Dois Homens – Dulce Maria Cardoso

 

 

 

Dulce Maria Cardoso  Dois Homens

 

 

À Marlise Vaz Bridi

 

Chamou-me, aqui estou, disse o filho. O pai olhou para o filho como se o tivesse visto no dia anterior. Sem reparar nos sinais da ausência de mais de vinte e sete anos, os olhos mirrados que a custo se percebiam azuis, a pele velha, os den­tes rombos e amarelados.

 

Estavam sentados na varanda contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, muito laranja. As gaivotas gritavam à pro­cura de comida. O filho não sabia que se lembrava tão bem da fome das gaivotas.

 

Chamou-me, repetiu o filho.

 

O pai ficou calado uns segundos.

 

Amanhã, disse lentamente.

 

Os olhos azuis do pai fugiram dos olhos azuis do filho para o azul do céu que o fim da tarde envelhecia. O filho olhou para a ria e depois para o sapal. Já que nunca nada mudava, também eles deveriam ter continuado iguais. Mas não.

 

No dia seguinte o filho acordou tarde com o cheiro a comida e o barulho na co­zinha. De olhos fixos no tecto o filho ten­tou identificar as vozes das mulheres. Em vão. Eram-lhe totalmente desconhecidas.

 

Reconheceu o cheiro da carne no forno. Como antigamente, pensou. Antes de ter ido dali embora. Depois o cheiro a café e a caramelo. O pudim de café. Como nos domingos de festa. Antes do pai ter dito que preferia que ele não tivesse nascido.

 

Olhou para as paredes do quarto que tinham sido pintadas de cor diferente. Reparou na mobília que era nova. A cama era mais larga e o guarda-fatos tinha ago­ra um espelho que o reflectia no descon­forto de ali estar.

 

Já lavado e vestido, o filho sentou-se na cama. Se obedecesse à vontade ia-se embora imediatamente.

 

Na cozinha o barulho crescia mistura­do com passos que iam e vinham. Pu­nham a mesa na sala grande. A mesa comprida com a toalha de linho branco. E o padre numa das cabeceiras:

 

Ninguém se esconde dos olhos de deus. Muito menos um pecador. Um justo talvez. Um pecador nunca.

 

O pai bateu à porta do quarto do filho com os nós dos dedos. A comida está pronta, disse.

 

Sentaram-se nos lugares habituais, co­mo se da vez anterior, antes do grande silêncio, o pai não tivesse repetido ali os mesmos nomes que lá fora chamavam ao filho.

 

Estou velho, disse o pai. Não queria ir deste mundo sem comer mais uma vez contigo.

 

As mulheres foram pondo na mesa tra­vessas cheias de comida.

 

O pai serviu-se e mandou o filho ser­vir-se. A sala cheirava bem. A rosmani­nho. Pai e filho comeram. E tornaram a servir-se. E comeram mais ainda. Come­ram muito e com verdadeiro prazer. Sobre isso também não trocaram uma palavra.

 

Quando a refeição acabou levantaram-se da mesa. Caminharam devagar de tão cheios que estavam. Lado a lado.

 

Na varanda onde se sentaram outra vez contra o sol que era, àquela hora e naquele dia, amarelo-esbranquiçado, o pai disse

 

Agora já podemos terminar o que co­meçámos. Dois homens não se despedem sem terem comido uma boa refeição em paz.

 

E ali ficaram. O sol alaranjou-se outra vez e as gaivotas gritaram novamente por comida.

 

(in Dulce Maria Cardoso, Até Nós, ASA)

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