Conheci o Dorindo em 1971. Eu dera um salto no escuro. Da Fundação Calouste Gulbenkian mudara para uma empresa que embora tivesse bases promissoras, pois estava ligada a um poderoso grupo internacional, funcionava provisoriamente nas instalações de uma editora portuguesa onde Dorindo Carvalho dirigia o sector gráfico. Depressa se criou um grupo de amigos, onde além de nós, havia pessoas como a Ana Jota, o Chico da Cuf, o José Júlio de Carvalho, o Josué da Silva e outros.
Era um grupo que ia mudando de composição ao sabor de demissões e admissões em que a tal editora era fértil – João da Palma Ferreira, o Rogério de Freitas, o nosso António Sales, o Carlos Araújo… Às vezes, tínhamos a presença de “notáveis”, como o Fernando Namora. Foi um excelente convívio: Com o Dorindo, gerou-se uma amizade mais forte – morando ambos na linha de Cascais, alternávamos o uso dos respectivos automóveis na ida e vinda para o trabalho.
No princípio de 1973, a empresa a que eu me ligara abriu sede em Lisboa e o Dorindo, após o 25 de Abril, dirigiu o sector gráfico da Assírio & Alvim e foi um dos fundadores da Diabril Editora, saindo da casa editorial onde nos conhecemos. É preciso dizer que, neste convívio, eu me apercebera de que Dorindo era um excelente artista gráfico, mas a sua carreira como pintor me era praticamente desconhecida. Resultado da contenção e modéstia do Dorindo que nunca trazia para as conversas a sua arte. E depois, deixei de o ver – Soube que estava na Venezuela.
Passemos em sumária revista alguns dados da sua biografia. Nasceu em Lisboa (tal como eu), no ano de 1937 (é um “rapaz da minha idade” – veio ao mundo exactamente uma semana antes de mim). Fez o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio – onde nos devemos ter cruzado, pois pela mesma época, frequentei a António Arroio com o estatuto de trabalhador-estudante que me permitia assistir às aulas práticas.
Mobilizado para Angola, desenhou e pintou, participando em exposições; criou cenários e figurinos para o Teatro Experimental de Luanda. No regresso além de se ligar à Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, dedicou-se quase exclusivamente à pintura, obtendo uma Bolsa de Estudo da Fundação Calouste Gulbenkian. Mantendo uma intensa actividade como pintor e artista gráfico, viajou pela Europa visitando Museus e exposições. E ganhando numerosos e prestigiosos prémios.
Na Venezuela, prosseguindo a sua actividade profissional como gráfico, trabalhando inclusivamente em publicidade, leccionou desenho gráfico nos dois mais importantes Institutos de Caracas, colaborou como ilustrador em jornais e revistas. Fez parte da Comissão Organizadora das Comemorações a Fernando Pessoa e foi membro fundador e directivo do Instituto Português de Cultura da capital venezuelana. No regresso a Portugal, além de manter a actividade de pintor e designer gráfico, escreve e ilustra livros para crianças.
Tem participado em numerosas exposições individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro. Na próxima quinta-feira, dia 15 de Dezembro, é inaugurada uma exposição sua no Museu da Água | Mãe d’Água das Amoreiras – Os Meus Mestres, é a designação genérica.
Dorindo presta homenagem àqueles com que aprendeu – Da Vinci, Miguel Ângelo, Rubens, Klee, Picasso… Todos os colaboradores e leitores de “A Viagem dos Argonautas” são convidados a visitar a exposição.
Dorindo Carvalho é um novo argonauta que, após a sua exposição – que lhe está a mobilizar todos os momentos – iniciará aqui a publicação de uma série que, muito provavelmente, se chamará «Os Meus Mestres». Bem-vindo, Dorindo Carvalho.
Falei do meu amigo Dorindo que em breve começará a colaborar no nosso blogue. Amanhã e depois publicaremos artigos especializados que falarão do pintor Dorindo Carvalho.


