AVENIDA DA POESIA – Abu Tammam, Manuel Maria, Adília Lopes e Florbela Espanca

Abu Tammam

(actual Síria,,788-845)

 

 

A POESIA

 

A glória sem a poesia é uma terra vazia, sem referências. São as palavras dos poetas que cobrem a seu talante de alegria ou de vergonha o rosto dos homens.

 

Transformam a insensatez em sabedoria e julgam, de acordo com a sua sentença, o que é injustiça ou opressão.

 

 

 

 

 

 

 

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Manuel Maria

 

(Outeiro de Rei, 1929 — Corunha,  2004)

 

A PALAVRA

 

 

Nós, de verdade, unicamente temos

 

a palavra. Só a palavra verdadeira

 

pode traduzir a fecha

 

e insondável soidade do nosso ser.

 

Só a palavra. A própria.

 

A que pertence à nossa língua.

 

A que amamos. A que usa,

 

conhece e reconhece a nossa gente.

 

Sem a palavra seria a pobreza,

 

a miséria total, a impotência

 

a escuridade e o nom ser.

 

Mas hai quem manipula, força,

 

retorce, desfai e prostitui

 

o autêntico senso da palavra.

 

Hai quem mente. E ainda hai

 

o frio, feroz assassino da palavra”.

 

(A Luz Ressuscitada_. Corunha: Associaçom Galega da Língua. Carta-Prefácio e edição de António Gil)

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Adília Lopes

(Lisboa, 1960)

 

 

ARTE POÉTICA

 

 

Escrever um poema

é como apanhar um peixe

com as mãos

nunca pesquei assim um peixe

mas posso falar assim

sei que nem tudo o que vem às mãos

é peixe

o peixe debate-se

tenta escapar-se

escapa-se

eu persisto

luto corpo a corpo

com o peixe

ou morremos os dois

ou nos salvamos os dois

tenho de estar atenta

tenho medo de não chegar ao fim

é uma questão de vida ou de morte

quando chego ao fim

descubro que precisei de apanhar o peixe

para me livrar do peixe

livro-me do peixe com o alívio

que não sei dizer

 

(Um jogo bastante perigoso. Lisboa:, 1985).

 

 

Florbela Espanca

 

 

SER POETA

 

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

(«Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

 

 

 ILUSTRAÇÕES DE ADÃO CRUZ

 

 

 

 

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