O trem corre e faz com que as palavras do Senador ecoem em mim deslisando pelos trilhos noturnos na corrida insone. Agora compreendo porque minha atenção nesse viajar de expectativas e ânsias parou, numa serenidade momentânea, sobre este livrinho de capa vermelha, mas de um vermelho não incendiário, quase repousante, que contemplo e tenho seguro nas mãos e que vou lendo como se me encontrasse não somente dentro do trem veloz, mas também em um espaço sempre novo que ele revela. Leio e sinto o trem nos trilhos que sibilam, sibilam, silabam
SílVIO CASTRO
A GEOMETRIA ASSIMÉTRICA
– Brasil Europa Américas –
(ensaio de política e história cultural)
Edições do ANUÁRIO DA LITERATURA BRASILEIRA
Rio de Janeiro
A descoberta da América – e consequente Conquista – é antes de tudo uma ação de natureza
mercantilista, e por essa mesma razão colonos ingleses da segunda metade do séc. XVI podiam declarar com sereno espírito de clareza: «As metas desta viagem são as seguintes – primeira: trazer-lhes a religião cristã; segunda: comerciar; terceira: conquistar territórios. Se possível, todas as três». Mas, não é só isso; é também um complexo movimento de relações humanas que, mesmo estando ligadas por parte dos Conquistadores à idéia de lucro, se alarga na direção de incontrastável sincretismo nos planos cultura e espiritual.
Quando o Conquistador se estabiliza no espaço físico do Novo Mundo e se apossa da sua riqueza – fator que o levou a superar os limites do desconhecido – o princípio da superioridade religioso-cultural do eurocentrismo se reforça e tende mais do que nunca a assumir uma forma de radicalidade. O homem européu, que está por esquecer definitivamente o espaço geográfico originário em favor daquele novo, sente a necessidade de proteger a própria identidade diante de mudanças, apoiando-se à tradição que o conduziu à Conquista. O colonialismo nas Américas é a expressão sócio-política deste sistema de afirmação.
Porém, quanto mais o eurocentrismo colonialista assume a forma de um sistema fechado, mais se manifesta o processo de modificação das componentes culturais do Conquistador. Nessas condições, mais que sinal indiscutível de poder, a radicalidade é revelação da presença de um segundo sistema – aquele dos conquistados – nas estruturas do sistema de dominação. O colonizador se vê modificado pelo colonizado e, na trama sutil das relações coloniais, se acentua a vitalidade de uma ação subterrânea, mas clara, do sincretismo que confunde forças e fraquezas. Trata-se de uma ação, distinta somente na forma externa, que penetra nas estruturas culturais do Conquistador na mesma proporção com que esse havia penetrado na cultura e espiritualidade dos nativos conquistados.
Assim começa a viagem de volta de uma Conquista que não poderia jamais completar-se, porque feita como em um espelho: o Conquistador se bate para conquistar o Outro que, ao mesmo tempo, quer semelhante ao próprio Eu. Este é um paradoxo tão profundo na cultura do homem européu da Conquista que chega ao ponto de ajuntar seja os que se exprimem conforme o eurocentrismo mais radical – e por isto mesmo contrário à cultura dos indígenas americanos -, como igualmente aqueles que, abertos a estes últimos, se demonstram disponíveis a um universalismo cultural. Neste sentido não são tão distintos Oviedo, com a sua Historia general Y natural de las Indias, 1535, e J. de Acosta, Historia natural y moral de las Indias, de 1590, de Las Casas con la Brevísima relación de la destrucçión de las Indias, de 1552; ou senão, Gandavo, História da Província de Santa Cruz, 1576, e Thevet, Singularitez de la France Antartique, de 1558, ou Jean de Lèry, Histoire d’un voyage faixt en la terre du Brésil, 1578.
A história da Conquista da América vê empenhados muitos países da Europa. Entretanto, Espanha, Portugal e Inglaterra partecipam com um tal espírito de posse que as transforma em protagonistas do evento. [Isto, naturalmente, sem esquecer a ação de outros paises na Conquista americana, em particular aquelas francesa e holandesa. A França, além da significativa presença na parte meridional do continente, no território da Guiana e na América central, exerceu notável ação colonial no norte, particularmente no Canadá e em diversas regiões dos atuais Estados Unidos da América. Além disso, não devem ser esquecidas as empresas francesas no Brasil, entre as quais o utópico projeto da França Antártica na zona do Rio de Janeiro.] Destes protagonistas derivam as tantas Américas.
Em linhas gerais, quando elaboramos conceitos sobre a pluralidade americana, podemos distinguir a componente latina, ibérica e católica da Espanha e Portugal, diversamente daquela inglesa e reformista; porém, é também necessário especificar os distintos espaços das Conquistas espanhola e portuguesa.
A ação espanhola de Conquista é sem dúvidas mais intensa e ampla; mas se se toma em consideração a história das navegações e descobertas que levaram ao encontro com a América, a presença mais relevante nestes eventos históricos é a de Portugal. De fato, a exploração do Atlântico é principalmente uma operação portuguesa.
Todo o séc. XV é uma história do empenho lusitano pela ampliação da área da Reconquista contra os Mouros bem além dos limites da península ibérica.
Já em 1415 D. João I levava as lutas até Ceuta. A partir deste evento, Portugal, consciente da sua política de expansão e conquistas, incentiva também as pesquisas de meios mais correspondentes a uma navegação «não a vista». A nave ideal para as viagens mais longas das novas missões lusitanas, a caravela, é criada ao redor de 1420.
Com as caravelas Portugal enfrenta o grande mar e disto logo derivam as descobertas do arquipélago das Canárias, de Madeira e dos Açores. Intensifica-se a política de expansão de D. Henrique, o Navegador. O cabo Bojador é superado em 1434. Os marinheiros portugueses de D. Henrique, em 1443, já se encontram na costa do Senegal. Deste ponto começa o período mais intenso do esplendor de Portugal com o ouro do Sudan e o uso de mão-de-obra escrava proveniente das terras africanas. No dia 21 de dezembro de 1471 supera-se a imaginária, mas difícil linha do equador.
A política de D. Henrique encontra seu desenvolvimento ainda maior com D. João II, a partir de 1481: durante o reinado do Príncipe Perfeito, Portugal se faz definitivamente uma grande potência marítima.
Em 1488 Bartolomeu Dias supera o fatídico Cabo das Tormentas, desde então dito de Boa Esperança. O caminho que Vasco da Gama deve percorrer é já então aberto: a viagem do herói lusíada se completa partindo de Lisboa no mês de julho de 1497, com a dupla volta pela África e o retorno ao Tejo no final de agosto de 1499.
A navegação de Vasco da Gama estabelecia a rota que colegava a Europa com a Índia e com todas as regiões produtoras de especiarias. E abria igualmente a Portugal a via de várias descobertas, diversas daquelas da rota para o Oriente.
(Continua)

