2021: A Nova Europa – por Niall Ferguson

(Conclusão)

 

Alguns momentos acidentados da recente história da EU.

 

Por todas estas razões, eu nunca pensei seriamente que a Zona Euro ruisse. Para mim, era muito mais provável que a moeda única sobrevivesse – mas que a União Europeia se desintegraria. Afinal, não havia mecanismos legais para que um país como a Grécia abandonasse a moeda única. No entanto, nos termos do artigo 50 do Tratado de Lisboa, um Estado-membro poderia abandonar a União Europeia. E foi precisamente o que os Britânicos fizeram.

 

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A Grã-Bretanha teve sorte. Por acaso, devido ao conflito pessoal entre Tony Blair e Gordon Brown, o Reino Unido não aderiu à Zona Euro após o Partido Trabalhista ter chegado ao poder em 1997. Deste mdo, o Reino Unido foi poupado ao que poderia ser uma calamidade económica quando sobreveio a crise financeira.

 

Com uma situação fiscal pouco melhor que muitos dos países mediterrânicos e com um sistema bancário muito maior que qualquer outra economia Europeia, a Grã –Bretanha com o Euro seria a Irlanda elevada à enésima potência. Em vez disso, o Banco de Inglaterra pôde prosseguir uma agressiva política expansionista. Taxas de juro nulas, “quantitative easing” (injecção de moeda em grande quantidade na economia), e a desvalorização mitigaram em grande parte o sofrimento e permitiram ao “Chanceler de Ferro”, George Osborne, ser bem sucedido no mercado das obrigações devido a medidas preventivas de austeridade. Seria difícil vislumbrar uma melhor propaganda dos benefícios da autonomia nacional.

 

No início do primeiro mandato de David Cameron em 2010, tinha havido receio de que o Reino Unido se poderia desintegrar. Mas a crise internacional descartou a possibilidade de independência dos Escoceses; os países pequenos tinham caído no abismo. E, em 2013, num volte-face histórico que apenas uns poucos empedernidos Unionistas do Ulster teriam sonhado como possível, os eleitores da República da Irlanda optaram por trocar a austeridade dos E.U.E. pela prosperidade do Reino Unido. Irlandeses pós sectários celebraram a sua nova cidadania como membros do Reino Reunido da Grã-Bretanha e da Irlanda com o slogan: “É Melhor os Britânicos que Bruxelas”.

 

Outra coisa que ninguém anteciparia em 2011 foram os acontecimentos na Escandinávia. Inspirados pelos “Verdadeiros Finlandeses” em Helsínquia, os Suecos e os Dinamarqueses – que nunca tinham aderido ao Euro – recusaram-se a aceitar a proposta da Alemanha de uma “união de transferências” para resgatar os países da Europa do Sul. Quando os Noruegueses ricos em energia sugeriram uma Liga Norse de cinco países, incluindo também a Islândia, a proposta fez soar uma corda.

 

As novas disposições não são confessamente particularmente populares na Alemanha. Mas, contrariamente a outros países, da Holanda à Hungria, qualquer tipo de populismo político continua a ser interdito na Alemanha. A tentativa de lançar um partido de “Verdadeiros Alemães” (Die wahrenDeutschen) desfez-se nas habituais acusações de neo-nazismo.

 

A derrota da coligação do governo de Angela Merkel em 2013 não foi surpresa após a crise dos bancos alemães no ano anterior. Os contribuintes levantaram-se contra a decisão de Angela Merkel de resgatar o DeutscheBank, apesar de os empréstimos do DeutscheBank ao desafortunado Fundo Europeu de Estabilização Financeira terem sido ordenados pelo seu governo. O povo germânico estava simplesmente farto de resgatar os banqueiros. Venceu o “Ucupem Frankfurt”.

 

Ainda assim os Social-Democratas prosseguiram essencialmente as mesmas políticas como antes, apenas com maior convicção pró-europeia. Foi o SPD que forçou a revisão do Tratado Europeu que criou o European Finance Funding Office (carinhosamente referido na imprensa Britânica como “EffOff””), na verdade um Departamento do Tesouro Europeu a ser sedeado em Viena.

 

Foi o SPD que aceitou com muito agrado a saída dos irritantes Britânicos e Escandinavos, persuadindo os 21 países restantes a juntarem-se à Alemanha numa nova federação dos Estados Unidos da Europa nos termos do Tratado de Potsdam em 2014. Com a adesão dos seis restantes membros da ex-Jugoslávia – Bósnia, Croácia, Kosovo, Macedónia, Montenegro e Sérvia – o total de membros dos E.U.E. subiu para 28, mais um do que na União Europeia de antes da crise. Com a separação da Flandres e da Valónia o total subiu para 29.

 

De forma crucial, também, foi o SPD que branqueou as acções de Mario Draghi, o banqueiro italiano que se tornou presidente do Banco Central Europeu no início de Novembro de 2011. Mario Draghi ultrapassou largamente os seus poderes na compra maciça indirecta de obrigações italianas e espanholas que tão dramaticamente levou ao fim da linha a crise do mercado das obrigações, poucas semanas após ter tomado posse. Com efeito, ele transformou o BCE num credor de último recurso dos governos.

 

Mas a insignia do “quantitative easing” de Mario Draghi tinha o mérito de funcionar. Expandindo o balanço do BCE criou um sustentáculo dos preços dos activos e restaurou a confiança no sistema financeiro europeu, muito à semelhança dos EUA em 2009. Como afirmou Mario Draghi numa entrevista em Dezembro de 2011, “O euro só poderia ser salvo com a impressão de notas”.

Assim, a União Monetária Europeia não desabou, apesar das previsões catastrofistas dos observadores no final de 2011. Pelo contrário, em 2021, o Euro está a ser usado por mais países do que antes da crise.

 

Iniciando-se as conversações de adesão da Ucrânia, os responsáveis alemães falam com excitação do futuro Tratado de Yalta, repartindo novamente a Europa de Leste mas de forma diferente entre as esferas de influência da Rússia e da Europa. Uma fonte de informação próxima do Chanceler Gotha-Dämmerungironizava na semana passada: “Não nos importamos que os russos tenham os oleodutos, desde que mantenhamos as praias do Mar Negro”.

 

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Pensando bem, talvez tenha sido bom que o Euro tenha sido salvo. Uma completa desagregação da Zona Euro, com todo o caos monetário que isso implicaria, poderia ter tido algumas inesperadas consequências gravosas. Era fácil esquecer, no meio das maquinações febris que fizeram expelir Papandreou e Berlusconi, que acontecimentos muito mais dramáticos estavam a surgir no outro lado do Mediterrânio.

 

Nessa altura, em 2011, ainda havia quem acreditasse que a África do Norte e o Médio Oriente estavam a entrar numa era luminosa da democracia. Mas, visto de 2021, tal optimismo parece quase incompreensível.

Os acontecimentos de 2012 abalaram não apenas a Europa, mas também todo o mundo. O ataque de Israel às instalações nucleares no Irão, acendeu o rastilho do barril de pólvora da “Primavera Árabe”. O Irão contra-atacou através dos seus aliados em Gaza e no Líbano.

 

Não tendo conseguido vetar a acção israelita, os EUA deixaram-se uma vez mais ficar sentados na fila de trás, dando um apoio mínimo e tentando em vão manter aberto o estreito de Ormuz sem disparar um tiro hostil. (Quando toda a tripulação de um barco de guerra americano foi capturada e mantida refém pelos Guardas Revolucionários do Irão, a frágil hipótese de reeleição do Presidente Obama evaporou-se).

 

A Turquia aproveitou a ocasião para se por ao lado do Irão e, ao mesmo tempo, repudiar a separação entre o Estado Turco e o Islão,que Ataturk tinha realizado. Embalada pela vitória eleitoral, a Irmandade Muçulmana tomou as rédeas do poder no Egipto, repudiando o tratado de paz com Israel. O Rei da Jordânia poucas opções tinha senão segui-lhe o exemplo. Os sauditas fervilhavam, mas não queriam passar por estar a apoiar Israel, embora intimamente desejassem evitar um Irão com armas nucleares.

 

Israel estava totalmente isolado. Os EUA estavam virados para outro lado, com o Presidente MittRomney centrado na sua “restruturação” do orçamento governamental ao estilo da sociedade de investimento Bain Capital.

 

Foi no último minuto que os Estados Unidos da Europa intervieram para evitar o cenário que os alemães mais temiam: o recurso desesperado de Israel às armas nucleares. Falando da nova lindíssima sede dos E.U.E na Ringstrasse, o Presidente da Europa Karl von Habsburg explicou na televisão Al Jazeera: “Primeiro, estávamos preocupados com o efeito de outra subida do preço do petróleo no nosso querido Euro. Mas, acima de tudo tínhamos receio que matérias radioactivas caíssem sobre os nossos resorts de férias favoritos”.

 

Olhando retroactivamente para os últimos 10 anos, o senhor vonHabsburg – ainda conhecido pela sua associação ao título de Arquduque Karl da Áustria – podia sentir-se justamente orgulhoso. Não era apenas o Euro que tinha sobrevivido. De alguma forma, precisamente um século após ter sido deposto o seu avô, o Império dos Habsburgos tinha sido reconstituído como os Estados Unidos da Europa.

 

Sem surpresa, os Britânicos e os Escandinavos preferiram apodá-lo de Império Germânico Total.

 

*Niall Ferguson é professor de história na Universidade de Harvard e é autor de “Civilization: The West and the Rest,” publicado este mês pela Penguin Press.

 

 

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