AVENIDA DA POESIA – Ethel Feldman, Saúl Dias e Vinicius de Moraes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Saúl Dias

 

(Vila do Conde, 1902-1983)

 

 

SANGUE



Versos

escrevem-se

depois de ter sofrido.

 

O coração

dita-os apressadamente.

E a mão tremente

quer fixar no papel os sons dispersos…

 

É só com sangue que se escrevem versos.

 

 

Ethel Feldman

(São Paulo, 1954)

 

POESIA

 

Brilharam teus olhos

 

Alcançou tua voz a natureza

Fazendo de ti amigo

do peixe que te vence

Pode a loucura matar-te

Tua lonjura será alívio

dos homens bem comportados

que surdos, perderam há anos

o som que os rodeia

Entre o velho e o mar

Nasces tu desencontrado

na cidade que não te acolhe

e gritas sem educação:

Sinto-me bem na natureza

Que ela não fala!

 

Grito contigo em surdina

o que não se explica

ancas generosas

desejo que se transcende

 

silenciosa é a poesia

amor que se sente

um olhar fugaz

fazendo do tempo

nosso presente.

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Vinicius de Moraes


(Rio de Janeiro, 1913-1980)

 

 O POETA APRENDIZ

 

Ele era um menino

Valente e caprino

Um pequeno infante

Sadio e grimpante

Anos tinha dez

E asas nos pés

Com chumbo e bodoque

Era plic e ploc

O olhar verde gaio

Parecia um raio

Para tangerina

Pião ou menina

Seu corpo moreno

Vivia correndo

Pulava no escuro

Não importa que muro

Saltava de anjo

Melhor que marmanjo

E dava o mergulho

Sem fazer barulho

Em bola de meia

Jogando de meia-direita ou de ponta

Passava da conta

De tanto driblar

Amava era amar

Amava Leonor

Menina de cor

Amava as criadas

Varrendo as escadas

Amava as gurias

Da rua, vadias

Amava suas primas

Com beijos e rimas

Amava suas tias

De peles macias

Amava as artistas

Das cine-revistas

Amava a mulher

A mais não poder

Por isso fazia

Seu grão de poesia

E achava bonita

A palavra escrita

Por isso sofria

De melancolia

Sonhando o poeta

Que quem sabe um dia

Poderia ser

 

 

 

 

 

Ilustrações de Adão Cruz 

 

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