Para o pequeno clube de empresas que comercializam os produtos alimentares, os combustíveis e os metais que mantêm o mundo em actividade, a última década tem sido sensacional. Impulsionado pela ascensão do Brasil, China, Índia e outras economias em rápido crescimento, o boom global das commodities tem visto os lucros crescerem de forma abissal nas maiores empresas de trading a nível mundial.
Este conjunto de empresas formam um grupo exclusivo, fechado, em que os seus membros estão muito pouco sujeitos à regulação e estão na maioria dos casos com as suas firmas sediadas em paraísos fiscais como a Suíça. Em conjunto, valem mais de um milhão de milhões de dólares em rendimentos anuais e controlam mais de metade do mundo de commodities negociadas nos mercados da economia global. Os cinco primeiros juntos valeram 629.000.000.000 $ de receitas no ano passado, imediatamente abaixo das cinco maiores empresas financeiras globais e mais do que as vendas juntas dos principais líderes nas novas tecnologias ou telecomunicações. Muitos acumulam posições especulativas no valor de milhares de milhões em matérias-primas, em commodities acumuladas nos armazéns e silos e em super-petroleiros durante os períodos de menor oferta.
Os reguladores dos EUA e da Europa estão a apertar a malha, estão a condicionar os grandes bancos e os hedge funds que especulam em matérias- primas, mas as grandes empresas de negociantes permanecem praticamente intocáveis . Muitas não são cotadas na bolsa ou são mesmo somente empresas familiares mas porque negoceiam sobre produtos físicos são em grande parte impermeáveis aos reguladores financeiros. Fora do sector das commodities, muitos desses calmos gigantes que são os corretores do mundo dos bens básicos são pouco conhecidas.
A sua esfera de acção está em clara expansão. As grandes empresas de negócio possuem agora um número crescente de minas que produzem muitas das nossas commodities, possuem os navios e os oleodutos que transportam, essas commodities, possuem os armazéns, os silos e os portos onde estão armazenados esses produtos. Com as suas conexões e conhecimento do meio – os mercados de commodities são em sua maioria livres de restrições de insider trading – as empresas de negócio tornaram-se poderosos brokers, especialmente com o rápido desenvolvimento da Ásia, América Latina e África. Eles fazem parte da cadeia alimentar, e adicionalmente ajudam a moldá-la, e os ganhos pessoais podem ser enormes. Nestas empresas “a percentagem de bónus sobre os lucros pode ser o dobro do que os bancos de Wall Street pagam”, diz George Stein, da Talent Commodity de Nova York, empresa de selecção de pessoal altamente qualificado, também consideradas empresas de caça-cabeças.
Com sede na Suíça, a empresa Glencore, cuja oferta pública inicial (IPO) em Maio colocou as empresas de trading no centro das atenções, paga anualmente bónus a alguns dos seus traders na casa das dezenas de milhões. No papel, a riqueza do seu Director Ivan Glasenberg pode aumentar de 10.000 milhões dólares numa só noite.
O problema da dimensão
O problema da dimensão pode ser visto como sendo o de se conhecer qual a dimensão das grandes casas, das empresas de maior volume de negócios? Posto de uma outra maneira: duas delas, Vitol e Trafigura, venderam em conjunto um total de 8,1 milhões de barris de petróleo por dia no ano passado. isso é, um valor igual ao do conjunto das exportações de petróleo da Arábia Saudita e Venezuela.
Ou posto ainda da seguinte forma: Glencore em 2010 controlava 55 por cento do mercado mundial do negócio de zinco e 36 por cento do valor negociado em cobre.
Ou ainda um outro exemplo: com pouca publicidade as vendas de Vitol, que foram de 195 mil milhões em 2010, foram duas vezes mais elevadas que as vendas da Apple. Assim como os 200 navios que tem no mar, Vitol possui tanques de armazenamento nos cinco continentes.
A regulação americana está agora inclinada para limitar o volume de posições especulativas próprias para os bancos – operações feitas com fundos próprios mas as novas regras não se aplicam a empresas de trading: ” as casas de negócio têm grandes volumes de negociação por conta própria. Nalguns casos, faz-se entre 60 a 80 por cento do volume total que negoceiam”, disse Carl Holland, um ex-gerente de risco sobre o preço do petróleo na Chevron Texaco, que agora dirige a empresa de consultoria em energia Solutions LLC em Connecticut. “Eles são os que têm mais talento, são os que têm os bolsos mais fundos e são também os que têm a melhor gestão de risco.”
Adicionalmente, além da contenção sobre o trading, o regulador dos EUA votou em 19 de Outubro a imposição de posições limite nos mercados de petróleo e metais. Isto dá aos bancos que negociam nos mercados de futuros motivos para preocupação, mas uma vez que os agentes a negociarem em produtos físicos recebem normalmente isenções de limites – porque estes são categorizados como hedgers bona fide – as empresas de negócio podem saír desta situação ilesas, isto é podem tomar no mercado em valor as posições de compra ou de venda que entenderem.
O talento das casas de negócio e os seus bolsos profundos traduzem-se num enorme poder . “A maioria dos compradores de commodities do mundo são empresas tomadoras de preços, price takers. as principais empresas de negócio, as de topo, são empresas fomadores dos preço, price makers“, disse Chris Hinde, editor do jornal londrino Mining Journal. E “isso confere-lhes uma posição tremenda.”
É este tipo de posição que tem permitido a Vitol fazer um activo negócio em petróleo com o governo dos EUA, com o regime sírio sitiado e com os rebeldes que recentemente tomaram o poder na Líbia e tudo isto em simultâneo e ao longo dos últimos meses. Em Abril, a empresa contornou as bombas da Nato e esquivou-se a um bloqueio naval e enviou o primeiro petroleiro para o martirizado porto de Tobruk no Mediterrâneo para levar um carregamento de petróleo vendido pela direcção de uma empresa de petróleo da Líbia em franca ruptura e desafiando Muammar Kaddafi.
Vitol também discretamente forneceu os rebeldes da Líbia, com mil milhões em combustível, soube a agência Reuters – fornecimentos de que os rebeldes precisavam desesperadamente para avançar sobre Trípoli. Este comportamento de início deu à empresa Vitol uma vantagem face aos novos administradores políticos do país. Como se vê as bombas voltam a tirar novamente petróleo e a Agoco, empresa líbia de petróleo, afectou metade da sua capacidade de produção de petróleo bruto para pagar dívidas.
Enquanto os seus experientes traders estavam a fazer negócios no leste da Líbia, Vitol, juntamente com a sua rival Trafigura, manteve a oferta de produção do produto refinado de modo fluido para o governo sitiado de Bashar al-Assad na Síria assim como para as suas tropas que atacaram os civis. As casas de negócio puderam fazer isto na Síria porque as sanções internacionais não proibiam o fornecimento de combustível ao país, mas elas não tiveram que resistir a muita concorrência para este tipo de negócio.
(Continua)
