VIAGEM COM PASQUALINI- 15– por Sílvio Castro

(Continuação)

 

 

Pasqualini me disse

 

o Fundo Monetário Internacional sempre representou para o Brasil um grande problema; não tanto porque condiciona de maneira predominantemente arbitrária as relações brasileiras com o capital internacional, mas principalmente porque se apresenta diante de nossos interesses de progresso como constante poder reacionário. O FMI tem sido sempre uma voz de propagação de receitas anti-sociais. Desta maneira se exprime nas suas relações com o Brasil e com, em geral, os países considerados emergentes ou daqueles ditos em «fase de desenvolvimento».

 

muita culpa de tal situação é somente nossa. Poucas vezes soubemos na nossa história econômica criar uma política que não fosse de empobrecimento do Brasil. Os nossos recursos – os das matérias primas, mas igualmente aqueles do setor de serviços – mais que desenvolvidos, têm sido somente explorados. O nosso constante «deficit» de democracia passa principalmente por essa estrada. Mais que sair do subdesenvolvimento global a que tem sido condenada a sociedade brasileira, a nossa política tem sabido quase tão somente projetar processos de sufocação do sempre crescente sistema de desenvolvimento que esta mesma sociedade soube criar por si mesma.

 

a irônica sabedoria popular colheu tudo isso na expressão corrente de que «o Brasil cresce de noite, quando os políticos dormem».

 

possivelmente devemos pagar as nossas dívidas, mas temos de fazê-lo dentro dos critérios democráticos das relações democráticas que devem guiar a política econômica internacional. O FMI muitas vezes não se adegua a essa norma de democracia, pois privilegia como regra os interesses dos grandes bancos ocidentais e do Japão. Hoje o Brasil justamente se exalta por ter cumprido com o compromisso de saldar suas dívidas externas, mas devemos não somente rejubilarmos com o sucesso do nosso empenho, mas transferir as convicções sobre o grande evento presente a dimensões mais diversificáveis absolutamente desprovidas de qualquer forma de vão ufanismo .

 

não devemos pedir a intercessão de Washington quando o FMI se comporta em forma antidemocrática; devemos criar os pressupostos políticos para que os legítimos direitos brasileiros não se vejam sufocados por interesses antisociais expressos pelas multinacionais. Isso também pensando que, com as suas conquistadas dimensões presentes, já agora uma dívida pública brasileira quase fatalmente tende a atormentar as finanças e os mercados não só da América do Sul.

 

                   Cheguei em Vitória e não encontrei o meu amigo. O chefe da estação Central me confirmou que o Senador passara por ali fazia dias, mas que logo ripartira. O chefe da estação de Vitória não mostrava o mesmo entusiasmo daquele de Belo Horizonte sobre o misterioso viajante que não deixava nunca os seus trens por todo o Brasil. Ainda que o conhecesse, não chegava a compreender o sentido daquele viajar sem fim. E não se esforçava de dar maior importância ao fato. O Senador passara por ali há alguns dias. Basta. Será porque o meu amigo não se acostumara a desviar habitualmente sua viagem na direção de Vitória, mas o certo que o chefe da estação não se importava muito com aquele passageiro especial.

 

                   Então não falei mais com o chefe da estação de Vitória. Logo que pude, peguei um novo trem que deixava o Espírito Santo e ia para o Estado do Rio, destinação Rio de Janeiro. Eu pressentia, depois de tudo, que ali eu encontraria o meu amigo ou o seu passar.

 

                   Saído de Vitória, logo tocando Guarapari e Anchieta, retomei o processo de viajar mais próximo ao estado de espírito que me levou a fazê-lo. Eu me encontrava de novo preso pelo divagar de meus pensamentos, confundidos com a incessante corrida do trem.

 

                   Enquanto o expresso se dirigia para Cachoeiro de Itapemerim, vendo esta paisagem que tem muitas formas em comum com aquela minha natal do norte do Estado do Rio, eu sentia o território de uma outra maneira, profunda. Diante desta terra, desta gente, do falar e do estar em companhia, eu pensava de como me está dentro o sentimento do homem do litoral em confronto com aquele outro do interno. É verdade que, no momento em que me encontro no direto confronto com a vida do território-sertão, o interno global visto por quem vem do horizonte do mar, eu o sinto fortemente. Mas, não é com o mesmo sentimento que me une ao litoral e às suas expressões. Naquela, me encontro em participação resultada da vontade de integração, mas sempre vontade adquirida; nesta, é como se cada adesão, até mesmo a menor, seja sempre um ato que prescinde da vontade e se realiza com o imediatismo das coisas mais naturais. Porém, sinto igualmente que a minha dimensão não natural não pode prescindir da outra: quanto mais eu conheço e conquisto as muitas dimensões do território interno, mais me enriqueço. Tudo se passa como se eu, forte de uma modernidade do sistema próprio do litoral, não a pudesse gozar inteiramente sem o conhecimento daquela diversa antiga dimensão que descubro no conhecimento do território interno. Mas, verdadeiramente, o que acontece? sou eu que descubro a outra dimensão, ou é esta que me revela a minha original?

 

                   Assim vou divagando, quando sinto o território orgulhoso de Campos diante de mim. O trem corre pelos campos de canaviais que mostram um verde ereto, brilhante no sol intenso e que se deixa acariciar pela brisa quente vinda do Paraíba que corre para o mar pressentido. Engenhos e uzinas se alternam no espaço e eu recobro a capacidade de sentir minhas narinas alargadas pelo doce perfume do melado, misturado a alguma coisa que lembra alcool ou éter.

 

 (Continua)

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