1919- LIsboa, 2004)

 

ARTE POÉTICA V

 

 

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado ‘Nau Catrineta’. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

 

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

 

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

 

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

 

Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas –coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

 

Tempos depois, escrevi estes trêsversos: “A voz sobe os últimos degraus/ Oiço a palavra alada impessoal/ Que reconheço por não ser já minha”.

 

(De “Ilhas”).

 

 

 

Pablo Neruda

(Parral, 1904- Santiago do Chile, 1973)

 

 

ARTE POÉTICA

 

 

Entre sombra y espacio, entre guarniciones y doncellas,

dotado de corazón singular y sueños funestos,

precipitadamente pálido, marchito en la frente

y con luto de viudo furioso por cada día de vida,

ay, para cada agua invisible que bebo soñolientamente

y de todo sonido que acojo temblando,

tengo la misma sed ausente y la misma fiebre fría

un oído que nace, una angustia indirecta,

como si llegaran ladrones o fantasmas,

y en una cáscara de extensión fija y profunda,

como un camarero humillado, como una campana un poco

ronca,

como un espejo viejo, como un olor de casa sola

en la que los huéspedes entran de noche perdidamente ebrios,

y hay un olor de ropa tirada al suelo, y una ausencia de flores

-posiblemente de otro modo aún menos melancólico-,

pero, la verdad, de pronto, el viento que azota mi pecho,

las noches de substancia infinita caídas en mi dormitorio,

el ruido de un día que arde con sacrificio

me piden lo profético que hay en mí, con melancolía

y un golpe de objetos que llaman sin ser respondidos

hay, y un movimiento sin tregua, y un nombre confuso.

 

E vamos ter o privilégio de ouvir este poema dito pelo autor:

 

 

 

 

 Ilustrações de Adão Cruz

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