COMEMORAÇÕES DA REPÚBLICA – Fantasmas do Centenário – 7 – por César Príncipe

 

 

PERÍODO SILVACAVAQUISTA

 

Filho de Teodoro Silva e Maria Cavaco, da pequena burguesia rural e comercial louletana (ligada ao cultivo de frutos secos e à venda de combustíveis), Aníbal Cavaco Silva estudou em Boliqueime, Faro, Lisboa e York e leccionou em Lisboa. Passou pela tropa como contabilista. Foi bolseiro e investigador de Economia e Finanças da Fundação Gulbenkian e director de Estatística e Estudos Económicos do Banco de Portugal. Mais foi ou continua a ser: deputado, ministro das Finanças e do Plano, primeiro-ministro, presidente da República. Foi ainda secretário-geral do PSD. Uma data emerge na aceleração e projecção da carreira: 1985. Um facto súbito oferece a oportunidade: falecimento de Mota Pinto. Um evento serve de rampa: Congresso do PSD. Um local assinala o triunfo: Casino da Figueira da Foz. Bateu Rui Machete e João Salgueiro, graças à mão de Eurico de Melo, vice-rei do PSD/Norte, diligente e proficiente angariador de fundos, que se tornou ministro de Estado e da Administração Interna e vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, havendo abandonado este posto em condições obscuras, passando de sustentáculo partidário e pilar governamental a militante silencioso e eurodeputado invisível. 

No exercício das funções governativas e presidenciais, o homo boliqueimensis deixou uma marca de executor do neo-liberalismo como economia financeirizada e de passadismo como pauta ideológica. Doutorado pelo thatcherismo-reaganismo, esforçou-se, a partir de 1986, por aplicar a receita testada pela Escola de Chicago no Chile de Pinochet, a partir de 1973: como em Portugal o regime constitucional e o condicionamento democrático não permitiam uma solução casernícola, CS foi pressionando a Lei Fundamental. Barrado, em 1987, por uma moção de censura, dissolvida a AR e convocadas eleições, CS obtém a maioria absoluta. Repetirá a absoluta, em 1991, então coligado. Este suporte confere-lhe campo de subversão para dar largas a uma concepção de Thatcher de calças e Reagan sem chapéu. Entrado Portugal, no seu consulado, na CEE, CS drenaria, durante dez anos, o manancial de fundos para obras públicas, parte delas de aparato ou de desbarato, fazendo crescer o polvo de betão à sombra da árvore das europatacas. Deixem-me trabalhar! Os fundos que não jorraram para infra-estruturas, frequentemente megalómanas ou desconectadas de um Plano Estratégico de Desenvolvimento, foram engordar o sector particular em nome do sector privado, enquanto se desmantelava a indústria pesada e mecânica, se abatia drasticamente o efectivo pesqueiro e se pagava para não produzir na agricultura. Deixem-me trabalhar! Este fontismo fim-de-século XX engordou uma geração de empreiteiros, presenteou uma geração de empreendedores absentistas e fez despontar uma geração de banqueiros cavaquistas. Desde o ouro do Brasil que algumas estirpes não nadavam tanto em dinheiro fácil. Cavaco é o Magnânimo da Europa dos Fundos Perdidos. Mas, ao menos, D. João V, o rei do Mosteiro de Mafra e da Ópera Italiana, não perdia tempo a subir a coqueiros: apreciava saias de freira. Ia ao primor de montar suite de luxe à madre Paula no Convento de Odivelas. Descontado o devocionário paulista, a política de Estado não comportará grandes diferenças.

 

Terão ambos algo de positivo no percurso. D. João V também fez obra, representada pelo emblemático Aqueduto das Águas Livres. Contudo, o que nacionalmente falhou superou o bem realizado. O fausto é muitas vezes prenúncio de bancarrota. João também tinha Secretariado de Propaganda para impressionar a populaça e os salamaleques dos cortesãos. João fazia gala em deslumbrar o papa romano e o imperador chinês. Falecido o monarca da Palhavã e da Patriarcal, dos solenes pontificais, dos coches e dos deboches, não havia disponibilidades de tesouraria para um funeral luzidio, à altura do Rei-Sol Português. 

Além da distribuição do euromaná, Cavaco Silva notabilizou-se a privatizar empresas públicas, inclusive por ajuste directo e a preço mínimo, acentuou o desequilíbrio do estatuto laboral face ao patronal, procedeu à revisão da Lei de Imprensa, abrindo a Rádio e a Televisão a grupos mediáticos afectos, retirou o poder vinculativo aos Conselhos de Redacção, criou os regimes fiscais de IRS/IRC, beneficiando a banca e a generalidade das aplicações aforristas e bolsistas. Deixem-me trabalhar! No quer toca ao modelo de Estado, contribuiu, como ninguém, para o que mais tarde classificaria como monstro:   para as clientelas partidárias e colaboracionistas, a ética como ramo de negócio, as sobreposições de funções e competências. Miguel Cadilhe, que foi ministro das Finanças do Cavaquistão, reconheceu CS como o verdadeiro pai do monstro, Quanto ao pretenso excesso de funcionários públicos, CS recomendou em tempos a implacável lei da natureza: deixá-los morrer. Mas alguns portugueses tiveram direito a berço dourado.

 

No magnânimo reino do Cavaquistão, fomentou-se o culto dos vencedores, desde logo, dos JEP`s/Jovens de Elevado Potencial. E foi-se revelando o potencial de Oliveiras e Costas, Dias Loureiros, Duartes Limas. O cavaquismo foi uma fábrica de novos-ricos. Alguns dos sinais institucionais desse novo-riquismo traduziram-se na aquisição de uma frota de aviões executivos Falcon, nas comitivas régias e nas despesas colossais da Presidência da República. Deixem-me trabalhar! O Novo SPN/Secretariado de Propaganda Nacional, esse vendia e revendia Portugal como um oásis no meio da desolação e com brios de bom aluno europeu num clube de cábulas. Portugal integrava ou brevemente integraria o pelotão da frente. E agora que jazemos em 2011, no término das evocações republicanas ou da coisa pública, em que se salda o país-ficção do homem do leme ? Bastará passar os olhos pelo mapa continental e insular: as tempestades de areia toldaram o oásis. Verificou-se o incumprimento das regras de contabilidade da Euro-Escola e da Universidade de York e do Instituto Comercial de Lisboa, confirmou-se o endividamento crónico e insustentável, agravou-se o retrocesso económico, alastrou a mancha da pobreza, decretou-se o saque fiscal e social da classe trabalhadora e da classe média.

 

E tão calamitoso como a calamidade económico-social é o drama de Portugal ter vindo a perder soberania e independência de modo célere ao cair no ciclo infernal da dívida e da recessão, nas garras dos prestamistas, dos agiotas, dos batoteiros: da economia de casino. O CS de 2011 é idêntico ao CS de 1985: foi eleito num casino e muito lhe deve Portugal por se haver transformado um casino, onde alguns são senhores das máquinas e das fichas e do tapete verde e outros pagam as paradas do BPN e do BPP e das parcerias público-privadas e das derrapagens orçamentais e dos paraísos fiscais e dos vencimentos provocatórios e das reformas obscenas. Cavaco Silva não pode dizer que não passou por aqui ou que não sabia o que se passava por aqui. Deixem-me trabalhar! Não houve outro timoneiro (com excepção de Salazar) com tal latitude e amplitude de mandato. Também não pode dizer que é humano e errou. Exerceu o magistério da infalibilidade: nunca me engano e raramente tenho dúvidas. E nem precisava de recorrer à Imprensa para se inteirar dos acontecimentos: não leio jornais. York dixit. Chicago diktat. 

Já no itinerário democrático, CS homenageou Spínola e agraciou ex-Pides – compreendendo-se que, na ditadura, se tivesse confessado à PIDE, por escrito,integrado no salazarismo. Vocacionado para se integrar na ditadura, negar a pensão à viúva a Salgueiro Maia, Capitão de Abril, foi um acto de continuidade. Como foi um acto de continuidade a Petrogal (empresa pública sob tutela do X Governo Constitucional/CS) haver nomeado Ramiro Moreira para alto cargo em Madrid, para onde se evadira, após condenação a 21 anos de cadeia. Lembre-se que era, na altura, ministro dos Negócios Estrangeiros Pedro Pires de Miranda, ex-presidente da Petrogal, eminência que sentiu necessidade de abandonar a terra lusa no 25 de Abril e no 11 de Março. CS foi apodado deditador por Belmiro de Azevedo, seu apoiante.

 

CS foi acusado por Miguel Júdice, seu apoiante, de haver destruído o PSD original, de haver aumentado o peso do Estado e de ser autoritário. Acrescentaremos que tratava os ministros por adjuntos. Sidónio Pais só tolerava secretários. Já no Plano Nacional de Leitura, o pai do colossal deslize das contas do Centro Cultural de Belém leu uns livros de contabilidade, economia e finanças. Mesmo assim, troca competitividade por competividade. No restante, confunde Tomás Moro com Thomaz Moore e desconhece os cantos dos Lusíadas. Terá mandado ler ao inquisidor Lara o Evangelho de Saramago? 

Apesar do colossal défice literário, nada impede CS de ter um futuro risonho como ficcionista do mundo rural, mundo que tanto ajudou a desertificar e a liquidar. Segundo CS, terão ficado imunes à PAC algumas vacas de elevado potencial. Dir-se-á: que sorte ser boy em Portugal e vaca nos Açores. Isso mesmo. CS redimir-se-á das agruras agrárias. Deliciar-nos-á com o Monólogo da Graciosa. Gil Vicente, esteja onde estiver, orgulhar-se-á por reler, em 2011, o seu Auto de 1502. O novel talento é um português dos grandes em época de ânimos abatidos e credores à perna. Ninguém estranhe a narrativa e o êxtase do narrador: o destino de Portugal sempre esteve dependente do gado: do bravo e do manso. As vacas, então, sempre deram provas de férreo portuguesismo e acrisolado patriotismo. Quem não se recordará da Batalha da Salga, em 1581, dominados por Castela, só faltando submeter a Ilha Terceira? Oitenta vacas desceram dos verdejantes pastos, investiram contra os afoitos desembarcados, desbarataram a invencível armada de Filipe II. Onde falta a carga de cavalaria sempre resta a carga de vacaria.

 

Que fique a lição para Merkel e Sarkozy: as vacas nem sempre se desfazem em sorrisos. No entanto, ver vacas consoladas é um privilégio. Como suma honra é pertencer a uma raça cuja Língua se enriquece cruzando a épica da Terceira e o pitoresco da Graciosa. A alma do Portugal Profundo emerge. Atentemos na importância do vaquismo e do cavaquismo na História da Defesa e da Literatura. 

AUTO DO VAQUEIRO 

Ontem eu reparava no sorriso das vacas. Estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante.

 

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