AVENIDA DA POESIA – Manuel Simões, João Cabral de Melo Neto e Salvador Espriu


 

Manuel Simões

(Jamprestes, Ferreira do Zêzere, 1933)

TEORIA DA COMPOSIÇÃO

O artífice imerge
As mãos na matéria
Avulsa a transformar.

Sem artifício investe
o próprio corpo no acto
preciso de plasmar.

Do ofício extremo
Resta o resíduo: densa
e intensa arte de amar.

(Micromundos, Lisboa, 2005)

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João Cabral de Melo Neto
(Rio de Janeiro, 1920-1999)

CATAR FEIJÃO

1.

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

(A Educação pela pedra, 1965).

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Salvador Espriu
(Santa Colomba de Farners,1913 – Barcelona, 1985)

LES PARAULES

Hi ha tristesa darrera
les paraules, lents carros
en corrua que porten
runa de tu, molt tedi
de tarda de diumenge,
temor de dany. Se’t tanquen
llibres i amics, els llavis
de les coses. Malèvols
aprenents d’homes grisos
t’encalcen per difícils
retorns a Déu. Intentes
amagar-te ben dintre
del teu hivern, on puguis
amb tants records encendre
l’últim foc. Després mires
amb ulls ja buits i penses
a dormir. Però encara,
a les palpentes, vénen
ferida porcellana,
nocturna seda, i trenques,
des d’una aigua profunda,
veus d’oblidats, intacte
vidre vell de paraules.

 

Ilustrações de Adão Cruz

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