Serge Halimi, em Le Monde Diplomatique deste mês, escreveu um editorial, Juntas civis (Juntes civiles), em que compara os recém-formados governos da Grécia e da Itália às juntas militares que, volta e meia, tomam o poder em diferentes partes do mundo, habitualmente para derrubar governos de esquerda e restituir o monopólio das riquezas aos seus detentores tradicionais.
Diz ainda, de forma não muito rigorosa, historicamente falando: “O projecto europeu, deveria assegurar a prosperidade, consolidar a democracia nos Estados outrora governados por juntas militares (Grécia, Espanha, Portugal) e neutralizar os nacionalismos causadores de guerras. Mas o que se vê é o contrário: uma purga reforçada, governos transformados em fantoches dos mercados, despertar das animosidades entre povos do Velho Continente. Termina assinalando que depois de terem esmagado a Grécia e espezinhado a Itália, a União Europeia e o FMI olham agora para a Hungria e a Espanha.
A referência a Portugal é reduzida. Talvez Serge Halimi considere que, por cá, o problema ficou resolvido logo quando Passos Coelho subiu ao poder. Mas o ponto principal para que o editorialista do Le Monde Diplomatique nos chama a atenção é o da imposição do princípio da soberania limitada aos países em que a troika intervém. Tal e qual como Leonid Brezhnev impôs à Checoslováquia em 1968. Os métodos são certamente diferentes, veremos como será com os resultados.
As perspectivas efectivamente são pouco animadoras. O Jornal de Negócios informou ontem que as dívidas do Estado a noventa dias, no fim de Setembro, excediam os cinco mil milhões de euros, tendo aumentado mil milhões desde Junho. O facto é justificado por erros de cálculo e dificuldades no controlo da despesa. Pergunta-se: andam a brincar connosco? O BCP, entretanto, vai pôr no mercado um empréstimo de 1350 milhões, avalizado pelo Estado. Se a coisa corre mal, como será? Pagamos nós? Santos Ferreira, director do banco, diz que os títulos vão ficar no banco. De onde virá o dinheiro? Passos Coelho diz que há um excedente de dois mil milhões para injectar na economia. Onde o foi buscar? Aos salários e pensões, é o mais provável. E onde o vai meter? Esperemos que não vá direito para as off-shores.

