Sobre o artigo The New Europe de Niall Ferguson: uma análise crítica – 2. Por Júlio Marques Mota.

 

(Continuação das 15 horas) 

 

2. A crítica a Draghi. Diz-nos Ferguson:


“Mas a marca de  Draghi  com a quantitative easing, a flexibilização monetária,  teve o grande mérito de funcionar. A expansão dos valores registados nas contas do BCE BCE colocam um valor mínimo no valor dos activos  e restaura  a confiança em todo o sistema financeiro  europeu, tal como  aconteceun  nos Estados Unidos em  2009. Como o afirmou o próprio  Draghi   numa  sua entrevista em Dezembro de 2011, “O euro só poderia ser salvo, imprimindo-o..”

 

O cinismo de Ferguson  é aqui enorme. Não é a quantitative easing que fazem os Estados Unidos não em 2009 mas agora? Claro que é. Não reclamam as autoridades americanas um mixing com reforço das políticas orçamentais e em conjunto com a política monetária que Ferguson critica frontalmente? Reclamam e pela mão, vejam  lá, de Bernankee, porque não há outra saída para a crise, mas este mix tem sido impossível porque os Estados Unidos estão prisioneiros de uma série de rufias, os Tea Party que apenas querem defender os 1 por cento da população, os mais ricos, contra os 99%, ou seja Wall Street contra a Main Street. Um gráfico recente  ilustra a situação do emprego nos Estados Unidos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Em Novembro, a taxa de desemprego diminuiu de 0,4 pontos 

percentuais para 8,6 por cento. 

De  Abril a Outubro, esta  taxa  manteve-se numa estreita faixa

 de 9,0 a 9,2 por cento. 

O número de pessoas desempregadas era de 13,3 milhões, 

foi reduzido em  594.000 em Novembro. 

A força de trabalho, que é a soma dos desempregados e 

empregados, desceu um pouco mais de  metade

 desse valor.


Em Novembro, o número de perdedores de emprego e das

  pessoas que completaram os seus empregos 

temporários diminuiu em 432 mil para 7,6 milhões. 

O número de desempregados de longa duração 

(os desempregados com 27 semanas ou mais) foi pouco alterado,  

está em  5,7 milhões e representam  cerca de  

43,0 por cento dos desempregados.”

Fonte: Household Survey Data

 

Compreende-se aqui claramente a ansiedade  das autoridades americanas face à necessidade de um mix em política  monetária e orçamental o que se deve também à enorme pressão que se levanta com o desemprego   de longo prazo, mas nada isto preocupa Ferguson.  

 

 

Mas voltemos a este autor. Ainda ao criticar Draghi Ferguson e quanto à  irracionalidade dos mercados Ferguson passa ao lado de uma situação bem curiosa que deveria exigir uma tomada de posição sua: a Inglaterra em bem pior situação que alguns países da zona euro financia-se em melhores condições. Porquê? Será porque objectivamente é o maior paraíso fiscal do mundo, mesmo que não pertença à lista da OCDE?

 

 

Ora, Silvio Berlusconi cai ou é forçado a cair quando as taxas de juro correm o risco, a manterem-se, de colocarem a Itália em situação de impossibilidade de cumprir as suas obrigações. Ninguém de bom senso pode admitir que a Itália, ou qualquer outro país pague 6, 5% por títulos a 6 meses quanto dois meses antes pagava 3,53. Segundo alguns bancos a dívida italiana já se troca no mercado secundário, mercado paralelo (?), a 7,48%. Mais ainda, uma situação imposta assim pelos mercados financeiros a este nível levaria a uma situação de contágio de efeitos imprevisíveis. Se o BCE fizesse como faz o Banco de Inglaterra, como faz o FED, como faz o banco do Japão, a situação não teria este contorno. Recusar esta via é exactamente querer o cenário por ele descrito. Mas Ferguson fala da China para a Inglaterra em 2021. Podia falar já aqui e agora de Itália. Veja-se por exemplo a posição de China Investment Corporation, (CIC) um fundo soberano dirigido por Lou Jiwei, economista de sólida formação, que entende como prioridade não a compra de títulos de dívida soberana que não terá comprado à Itália, como esta pretendia, mas sim a aplicação em investimentos não financeiros. Os 8 milhares de milhões quase que perdidos com Blackstone e com Morgan Stanley nos Estados Unidos deixam marcas. Mas ainda em Itália, ainda muito recentemente os grande media assinalavam: “L’intelligentsia chinoise a choisi la ville de Prato en toscane comme tête de pont pour occuper le reste de l’Europe” (Express.be) ou ainda a insuspeita Bloomberg numa crónica assinada por Nina Burleigh, entitula o seu artigo: “Italian Jobs, Chinese Illegals: An influx of Chinese immigrants is transforming Italy’s economy and sparking a cultural backlash. Is this Europe’s future?”

 

 

Face a tudo isto que vemos por exemplo pela parte de Pascal Lamy, Director-Geral da OMC, relativamente à concorrência feita no espaço europeu, por um concorrente de peso que não funciona com as mesmas regras, a China:

 

 

«Competitividade salarial indevida? Não é nada evidente, mesmo se a China emprega pelo mesmo custo oito trabalhadores quando a Europa só emprega um trabalhador. Mas os salários chineses progridem à cadência de 15%  a  20% por ano, o que muda consideravelmente os dados ». Sem comentários, mas isto é a globalização ao nível da produção e é por aqui que passa a desindustrialização, o encerramento das nossas fábricas, a ausência de empregos para os nossos jovens!

 

3. Fala-nos Ferguson do Império Austro-Húngaro com sede em Viena de Austria mas sem que nada ele nos explique porque é que a Alemanha, que se ira ver em dificuldades com a China em breve, como o temem os grandes industriais alemães, iria trocar uma periferia, a do Sul, contra uma periferia do Norte que o neoliberalismo estragou e que colocou em bem pior situação que os ditos periféricos do Sul, bons apanhadores de azeitona. A saída da crise para a Alemanha passará necessáriamente por esta Europa que Ferguson vê saltar em estilhaços reconfigurando um império sem sentido nem do pçonto de vista da expansão. Expansão a existir, mesmo somente vista pelo aldo alemão,  deverá ser a do aprofundamento do mercado, a da velha Europa, afinal. 

 

 

É por situações destas que passa a crise europeia que ultrapassam de longe, portanto, o quadro do Tratado que a constituiu, é por situações destas que há um longo caminho a percorrer para a solução da crise, é por situações destas e muitas mais aqui não expressas, que considero  o artigo de Neill Ferguson como uma perfeita inutilidade e por isso digo que não o entendi.

 

 

Alternativamente sugiro que se leia “Four scenários for the reinvention of Europe”, de Mark Leonard, do European Council on Foreign Relations, ou ainda os diversos artigos publicados por Jacques Delplas, ou os diversos artigos publicados por Martin Wolf,  Munchau ou por  Domenico Mario Nuti . E por aqui, por este conjunto de bons autores,  a história é bem outra.

 

 

E a terminar lembremos Davos, lembremos as palavras de Klaus Schwab, fundador do Forum de Davos: “Nós temos necessidade de impulsões que levem a sociedade a reflectir e a agir para proceder às correcções necessárias”.

 

E é tudo.

 

 

Júlio Marques  Mota

 

 

Coimbra, 5 de Dezembro de 2011.

 

 

(Conclusão às 22 horas, com o original de Niall Ferguson)

 

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