Ele era longo e magro, como longo era seu nome: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
Nascido em Belém do Pará aos 19 de fevereiro de 1954, por 57 anos e a partir de seu genial futebol, Sócrates abriu novas perspectivas para a cultura esportiva brasileira, seguindo dessa maneira um empenho político que sempre procurou manter na sua existência concluída por cirrose hepática, num hospital de São Paulo e na primeira manhã do domingo, 5 de dezembro de 2011, o mesmo domingo que viu o seu Corínthias vencer pela quinta vez o título de Campeão brasileiro.
Personagem enigmática, ainda que de aparente fácil leitura, Sócrates era radical em todos os seus atos, até mesmo na incompreensível, porque jamais dominante, adesão excessiva ao álcool e ao fumo. Era radical na perfeição de seu gesto futebolístico: jogador de postura clássica, composta, cada sua jogada era uma proposta artística. Mais que correr, movimentava-se pelas muitas dimensões do campo de jogo, imprimindo sempre às suas jogada o fulgor do gênio esportivo. Porém, o fazia não enquanto manifestação narcisística, mas sempre integrando sua consciência do ritmo criador das jogadas às necessidades de seu time e às personalidades de seus companheiros de esquadra. Radical era igualmente na vida civil, pois pretendia sempre a presença da equidade na vida social. Procurou corporificar esse ideal na participação mais empenhativa, como aquela que, ainda jovem, o viu integrado na sua segunda cidade natal, Ribeirão Preto, pela campanha política a favor do voto direto e pelo retorno do Brasil à vida democrática. Mais tarde procura na fileiras do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula, o espaço conveniente aos seus sonhos políticos.
Desde logo, apenas acabado o curso de medicina, se dedica a partir dos 24 anos ao futebol. Deixa então o Botafogo, de Ribeirão Preto, e se transfere para o Corínthians, onde vive grandes experiências e alcança grandes resultados, não somente no espaço limitado do campo, no grande espaço de tempo de1978 a1984. Além dos vários títulos então conquistado (campeão paulista de 1979, 1982, 1983), com a sua inteligência e particular cultura, Sócrates enquanto capitão do time consegue introduzir no alvi-negro corintiano revolucionárias inovações, sintetisadas na fórmula “Democracia Corintiana”: conquista de auto-gestão por parte dos jogadores que, juntamente com a comissão técnica e com a diretoria do clube, decidiam com o voto democrático por todas as decisões que interessassem ao time e à sociedade esportiva: contratações, dispensas, concentrações, premiações etc, etc. Para Sócrates ver que o simples roupeiro tinha o mesmo direito decisional do presidente do clube, isso o inebriava serenamente de alegria. A sua utopia o levava a considerar que
“Uma coisa ocorre no esporte, particolarmente no futebol: é que o artista tem mais peso político do que seu empregador. Se ele tem peso político e econômico não tem reação que o derrube. Não importa a reação que venha das esferas superiores, porque elas não são superiores. Ele tem a base popular. Que dirigente vai ter mais peso que o artista?“
Além de várias vezes campeão de São Paulo, Sócrates também conquistou um título carioca, pelo Flamengo, no campeonato do Rio de Janeiro de 1986. Porém, ele não conseguiu nenhum título pela Seleção brasileira, ele o capitão da esquadra de 1982, eliminada pela Itália, e vice-capitão daquela de 1986, eliminada pela França. Na surpreendente, até mesmo para os vencedores italianos, campanha de 1982, praticamente e muito sutilmente principia a fase obscura do espírito do grande craque brasileiro. O resultado absurdo da partida Itália-Brasil, da Espanha, tem um momento crucial para o espírito futuro de Sócrates: a partida se aproxima radicalmente de seu fim com o inesperado resultado de 3 a2 para a Itália. Falta menos de um minuto para o apito final. O Brasil começara a partida certo da certeza que se qualificava com um simples empate. O capitão Sócrates apenas lança o seu olhar de liderança e toda a esquadra se movimenta com a perfeição de todos os gestos e ritmos na direção do campo adversário. Na sua intermediária, Toninho Cereso recolhe a pelota e a endereça mais adiante à sabedoria de Paulo Roberto; o qual caminha com absoluta certeza ritmica e de tempo, ultrapassando o meio-campo e vendo como os companheiros se movem à direita e à esquerda, todos em conversão para a meta de Zoff. Enquanto Paulo Roberto lança em profundidade para a sua lateral esquerda a bola que devora os segundos, Sócrates, em passos metrificados procura a posição já sabida na lateral direita, mas em conversão simétrica para o gol adversário. Todo o time verde-ouro se compõe como uma certeza, e da lateral esquerda parte um grande cross que viaja superando a defesa italiana, na direção quase aguda do ângulo esquerdo de Zoff. A bola voa, voa num atordoante silêncio de segundos. E chega ao ponto procurado. Ali já se encontra Sócrates que salta e golpeia com a certeza de que é capaz um homem consciente de suas forças a bola contra aquele absurdamente fechado espaço de 7 metros. Salta Sócrates, como uma potente borboleta. A bola viaja para o ângulo do gol. Ainda volante, Sócrates vê as mãos de Zoff que completa um milagre absurdo.


