DIÁRIO DE BORDO, 23 de Novembro de 2011


 

 

É generalizada a convicção de que o mundo actual está em crise, e de que essa crise tem na sua origem problemas financeiros. Contudo a acção contra essa crise não parece estar a ter grandes resultados. Se alguns países, como o Brasil ou a China, parecem estar a conseguir resistir melhor, não se pode esconder que também eles têm manifestas vulnerabilidades, e alguns bons resultados obtidos poderão ser invertidos num prazo curto. O domínio financeiro do mundo em geral não está a ser questionado, pelo menos ao nível da maioria dos governos, e não se vislumbra por parte dos países mais influentes, ou mais ricos, uma actuação no sentido de travar ou, pelo menos regulamentar, esse domínio. Aceita-se, de um modo geral, sem uma contestação significativo por parte das forças políticas tradicionais, que os chamados mercados tenham um peso desmedido na vida das nações, e que as situações de dívida, muitas delas criadas em situações pouco claras, são para cumprir na íntegra. A clara inverosimilhança de se conseguir chegar a uma situação de equilíbrio neste campo, com as actuais regras de jogo, não detém os líderes políticos, a começar pelos líderes dos chamados países ocidentais.

 

Aos observadores mais atentos não escapa o facto de a crise estar a reforçar o predomínio dos países mais poderosos sobre os países considerados como periféricos. Embora os primeiros também estejam a ser afectados, e estejam também a começar a tomar medidas de limitação de gastos e de imposição do que agora se chama austeridade, é visível a preocupação dos respectivos governos de imporem políticas restritivas aos países em pior situação que, na melhor das hipóteses, os vão condenar a uma recessão severa nos próximos anos, com um abaixamento do nível de vida muito significativo.

 

Os desequilíbrios políticos ao nível internacional são grandes, e vão agravar-se. São imprevisíveis as consequências, pelo menos a respectiva dimensão. A continuação do aumento do desemprego é para muita gente inevitável, assim como o agravamento da pobreza. A interrogação é sobre o caminho a tomar.

 

A greve geral que vai ocorrer em Portugal amanhã era também perfeitamente previsível. Embora não levante dificuldades insuperáveis ao sistema capitalista, poderá, caso a adesão seja mesmo grande, fazer os responsáveis políticos reflectirem sobre a instabilidade política que se está a criar. Mas serão necessárias outras tomadas de posição. As lutas dos chamados indignados também estão a ser desmanteladas por actuações repressivas sistemáticas. Os opinadores de serviço esforçam-se por convencer toda a gente de que a sobreposição da economia à política é necessária (isto é, o controle, ou mesmo a subjugação,  dos governos pelos “mercados”), o empobrecimento da população inevitável e que a ordem tem de ser mantida a todo o custo, desvalorizando-se os protestos, que são mesmo equiparados a “tumultos”. O sistema bipartidário tem servido ás mil maravilhas para aplicar estes princípios.

 

A luta por informar as pessoas será cada vez mais complicada. O sistema financeiro tenderá a uma concentração de capitais cada vez maior, na sequela do já vem ocorrendo há décadas. E a concentração da informação vemem sequência. Oscasos Berlusconi e Murdoch são claros. A expectativa de um mundo melhor que há quarenta anos parecia possível, da mudança civilizacional que se estaria a operar, deu lugar a um grande temor pelo futuro.

 

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