Na sequência de um filme que fui convidado a comentar e da dureza das imagens sobre a vida e sobre o trabalho neste nosso século XXI que nos foi dado ver, na sequência de um debate que se seguiu, e porque não dizê-lo, na sequência também de muitas interrogações dos estudantes sobre o que foi visto, sobre o que foi dito e não dito, na sequência de perguntas muito sérias que foram postas e cujas respostas ficaram no ar, apenas, aqui vos deixo alguns textos complementares e a serem lidos na seguinte sequência:
- A CRISE FINANCEIRA ACTUAL TEM O ESTRANHO PERFUME DOS ANOS 30, já apresentado.
- O ESTRANHO MUNDO DAS MATÉRIAS-PRIMAS
A) Glencore aproveita-se da fome e do caos – Chris Arsenault
B) Uma aposta sobre o trigo, sobre a fome – Financial Times.
C) Um olhar sobre o mundo das matérias-primas – Reuteurs
A) Glencore aproveita-se da fome e do caos
Chris Arsenault
A maior multinacional sobre matérias-primas do mundo procede à um aumento de capital e os observadores críticos dizem que a firma é responsável pelo aumento do preço dos bens alimentares.
A subida rápida dos preços dos bens alimentares, o petróleo e as matérias-primas foi desastrosa para os pobres do mundo inteiro como Lia Romi que é vendedor num mercado da Indonésia. Mas é um presente para as multinacionais como Glencore.
Enquanto que Romi tem dificuldade em alimentar a sua família, Glencore- o maior negociante de diversas matérias primas do mundo projecta vender cerca de mil milhões de dólares em acções, o que corresponde sem dúvida à oferta de partida mais elevada que alguma vez tenha sido registado na Bolsa de Londres.
“O preço dos bens alimentares de que temos necessidade diariamente duplicou no decorrer destes dois últimos anos,” disse-nos Lia Romi através de um intérprete. “Os bens alimentares absorvem 100% do rendimento diário da família [que é cerca de 3 dólares]. Não posso economizar nada e devo [dinheiro] aos que me fornecem os produtos que eu vendo [na minha pequena banca no mercado].
Enquanto que Lia Romi e milhões como ela se preocupam com o que vão dar comer à sua família, a oferta pública inicial deste especulador gigante de matérias primas vai criar pelo menos quatro multimilionários, dúzias de milionários que possuem mais de 100 milhões de dólares e várias centenas de milionários à moda antiga. O seu Director‑Geral Ivan Glasenberg vai ganhar mais de 9 mil milhões nesta venda de acções. A especulação sobre os bens alimentares constituiu uma parte importante da sua riqueza.
O controlo dos preços
A empresa Glencore, que está avaliada em cerca de 60 mil milhões de dólares controla 50% do mercado mundial de cobre, 60% do do zinco, 38% do alumínio, 28% do carvão para o aquecimento, 45% do chumbo e quase o trigo mundial de acordo com informações fornecidas pela firma antes da venda das acções. Controla também um quarto do mercado mundial de cevada, das sementes de girassol e de colza.
“É uma das raras firmas que determina os preços a vigorar em vez de a eles se sujeitar,” diz Chris Hinde, director de redacção da revista Mining Jornal. Eles são os corretores do mercado das matérias-primas [e operam] num mundo relativamente secreto. São verdadeiramente eles que fixam o preço das matérias-primas vitais, “disse‑nos.
A multinacional emprega cerca de 57.000 pessoas, gerou um volume de negócios de 145 mil milhões de dólares no ano passado e tem activos de um valor superior a 79 mil milhões. O serviço de comunicação de Glencore recusou responder às nossas perguntas.
Baseada em Baar na Suíça, onde a regulação é mínima, a companhia tem interesses que se estendem de maneira tentacular sobre as minas de estanho da Bolívia, sobre o petróleo da Angola, sobre os produtores de zinco do Cazaquistão, sobre as minas de cobre da Zâmbia e ainda sobre as operações com o trigo russo.
“A integração vertical de Glencore não tem precedentes” diz Devlin Kuyek, um investigador de GRAIN uma organização internacional sem fins lucrativos que se ocupa da segurança alimentar.
“Glencore possui quase 300.000 hectares de solo arável e é um dos maiores proprietários de solo arável do mundo. Especulam sobre o comércio de cereais e têm um poder imenso no mercado, “ disseram-nos.
Os preços dos bens alimentares do planeta subiram dramaticamente nestes últimos tempos ao nível de 2008, época na qual se tinham desencadeado as revoltas da fome em certos lugares do Médio Oriente, da África e as Caraíbas.
“Uma parte inquietante do aumento dos preços é, e disso tenho medo, a consequência da especulação” disse-nos Marcus Miller, um professor de Economia internacional da universidade de Warwick. “As apostas [sobre o aumento ou a baixa dos preços] podem facilmente ser realizadas se o interveniente no mercado é um grande operador para ter uma influência no mercado.”
Em Março de 2001, o índice dos bens alimentares do Banco Mundial era de 36% superior ao ano precedente embora os preços das matérias-primas tenham fortemente descido nas semanas precedentes.
Certos analistas crêem que os aumentos de preços são a consequência do aumento da população mundial, nomeadamente das classes médias, sobretudo na China e na Índia onde se come e mais carne, o que provoca o aumento dos preços do milho e dos outros produtos destinados à alimentação dos animais.
Duncan Green, o director das investigações do organismo de desenvolvimento Oxfam na Inglaterra diz que os mercados internacionais de bens alimentares e outras matérias‑primas podem ser comparados com a forma de uma rolha de champanhe. “Há muitas pessoas que produzem e muitas pessoas que consomem mas há um ponto de passagem estreito no meio que é controlado pelas multinacionais que embolsam a mais‑valia gerada,” dizem-nos na Oxfam. “A maior parte dos pobres do mundo é – estranhamente o conjunto daqueles que semeiam e fazem crescer os bens alimentares .
Em 2010 o banco de investimento Goldman Sachs assinalou que iria haver “violentos aumentos de preços ” no mercado das matérias- primas. As suas previsões revelaram-se aproximadamente exactas.
(Continua)
