Paulo Rato A memória do novelo de Penélope
(Adão Cruz)
O pintor tece forma e cor em seu tear interior. A tela ─ com sua tessitura ─ espera, nua. E interpela. O pintor constrói o gesto que em si germina, lança o traço, a mancha, o rasto que a mão recolhe do que lhe viajou o corpo ─ cada poro, fibra, veia, osso. A tela vibra, teme ─ ou deseja? ─ a fortuita irrupção das nocturnas mãos daquela mulher de Ítaca, não nela, mas na trama do pintor, suspenso em seu desígnio. Sabe (a tela) que Odisseus decidirá o derradeiro laço. Conhece o arco, o sangue, o sémen. O selo.
De novo a tela espera, com seu vestido, inteiro. Um outro olhar, não já o do pintor, a desvela. Nela verá três mulheres ─ três anjos de sexo azul? ─ e vermelhos vestígios ─ de sangue ou anseio? ─ e véus velas asas voos. É este olhar, alheio, que agora a interpela. E parte, por ela, em buscada memória do novelo de Penélope.


