Hoje pretendemos colocar o leitor face a um outro mundo estranho, tanto ou mais estranho ainda que o dos 9 banqueiros do mundo, os grandes traders do mundo da finança, os que se reúnemem Nova Iorque, em Manhattan para discutirem os seus destinos e o que discutem dos seus destinos tem a ver com os nossos destinos mas normalmente no sentido oposto ao que nós desejamos realizar, porque as motivações são inversas.
Hoje falaremos dos homens que dominam o mundo do negócio, do trading, das matérias primas, dos bens alimentares, de tudo aquilo que está por debaixo da terra, de tudo aquilo que à superfície dela pode crescer, de tudo aquilo que sendo produto se pode transformar em mercadoria, ou seja, em metal sonante.
Por aqui teoricamente passaria a renda diferencial sobre a terra, sobre as explorações, mineiras ou outras, cujos fundamentos foram explicados por um grande economista, um dos maiores de sempre, David Ricardo, mas ironia da história os homens de que no texto abaixo se fala nunca leram nem lerão Ricardo e se alguma coisa compreenderam, mesmo sem nunca também terem lido, terá sido Marx, pois a lição deste parecem ter bem apreendido. O que regula este estranho mundo não é a renda diferencial que seria estabelecida pelo mercado, pelo jogo da procura e oferta, pela concorrência dos factores, pela existência de bens de valor de mercado nulo como bens livres, o que regula este estranho mundo não são os mercados transparentes de que tanto nos querem ensinar que são a quinta essência do capitalismo, mas que ninguém conhece afinal, não, o que regula este estranho mundo é a renda absoluta, é o poder que se tem ou não tem de se apropriar um recurso que não é reproduzível, de um recurso que se tem ou não tem o poder de disponibilizar para o mercado, face às forças que lhes podem opor. Nas antípodas da teoria neoliberal portanto e é que disso nos falou Marx mesmo que do ponto de vista da formação do valor ele tenha sido muito confuso. Mas a teoria da formação dos preços não para aqui chamada, pelo que passemos à frente, avancemos.
Para simplificar este nosso raciocínio admitamos três tipos de terra de produtividade diferentes. Na terra 1 produzem-se 100 alqueires de trigo por hectare, mas não chegam para satisfazer a procura. Utiliza-se então a terra 2 onde com os mesmos custos com que se produzem 100 alqueires se produzem agora 80 alqueires de trigo. Mas o consumo é superior a 180. Utiliza-se uma terra 3 onde se produzem com os mesmos custos 50 alqueires de trigo por hectare e a procura global é agora satisfeita. Esta terra de que muita fica em pousio, não recebe então nenhuma renda, é um factor livre, de valor nulo! Imaginemos então que os custos de produção, com lucros incluídos para os empresários que exploram as terras, para produzir os 100, os 80 e os 50 alqueires são exactamente os mesmos, digamos 10.000 euros, ou seja o trigo sai a 200 euros o alqueire na terra nº 3. Na terra a que chamámos terra nº2 a receita é dada por 16. 000 euros, pois produzem 80 alqueires e o custo de factores é de 10.000. Desta receita de 16.000 então os 10.000 são para o empresário e restam 6.000 para o proprietário da terra. A renda diferencial é então de 6.000 euros e a terra nº 1 pelo mesmo raciocínio dará de receitas 20.000 euros e custos de 10.000. A diferença, será então a renda diferencial, neste caso de 10.000. Tudo estaria certo se a teoria estivesse certa. Ora, a última terra, a terra nº 3 tem dono, e portanto para a deixar utilizar, exige uma renda, e isso é independente do valor do trigo no mercado que, de resto, depende da disponibilidade desta terra nº 3 para a concessão da terra para a agricultura. Mas admitamos que ele exige uma renda de mil euros. Não há hipótese, num sistema de mercado livre, de poder evitar esta situação, por hipótese. O custo sobe portanto de mais 20 euros por alqueire e é estabelecido a 220 euros. Esse preço estende-se a todas as produções de trigo e curiosamente na mesma lógica de mercado a mesma renda absoluta fez crescer ainda mais a renda nos outros terrenos. Com efeito o terreno nº 2 produz oitenta alqueires que agora a 220 euros por alqueire gera um rendimento de 17.600 euros. Dez mil revertem para o empresário capitalista que explora a terra com o seu capital em máquinas, sementes, adubos, salários, etc. Obtêm-se um valor para a renda agora de 7.600 contra 6.000 anteriormente. A renda aumentou portanto de 1600 nesta terra nº 2 por imposição de uma renda absoluta na terra nº 3. Para a terra nº 1 esta diferença seria agora de 2000 contra 1.600 na terra nº 2.
Por este exemplo podemos redesenhar o mundo violento que está por detrás de tudo isto. No nosso caso significava que a resistência do proprietário da terra nº 3 levava a que os proprietários da terra no seu conjunto ficassem altamente beneficiados com o sistema, a classe dos arrendatários da terra, a classe mais retrógrada do sistema capitalista. E é aqui que entra toda a espécie de violências neste caso na apropriação da terra, na pressão da terra nº 2 para produzir mais, mesmo a perder, para eliminar a necessidade de recorrer à terra nº 3 e assim eliminar .o recalcitrante proprietário da terra nº 3, enfim, o leque é infinito onde a própria morte física não está sequer excluída. A burguesia ávida de excedente económico não estaria disponível para tolerar recalcitrantes deste tipo que levariam a que os latifundiários engordassem à sua custa.
Neste texto fala-se muito do maior trading mundial Glencore, sediada num paraíso fiscal. Não é por acaso, certamente, que, além de Glencore, lembro-me de Metal Europe no norte de França com perto de mil empregados, fechada de um dia para o outro, por fax, depois de se ter roubado todo o espólio de metais raros que nos seus armazéns havia como uns vulgares ladrões e com todo o seu pessoal reduzido a nada repentinamente. De Glencore lembro-me de um filme passado por uma cadeia de televisão Suíça, lembro-me de um sindicalista numa sua mina no Peru, creio, ter recebido uma carta com uma bala sem nada mas com o aviso que para a próxima não será assim, ser-lhe-á directamente entregue!
Glencore, uma das empresas FTSE 100, o índice bolsista das cem mais importantes empresas na Bolsa de Londres, é uma sociedade híbrida, de um lado, as minas, as jazidas, os portos e os entrepostos, a que se acresce uma miríade de participações industriais. Por outro lado, age como empresa intermediária, freta navios, executa transportes de matérias primas, entre países produtores e consumidores. Graças às suas actividades, Glencore controla 60% do zinco à escala mundial, 50% do cobre, 30% do alumínio, 25% do carvão, 10% de cereais e 3% do petróleo. Glencore está para as matérias primas como Golden Sachs está para a banca, ambas as empresas têm o mesma alcunha, a Firma. Dirigida por Glasenberg, as suas ambições não se reduzem à regra nº 1 do trader, comprar no mais baixo possível, vender no mais alto possível, Não, Glasenber prefere estabelecer ligações de longo prazo com os seus clientes, prefere ter sempre o seu pessoal no limite máximo de tensão e a insegurança no emprego na Glencore é total. Mata ou morres, é a divisa que se segue na Glencore. Dá pois para entender. E tanto se pode entender o que não estamos a escrever sobre Glencore que esta no seu prospecto de cerca de 1600 páginas para a sua introdução na Bolsa aí dizia bem explicitamente: «A fraude e a corrupção constituem um risco ligado à natureza da nossa actividade .»
Um exemplo curioso para não dizer dramático, o que vamos agora contar. Recentemente, Glencore, primeiro negociante sobre os cereais russos, comportou-se como um terrível especulador apostando no maior em segredo sobre um aumento do preço trigo no início do Verão de 2010. Paralelamente, os emissários de Glasenberg convenceram Moscovo a colocarem um embargo sobre as exportações dos seus cereais para combater o efeito da grave seca que reinava na ex-URSS. Resultado, os preços dos cereais dispararam e aumentaram cerca de 15% em dois dias o que fez subir o preço do pão em todo o mundo.
“Trabalhando com países mal armados para fazer face ao rolo compressor das multinacionais, Glencore é potencialmente uma das empresas mais perigosas em termos de responsabilidade social e de desenvolvimento”, denuncia Olivier Longchamp da ONG suíça Déclaration de Berne. Glencore decidiu recorrer ao mercado de capitais para obter fundos de modo a prosseguir a sua conquista de mercados mas sem estar a respeitar para isso os imperativos de transparência, como o atesta a recente deslocação da sede jurídica de Baar para a praça financeira off-shore da ilha Jersey, um paraíso fiscal mais perto de um outro paraíso fiscal, Londres. Até aqui a ausência de cotação tem permitido até ao seu proprietário cultivar o silêncio como arma.
A fim de afastar os projectores da imprensa assim como os analistas, Ivan Glasenberg deu apenas uma só entrevista. Este silêncio permitiu a esta muito grande fortuna escapar aos radares da imprensa. Até ao anúncio da introdução em Bolsa, até a revista económica Bilanz, que estabelece a escala das grandes fortunas na Suiça nem conhecia sequer a sua existência!
É pois sobre este estranho mundo de Glencore e outras empresas que se fala no texto que se segue sobre as 16 maiores empresas de trading. Curiosamente um texto publicado pela Reuters, um dos elementos chaves da e na lógica neoliberal.
