Deslocalização das empresas e vulnerabilidade dos territórios: antecipar os choques da mundialização – III. Por E. M. Mouhoud. Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota.

 

(Continuação) 

 

2.3. Uma tipologia das deslocalizações com base em fracos custos salariais

 

As deslocalizações com base em mão-de-obra barata assumem essencialmente a forma de subcontratação internacional ou de importações directas e dirigem-se para os países com baixos salários que oferecem uma proximidade geográfica e organizacional dos mercados. Para as firmas, trata-se de conciliar os imperativos de resposta rápida às flutuações da procura com a minimização dos custos salariais. Esta lógica tayloriana de deslocalizações para a periferia tornou-se mais selectiva que nos anos 1960-1970 e estende-se agora também aos serviços, graças às possibilidades oferecidas pelas TIC de se separar geograficamente a produção de certas actividades de serviços às famílias ou às empresas do seu próprio “consumo”, à distância. Mas, tanto nos serviços como na indústria, são sobretudo referidos os sectores com fracas barreiras à entrada e intensivos em trabalho, nos quais a competitividade pelos preços é o modo de concorrência dominante. Em contrapartida, nos sectores em que não se encontram obstáculos técnicos de robotização da montagem, certas firmas questionam os seus projectos de deslocalização ou de relocalização nos mercados de origem por razões de imperfeição ou dos produto ou dos serviços finais deslocalizados e/ou de inversão das diferenças de custos unitários pela automatização da produção.

 

Além disso, todos os sectores são marcados por imperativos de reactividade à incerteza da procura ligada à versatilidade dos consumidores e às exigências dos distribuidores. Certas empresas — taylorianas flexíveis — tentam então tornar compatível a deslocalização total das actividades com a reactividade aos mercados, apostando em infra-estruturas logísticas e nas TIC. Outras empresas, tendo adoptado uma lógica de divisão cognitiva do trabalho, preferem consolidar as suas capacidades de inovação conservando as suas actividades nas grandes aglomerações dos países desenvolvidos.

 

Em todos os sectores, encontra-se uma heterogeneidade de práticas em matéria de deslocalização: sendo verdade que existem muitas deslocalizações defensivas fundamentadas por imperativos de sobrevivência ligada à concorrência dos países de baixos salários, as deslocalizações induzidas pelas relações de força entre distribuidores e fabricantes e as deslocalizações de pura margem de lucros são facilitadas pelas políticas de marcas e de deslocalizações “escondidas” (Quadro 2.). Estes diferentes tipos de deslocalizações não têm os mesmos efeitos sobre o emprego e sobre a produção dos países desenvolvidos.

 

Quadro 2. Uma tipologia das estratégias de deslocalização

 

Tipos de deslocalizações

Determinantes e impacto

Caso de sectores e empresas

Defensivas

Exacerbação da concorrência internacional

Recuperação da competitividade via preços mantendo as actividades de concepção e de R&D no país de origem

Grupo Lafuma: um terço da produção permaneceu em França e o resto tem sido deslocalizado desde 1986 para a Tunísia, Marrocos e mais recentemente para a China

Induzidas, forçadas ou de acompanhamento

Uma deslocalização em cascata dos fornecedores para seguirem os seus clientes

O têxtil seguiu o vestuário; os produtores de componentes seguiram os construtores: Valeo seguiu a Seat-Wolkswagen

Comportamento de margem

Certos fabricantes e certos grandes distribuidores deslocalizam mas não repercutem a baixa dos custos de produção nos países de baixos salários sobre o preço do produto final

Deslocalizações escondidas pela venda sob a marca do grupo

(vestuário, calçado, jogos…)

De eficiência e de rentabilidade (ofensiva)

Reforçar as vantagens competitivas no país de origem por uma deslocalização de segmentos com desvantagens comparadas. Lógica de gestão de porto fólio dos sítios das multinacionais: dinâmicas dos mercados, supressão das redundâncias, substituição das exportações pela produção de proximidade, lógica de accionista quanto a rendimentos…

Indústria alemã do vestuário: deslocalização para os países de Leste desde os anos 50.

Caso de deslocalização da fábrica Vilvoorde do grupo Renault

De racionalização e de recentragem sobre a produção de base

Delimitação das fronteiras e recentragem nas competências de base numa lógica de dinâmica de inovação e de aprendizagem

Fabricação de aspiradores sem sacos Dysone (Inglaterra). Nike, Adidas, Rossignol, Salomon…

Derivadas ou itenerantes

Subida dos custos salariais nos primeiros sítios de deslocalizações (re)deslocalizados para os países vizinhos de segunda geração ou relocalizados nos países de origem se a automação o compensar

Microsoft, os sapatos Salamander, os auto-rádios Kenwood, os gravadores/leitores de vídeos Philips na Hungria para a Roménia, por ex.

 

 

 

Deslocalizações somente por efeitos de margem e bloqueio na compensação das destruições locais de empregos.

 

As consequências das deslocalizações não devem ser minimizadas como, por vezes, se faz quando se insiste nos efeitos de compensação a nível macroeconómico. Numa economia eficaz, existem, com efeito, mecanismos de compensação. Simplificando, as deslocalizações permitem ganhar em competitividade; ganhando em competitividade, as empresas são mais fortes e, sendo mais fortes, criam mercados e empregos, o que faz com que os empregos perdidos localmente apareçam recriados a nível global (Esquema 2a.). Na realidade, estes mecanismos de compensação não se realizam devido à existência de comportamentos de margem. Com efeito, no caso das deslocalizações por efeito de “comportamento de margem”, as deslocalizações permitem às empresas ou aos distribuidores melhorar as suas margens sobre os produtos de gama média ou alta, da qual uma parte da produção ou da montagem é deslocalizada, mas a baixa dos custos de produção no país de baixos salários não é reflectida no preço do produto final reimportado para o país de origem. Uns jeans fabricados num país de baixos salários são vendidos em França como se tivessem sido fabricados neste país (comportamento de margem). Esta não repercussão na descida do preço constitui um factor de bloqueio da compensação a nível macroeconómico, porque as repercussões que se deveriam teoricamente efectuar não se realizam (Esquema 2b.). Com efeito, a reimportação dos produtos finais procedentes das deslocalizações a preços mais fracos deveria contribuir para alterar a estrutura da procura no país de origem. É um efeito que, no caso da figura, não se produz. Por conseguinte, a destruição de empregos a curto prazo não é compensada pela criação de empregos a longo prazo; o efeito negativo das deslocalizações sobre a actividade a nível local não é compensado por um efeito nítido positivo a nível global ou nacional. É por isso que as propostas nos debates políticos actuais são muitas das vezes excessivamente centradas nos problemas de custos do trabalho e nos encargos sociais: estes comportamentos de margens, as desigualdades de dimensão entre distribuidores e fabricantes nas fileiras de bens de consumo, nos têxteis e vestuário constituem factores importantes das deslocalizações.

 

Esquema 2a.: Os efeitos de compensação da deslocalização numa economia eficaz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esquema 2b.: Deslocalização e comportamentos de margem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Mouhoud, 2006, chapitre 5.

 

No final, constata-se que os custos das deslocalizações podem revelar-se mais elevados do que certos modelos económicos deixam supor, levando-nos a poder questionar a pertinência de diversas intervenções públicas, como o recurso à criação de zonas francas, por exemplo, ou a continuação ineficaz das políticas de redução de encargos sociais das empresas. Pelo contrário, a inovação tecnológica aparece realmente como um factor de travão à deslocalização e à relocalização (Enquadrado 2.).

 

Em suma, as diferentes lógicas de mundialização das empresas (Esquema 1.) não têm todas o mesmo impacto sobre o emprego. No caso das estratégias do tipo 1 (Quadro 3.), os IDE contribuem para aumentar a taxa de investimento e de crescimento do PIB e até do emprego e para o aumento de competências no país de origem. Este tipo de IDE de conquista de mercado, ao criar empregos qualificados no país de acolhimento, desempenha um papel catalizador do crescimento e favorece igualmente o emprego no país de origem. Os salários e a produtividade são mais elevados nas filiais das firmas multinacionais (FMN) que nas empresas locais de20 a30% relativamente à média.

 

No caso da estratégia 2, as deslocalizações verticais destroem emprego a curto prazo, mas o efeito global sobre o emprego pode ser positivo se os ganhos obtidos da divisão internacional dos processos produtivos (DIPP) forem reinvestidos no país de  origem, excepto se os comportamentos de margem dominarem (Esquema 2b.). A estratégia 3 traduz-se por uma destruição de emprego e/ou uma baixa dos salários dos não qualificados. A estratégia 4 (fragmentação à procura de competências específicas) pode ter efeitos positivos sobre o emprego nos países de origem como nos países de acolhimento.

 

O Quadro 3. resume os efeitos sobre o emprego das diferentes lógicas de mundialização das empresas.

 

Quadro 3. Lógicas de mundialização das empresas e o emprego

 

Tipo de estratégia de deslocalização

Impacto sobre o comércio e o emprego

Efeitos de longo prazo

1. Estratégias de acesso aos mercados no caso dos bens não serem comercializáveis internacionalmente: estratégias horizontais (market seeking)

Ausência de substituição; efeitos negligenciáveis sobre o emprego exemplos:

– compra  da Nissan pela  Renault no Japão;

– IDE na China dos grandes distribuidores: Carrefour.

Positivos sobre as exportações a partir dos países de origem e positivos simultaneamente no país de acolhimento e de origem.

2. Deslocalização de componentes ou de sub-sistemas ou de sistemas reexportáveis no quadro da lógica da DIPP

Efeito indirecto similar à deslocalização relativa significando que tem a ver com a substituição de empregos e da criação do crescimento da produção no estrangeiro em vez de ser no país de origem.

Ex: automóvel Renault (produção do Logan na Roménia ou em  Marrocos mas não em  França).

Positivos se há reinvestimento dos lucros nos países de origem. Efeitos positivos sobre o emprego nos países de acolhimento e nos países de origem. 

3. Deslocalização das actividades de montagem ou de fabricação de componentes intermédias muito estandardizadas  (sectores  tradicionais  ou intensivos em trabalho ).

Efeitos a curto prazo, ao nível micro e localmente negativo assimilável a uma deslocalização absoluta ou de substituição: transferência de empregos para o estrangeiro (têxtil-vestuário, calçado, electrónica…).

Efeitos negativos sobre o emprego e sobre os salários dos não qualificados.

4. Fragmentação dos processos produtivos segundo uma lógica cognitiva de blocos de competências complementares (Silicon Valley).

Um impacto muito importante sobre o mercado local de trabalho e a procura de certos tipos de qualificações.

Transformação da especialização internacional no país de acolhimento para uma lógica intra-ramo: elevação das qualificações e da qualidade dos produtos.

Efeitos de complementaridade no país de origem.

Fonte: Mouhoud, 2006, chapitre 5.

 

 

(Continua)

 

 

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