Cartas Vermelhas, de Ana Cristina Silva – por António Gomes Marques

 

 

Mais um livro de Ana Cristina Silva a reforçar o meu encantamento, desta vez partindo de uma personagem bem próxima de nós no tempo, Carolina Loff da Fonseca, numa edição da Oficina do Livro (Setembro de 2011).

 

Mas comecemos por relembrar parte do que escrevi sobre Ana Cristina Silva quando, para o blogue «estrolabio», falei do agora penúltimo livro da autora «Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’tamid», publicado em 2010:

 

«Depois de As Fogueiras da Inquisição, onde trata de três gerações de uma família judaica portuguesa na sociedade do nosso século XVI, desde o reinado de D. Manuel I até à dinastia filipina, onde as fontes insertas nas várias histórias da Inquisição e sobre os Judeus em Portugal, nomeadamente a Inquisição de Évora, de António Borges Coelho, são as balizas históricas para o mundo criado por Ana Cristina Silva, de que a autora é profundamente respeitadora; depois de A Dama Negra da Ilha dos Escravos, onde, contando a história da fidalga D. Simoa Godinha, a mulata oriunda de uma família rica de S. Tomé, a romancista fala não só da vida em S. Tomé, mas também da sociedade lisboeta do século XVI, vem agora Ana Cristina Silva falar-nos do Emir-Poeta al-Mu’tamid e da complexa sociedade peninsular do século XI, em que ele viveu, cujo título completo é Crónica do Rei-Poeta Al–Mu’tamid. (…)

 

Há, nestas obras, uma característica comum: a pobreza dos dados históricos para a construção das vidas que a autora nos dá a conhecer, particularmente nas duas últimas, o que dá à ficcionista uma grande liberdade de criação. Mas uma outra característica não pode deixar de se realçar: Ana Cristina Silva faz questão de respeitar a História. Tudo o que escrevemos na parte I deste texto poderia encontrar-se na obra da escritora com um pouco de imaginação, imaginação essa que está sempre presente em todos os historiadores.

 

Há ainda uma característica, em nossa opinião verdadeiramente fundamental nesta autora, que é a riqueza psicológica das personagens, de todas as personagens, principais ou secundárias, que cria nas suas ficções, não sendo naturalmente despiciendo a influência que nessa criação tem a profissão da autora, pois, para além de doutorada em Psicologia da Educação e de especializada na área da aprendizagem da leitura e da escrita, Ana Cristina é docente universitária das cadeiras de Psicologia da Comunicação e da Linguagem e de Seminário de Estágio no Instituo Superior de Psicologia Aplicada.

 

Dito isto, não se assuste o leitor; Ana Cristina Silva não procura a chamada linguagem erudita. Conhecedora das técnicas, sinto-a como senhora de uma profunda cultura humanista, tomando a expressão cultura humanista como significando o não reconhecimento de nenhum valor superior ao ser humano. Cria as suas personagens numa linguagem simples, acessível a todos os leitores, competência que só está ao alcance dos grandes escritores e Ana Cristina Silva, na minha modesta opinião, é uma grande escritora. (…)».

 

A transcrição do que então escrevemos é longa, mas poderia ser escrito o mesmo texto para o seu novo livro. Desta vez, no entanto, é minha convicção que Ana Cristina Silva teve ainda mais dificuldades em obter dados biográficos da personagem real que foi Carolina Loff da Fonseca, o que não será de estranhar sabendo-se que o Partido Comunista Português não se tem mostrado muito colaborante com quem queira consultar os seus arquivos, se é que sobre esta sua militante existem ali alguns dados, a exemplo do que com Trotsky fizeram os estalinistas, a começar pelo próprio Estaline, que até das fotografias o apagaram. Diz Ana Cristina Silva, numa «Nota da autora», com que finaliza este seu novo romance:

 

«Empenhei-me na pesquisa da sua biografia, mas, a partir de certa altura, com os obstáculos que me foram levantados, decidi aproveitar-me de um lema de Agustina Bessa-Luís, quando reforçava a ideia de que a imaginação dá muito mais trabalho. Uma reconstituição deste género, ainda por cima, com certas passagens escritas na primeira pessoa, só poderá ser fiel à ficção. (…) O romance inspirou-se numa história verdadeira, e a imaginação da autora fez tudo o resto.»

 

 

Feliz o país que tem uma autora com tal capacidade de imaginação, capaz de criar mais um romance com personagens de uma riqueza psicológica que não abunda na recente literatura portuguesa de ficção. Com este seu livro, mais uma vez nos leva a reflectir sobre uma época determinada da história portuguesa, a do fascismo salazarista, servindo-se de uma personagem que desafiou esse mundo obscurantista, não só pelas suas posições políticas, que se tornou militante do clandestino Partido Comunista, mas também pela forma como usou e impôs o seu corpo numa sociedade mesquinha em que a mulher era tida como um ser menor, dependente da masculinidade que então imperava, que nada tem a ver com a mulher livre que os tempos que hoje vivemos permitem, graças à luta de homens e mulheres que tem imposto esta nova forma de relacionamento, tornando-nos a todos seres mais livres, portanto mais completos, que nascem para serem felizes, é bom lembrar, e agora, com a ajuda dessa liberdade, com mais capacidade para construir essa felicidade.

Ana Cristina Silva, tanto neste seu novo livro como nos anteriores, não se mostra interessada em mostrar-nos a atmosfera social de determinada época; no entanto, o leitor pode facilmente apreender essa atmosfera através das ricas personagens criadas pela autora, não necessitando sequer de uma grande imaginação para o conseguir, sendo mesmo um estímulo para que o leitor se transforme também em autor.

 

Carolina Loff da Fonseca, a Carol de «Cartas Vermelhas», nasceu em Cabo Verde, numa família abastada e de uma mãe com uma concepção de vida ousada para a época, mais ousada ainda para a colónia portuguesa em que vivia, aderiu ao Partido Comunista quando estudante em Lisboa, mostrando sempre preocupações sociais com os mais desprotegidos, combatendo pela liberdade e contra o fascismo. Teve uma filha de um camarada, preso pela polícia política de Salazar, PVDE, antes do seu nascimento e que, tendo sido um dos prisioneiros do campo do Tarrafal, acabaria por emigrar para o Brasil. Carolina Loff da Fonseca, após uma primeira prisão, é levada para Moscovo pelo famoso militante do PCP Pável, onde trabalha como tradutora e se torna amante de um dirigente do Partido Comunista Soviético, onde começa a perceber que a realidade da vida dos soviéticos não se parece com a propaganda do poder, sendo depois enviada para a Guerra Civil de Espanha, disfarçada de jornalista belga, obrigada a deixar a filha em Moscovo, onde mostra, mais uma vez, a sua grande capacidade de militante comunista. Aqui, a par da sua actividade de militante, apaixona-se por um jornalista americano, membro das brigadas internacionais, de quem é separada pela vitória das tropas fascistas de Franco. Escapa ao fusilamento por mero acaso e regressa a Portugal a pé, na companhia de um camarada romeno, onde retoma a sua actividade de militante comunista, tendo sido companheira de luta do jovem Daniel, ou seja, Álvaro Cunhal, com quem trabalhou na clandestinidade. Presa de novo, acaba por se apaixonar por um agente da polícia política que a interrogou, levando este a abandonar a família para com ela viver, dando origem a que ele tivesse de deixar a polícia política e ela a ser expulsa do Partido Comunista, ou seja, mais uma vez a sua volúpia acaba por se impor com as consequências que acabamos de referir. Entretanto, as suas preocupações na defesa dos desprotegidos continuam bem presentes, o que a leva a tornar-se espia do seu companheiro de fuga de Espanha, frequentando os ambientes sofisticados do Estoril, centro privilegiado para colher as informações de que os soviéticos careciam, com desconhecimento, ao que parece, do PCP, mais uma vez fazendo-se passar por quem não era, não hesitando em partilhar o calor da cama com quem boas informações lhe pudesse passar e que carnalmente a atraísse, perfeitamente consciente de que a volúpia do seu corpo provocava o desejo nos que a rodeavam.

 

Entretanto, o desejo de reencontro com a filha nunca morreu, não hesitando em solicitar o auxílio do camarada romeno e do seu amante em Moscovo, acabando por conseguir encontrar-se com ela em Berlim, encontro que mostra a frieza de quem se sentiu abandonada e que a leva a confessar-se em cartas que escreve à filha, numa tentativa de procurar compreensão e mostrar que o seu amor de mãe nunca morreu. Para seduzir os homens, Carol tinha perfeita consciência de que lhe bastava exibir o corpo, a filha teria de ser conquistada de maneira bem diferente e as armas de que dispunha para o conseguir não eram suficientes.

 

A relação com o ex-polícia degradou-se e acabou por dele se separar, proporcinando o regresso deste à família. Carol acabou no mundo da moda, da alta-costura, graças aos seus dotes de bem vestir e aos bons conselhos que podia dar às muitas mulheres dependentes da generosidade dos seus maridos.

 

A volúpia de Carol vai diminuindo, embora nunca morrendo nela o desejo de prazer. Escreve para a filha no seu caderno: «Tornei-me, por outro lado, uma mulher mais simples nos meus desejos. Apenas quero embarcar com um homem em algumas horas de volúpia e regressar  inalterada às rotinas do dia-a-dia. Talvez a felicidade seja só isto, um jogo sem emoções profundas nem esperanças excessivas.»

 

Os seu feitos na militância política tornam-se conhecidos, o que a leva a amizades com os intelectuais de esquerda, gente que com ela «partilhava uma deferência especial», os quais nisso também encontravam justificação para se afirmarem de esquerda e anti-fascistas, incapazes de outro tipo de acção, intelectuais esses de que ainda hoje temos muitos exemplos.

 

Ana Cristina Silva não poderia terminar o seu romance de outro modo que não fosse colocar Carol a falar (escrever) à filha:

 

«Se descrevi tão claramente factos da minha existência é porque tenho em vista que te despeças da mágoa. Sei que ainda precisas da minha proximidade, mas és incapaz de te entregar ao amor. Resta saber se os teus olhos irão permanecer abertos o tempo suficiente para penetrar nos meus sentimentos. Ofereço-te torrentes de papel, emoções que deslizam em palavras. Por não conhecer outra maneira de reter a tua atenção, no futuro continuarei a escrever.»

 

E eu termino dizendo: Obrigado, Ana Cristina, por mais esta bela obra de arte!

 

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