AVENIDA DA DA POESIA – Horácio, Nuno Júdice, Jorge Luis Borges

 

 

Horácio

 

(Venúsia, 65 a.C. — Roma, 8 a.C.)

 

ARTE POÉTICA (ou A Espístola aos Pisões) – fragmentos

 

Tomai um assunto, vós que escreveis, proporcional às vossas forças. Avaliai longamente o que os ombros ferrenhamente recusam e o que podem. A quem escolheu conforme suas forças, nem a eloqüência o abandonará, nem a ordem clara. Consistirá a força e a beleza da ordem, ou estou enganado, em que o autor do poema anunciado diga agora as coisas que agora devem ser ditas, muitas outras adie e omita no momento, ame isso, despreze aquilo.

 

 

Delicado e cauto também ao juntar palavras, te expressarás distintamente se, por combinação engenhosa, uma palavra conhecida produzir uma nova. Se casualmente for necessário mostrar o oculto da coisas com revelações novas, e acontecer de se criar coisas nunca ouvidas pelos Cétegos cintudos, permissão será dada, se usada com reserva, e as palavras inventadas ainda novas terão crédito se, derivadas com discrição, caírem de fonte grega. Concederá, pois, o romano a Cecílio e Plauto o que foi proibido a Virgílio e Vário ? Eu, por que sou invejado, se poucas coisas posso obter, quando a linguagem de Catão e Ênio enriqueceu a língua pátria e exibiu novos nomes de coisas?

 

Sempre foi e será permitido criar um nome assinalado com marca do presente. Como as florestas são transformadas por suas folhas com o passar dos anos, caindo as mais velhas, assim se perde a geração antiga das palavras e, como os jovens, florescem as nascidas há pouco e vingam.

 

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Nuno Júdice

(Mexilhoeira Grande,  1949)

 

 

ARTE POÉTICA COM CITAÇÃO DE HÖLDERLIN

 

 

O poema lírico nasceu de uma roseira. Não

digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos

olham, primeiro que tudo, pensando

em cortá-la para a levarem consigo. É

a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,

vestida com a substância da terra

a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por

acaso, e ela agarra, como se tivesse

mãos abstractas por dentro das suas folhas.

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,

como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio

de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher

que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva

dos lagos, os veios subterrâneos das humidades

ancestrais, e abriu-se como o ventre da

própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,

num barco tão fundo como a sua própria

morte.

 

Abracei esse poema. Estendi-o na areia

das margens, tapando a sua nudez com os ramos

de arbustos fluviais. Arranquei os botões

que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor

verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe

que me falasse, como se ele só ainda soubesse

as últimas palavras do amor.

 

(Metáfora contínua de um único sentimento).

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Jorge Luis Borges

 

(Buenos Aires, 1899 — Genebra, 1986)

 

 

 

 

 

 

 

ARTE POÉTICA

 

 

Mirar el río hecho de tiempo y agua

Y recordar que el tiempo es otro río,

Saber que nos perdemos como el río

Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño

Que sueña no soñar y que la muerte

Que teme nuestra carne es esa muerte

De cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo

De los días del hombre y de sus años,

Convertir el ultraje de los años

En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso

Un triste oro, tal es la poesía

Que es inmortal y pobre. La poesía

Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara

 

Nos mira desde el fondo de un espejo;

El arte debe ser como ese espejo

Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

Lloró de amor al divisar su Itaca

Verde y humilde. El arte es esa Itaca

De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable

Que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

Y es otro, como el río interminable.

 

 

 

 

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 Ilustrações de Adão Cruz

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