(Continuação)
6. Os CDS e a referência a Keynes
Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx, Ladislaus von Bortkiewicz, Piero Sraffa, Ronald Meek e tantos outros com estes modos de determinação de preços de mercado ainda serão capazes de saltar dos seus túmulos e, bom, teríamos então de nos haver com fantasmas se assim fosse, o que não está nos meus planos. Ainda por cima fantasmas bem zangados pela realidade económica que andámos a construir. Nada disto tem a ver com os clássicos, salvo que estes mercados de títulos também eles precisam de um preço, o preço de leilão, apenas. Enquanto os autores citados procuravam estabelecer as leis que regulavam a repartição do rendimento e para regular o que havia a repartir é necessário calcular o que há para repartir e para saber o que há para repartir é preciso calcular os seus preços, foi também sobre as unidades de medida que se debruçaram. Mas estas unidades de medidas nada têm ver com o que se passa nestes mercados, pois nestes mercados não se trata de produzir, de repartir, trata-se de extorquir e isto não tem a ver com a ciência, tem a ver com a política e com a polícia que esta consente, ou melhor, com a incompetência da polícia, no caso presente, dos reguladores, que a política escolhe. Os preços de que aqui se fala são bem outros e é a determinação destes que temos estado a descrever. Mas mesmo aqui, ironia do destino, cai-se sobre a alçada da crítica feita pelo mais importante crítico dos neoliberais de então, Keynes (2010, p. 165), e para isso basta substituir a palavra investimento por preços no sentido do mercado, quando afirma:
Para mudar um pouco de metáfora, o investimento por parte de profissionais pode ser comparado aos concursos organizados pelos jornais em que os participantes têm de escolher os seis rostos mais belos entre uma centena de fotografias, ganhando o prémio o concorrente cuja escolha corresponda mais de perto à média das preferências do conjunto dos concorrentes; assim, cada concorrente deverá escolher não os rostos que ele próprio considere mais bonitos, mas os que lhe parecem mais próprios a cair nas graças dos outros concorrentes, os quais encaram o problema do mesmo ponto de vista. Não se trata de escolher os rostos que, no entender de cada um, são realmente os mais belos, nem sequer aqueles que a opinião geral considere realmente como tais. Chegámos ao terceiro grau, no qual devotamos a nossa inteligência a antecipar o que a opinião geral espera que seja a opinião geral. E há pessoas, segundo creio, que vão até ao quarto e ao quinto grau, ou mais longe ainda.
7. A soberania dos mercados, a fragmentação da unidade europeia
A terminar este longo texto sobre CDS, sobre as políticas agressivas que a União Europeia impõe aos seus Estados-membros, sobre a crise europeia afinal, sobre a incapacidade dos nossos políticos encontrarem uma saída para a crise, resta-nos mostrar que só uma mudança estrutural da actual arquitectura da União Monetária a exigir uma forte vontade política de mudança nos pode levar à saída da crise. E a razão é simples, é porque face a estes mercados financeiros não controlados, face também a uma globalização que vai minando as estruturas produtivas da própria Europa, face ao facto de a desregulação ser um dado determinante do sistema, não há saída no interior do próprio modelo que causou esta situação, ou mais concretamente, o momento que atravessamos é o resultado consequente do modelo estabelecido. Afirmação dura, dirão. Vejamos a fórmula já anteriormente utilizada da dinâmica da dívida: db = dp+b(i – g).
Em termos de equilíbrio, a taxa de crescimento do PIB real tenderia para a taxa de juro real. Consequência imediata: em cada um dos países da zona euro, o efeito snowball, ou efeito bola de neve, o b(i – g) tenderia para zero. Neste caso, o peso do défice público no PIB representa a variação relativa do peso da dívida pública no PIB, o db. Sabendo que aquele peso teria como tecto os três por cento, que se justificariam pelo funcionamento dos mecanismos de estabilização automáticos em períodos de contracção económica, e que teriam, portanto, valores simétricos em períodos de expansão, em termos de tendência, o valor de db tenderia para zero. Sendo assim, necessariamente dp também tenderia para zero.
Mas mais, dado o movimento perfeito de capitais que levaria à igualização das taxas de juro reais dos títulos da dívida pública e a situação de equilíbrio expressa, teríamos então também a igualdade das taxas de crescimento do PIB real de todos os países.
Assim, todos os equilíbrios ficariam garantidos. Desta forma, de forma “natural, apenas via funcionamento normal dos mercados, assegurar-se-ia a convergência dos ciclos económicos e sem necessidade de passar a um sistema de federalismo. É esta a base do modelo neoliberal, suporte teórico do quadro institucional da União Europeia.
Ora, i, que é aqui uma variável fundamental, pois a política orçamental é a única que fica formalmente nas mãos dos Estados-membros, não é igual entre eles, antes pelo contrário, ficando a sua determinação ao sabor dos mercados. Estes, logo que lhes foi possível, romperam por inteiro a hipótese de convergência das taxas de juro nominais dos títulos da dívida pública a 10 anos, em que se assentava o Tratado de Maastricht. A diferenciação das taxas de juro do financiamento público, como se disse anteriormente, permitiu igualmente uma enorme diferenciação nas taxas de crescimento e, portanto, na capacidade de cada um enfrentar a situação de crise, e tanto mais quanto a União Europeia não a tem enfrentado pensando colectivamente, como se tem estado a ver.
Se adicionarmos a isso, dois choques económicos negativos percebemos bem o traçado desta crise: a reunificação alemã e o alargamento a Leste. A Alemanha fez pagar a todos a crise da reunificação alemã, a Alemanha foi a única que se pode dizer que directamente ganhou com a mão-de-obra altamente qualificada que se deslocou para a zona ocidental, e a salário bem mais baixo, constituindo isto igualmente um mecanismo de pressão à baixa dos salários qualquer que seja o nível de qualificação dos trabalhadores. Aqui lembro as declarações de alguém da Volkswagen que dizia não precisarem de deslocalizar para o Sueste Asiático, pois tinham-no ali bem perto, lembro igualmente Gunther Walraff que dizia que a mão-de-obra de Leste era altamente especializada, embora a trabalhar com máquinas do princípio do século, lembro ainda um Instituto, cito de memória, que sublinhava que essa melhoria se poderia traduzir num acréscimo a ficar situado entre 1 e 1,5 por cento do PIB. Tudo isto a fazer lembrar os modelos de crescimento neokeynesianos, como o de Lamfalussy[1], onde o salário é visto como um custo mas igualmente como uma variável determinante da procura agregada, como uma componente de dinamização do sistema, facto que muita gente agora quer esquecer, da União Europeia a Passos Coelho e aos seus ministros da Economia e das Finanças.
Adicionemos agora a entrada da China na OMC, que lhe permitiu um salto enorme das suas possibilidades de exportação, criando défices comerciais significativos na zona euro, com uma relativa excepção para a Alemanha, pois as suas exportações para a China dispararam.
Sobre esta questão vale a pena citar alguns excertos de uma série de artigos que o Der Spiegel publicou sobre estas matérias:
A Alemanha, mais do que a maioria dos outros países industrializados ocidentais, está a ancorar o seu bem-estar económico no crescimento económico da China. As trocas comerciais com Pequim são a força motriz mais importante que está por detrás da actual recuperação alemã. Estas trocas também explicam porque é que os economistas também prevêem um futuro brilhante para a economia alemã a médio prazo.
Com os seus automóveis de luxo, as suas máquinas-ferramentas e as suas turbinas para as fábricas, a indústria alemã oferece precisamente os produtos que este enorme país asiático desesperadamente pretende ou precisa. Mas o clima de sucesso dos gigantes industriais alemães, como a Siemens e a BASF, foi um pouco abalado muito recentemente por estas preocupantes questões. Qual é o significado de os chineses começarem a concorrer em cada vez mais e mais mercados de alta tecnologia? Quais serão as consequências se o destino de sectores industriais inteiros forem no futuro decididos nos bastidores da burocracia do Partido Comunista em Pequim?
E o que acontece se o crescimento na China se revelar uma ilusão? O governo de Pequim, usando as ferramentas de uma economia controlada pelo Estado, já está a tentar impedir que rebente a próxima grande bolha no seu mercado imobiliário.
“Estou consciente de que uma parte crescente da nossa empresa está dependente deste país”, afirma Dieter Zetsche, Presidente da empresa alemã Daimler. E esta relação de dependência aplica-se tanto nos momentos bons como nos maus”.
Martin Herrenknecht, entretanto, não colocou a questão da mesma maneira. Este engenheiro e industrial tem uma visão mais benevolente da situação. “A China foi a nossa salvação”, diz Herrenknecht, dono de uma empresa de mesmo nome que constrói máquinas escavadoras para túneis. “Sem a China, nós nunca teríamos conseguido o crescimento que temos tido no meio desta situação de grande crise”.
Esta forma de cooperação tem sido chamada de “economia concubina.” Da mesma forma que os imperadores chineses, seleccionavam as suas concubinas, os actuais dirigentes políticos da China seleccionam as empresas estrangeiras e concedem-lhes o direito de produzir bens localmente em cooperação com um parceiro chinês.
A República Popular da China obriga as empresas alemãs de automóveis a entrarem nestas joint ventures. Através da imposição de direitos de importação elevados, o governo impede simplesmente os alemães de exportarem os carros produzidos na Alemanha para a China. Qualquer empresa interessada em vender uma grande parte da sua produção na China terá então necessidade de construir fábricas na China com um parceiro chinês, dando assim a este país o acesso à sua tecnologia.
Pequim começou a colocar pressão sobre as empresas ocidentais quanto à transferência de tecnologia para os parceiros chineses desde há cerca de cinco anos. Na época, o jornal de negócios Zhongguo Caifu publicou uma reportagem intitulada “A Alemanha como modelo”. De acordo com o artigo, a cooperação com os alemães nos próximos 20 anos seria a “arma definitiva” para o “renascimento da indústria de manufactura da China”.
Os excertos são bem claros quanto à segunda linha de fractura que a globalização introduziu no espaço europeu, em que a Alemanha é a China da Europa. E nesta economia de concubinagem sabemos quem é o verdadeiro imperador e, por aí, não é difícil saber quem será o futuro vencedor. O virar das costas da Alemanha à Europa terá sido a sua porta de saída da crise ou a porta de entrada para uma via de subordinação face ao Império do Meio? E ainda aqui, não deixa de ser curioso a ideia que têm os capitães da indústria alemã da política europeia quando afirmam: “Numa altura em que a economia dos EUA está em recessão e a Europa está a aplicar programas de austeridade cada vez mais intensos, as empresas alemãs, desde as grandes multinacionais até às pequenas e médias empresas, enfrentam uma escolha muito difícil: ou a China ou a morte”.
A saída para um lado ou para outro, e escolheu-se o caminho mais fácil, a problemática saída para fora da Europa. E com isto é a morte da Europa, da União Europeia, da zona euro que assim parece estar a condenar-se a morrer, pela incapacidade dos nossos políticos em procurarem as linhas mestras de um acordo comum capaz de relançar o espaço europeu, fora da dependência dos mercados financeiros e das suas armas de destruição. A saída não será nas suas costas e pelo lado de fora, a China pelo que acima se mostrou, a saída será pelo frente e para dentro, dentro da própria Europa com políticas de crescimento económico que se impõem, em vez dos sucessivos planos de austeridade que a afundam, como muito bem o reconhecem os próprios alemães.
(Continua)
[1] Ver Margarida Antunes, O Modelo de Lamfalussy e a Repartição de Rendimento na União Europeia, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 2009.
