A LIÇÃO DOS MESTRES, por José Fernando Tavares

 

 

 

Sirvo-me abusivamente do título de uma obra de referência de George Steiner para introduzir as poucas palavras que estou autorizado a dizer a propósito da exposição de Dorindo Carvalho, a qual intitulou justamente «Os Meus Mestres».

 

 

Tal como acontece nas outras formas de expressão artística, não existe arte sem influência. O artista situa-se, mesmo que o não queira, ou não o assuma, num momento preciso da história, circunstância que faz dele uma entidade situada num tempo e num lugar. Porém, e considerando as influências a que esteve exposto ao longo da construção da sua obra, do seu testamento, diríamos, o artista é uma entidade a-histórica que transcorre o tempo, não apenas o seu tempo de vida, mas também o tempo em que os seus próprios mestres viveram, imprimindo à história a marca de uma existência criadora que o homem do futuro aceitará, ou não, consoante as suas exigências, ou necessidades, estéticas.

 

 

Não é frequente um artista prestar tributo aos seus mestres, dada a tendência em considerar a sua obra um acto de criação original, uma obra executada na sua íntima plenitude, o diálogo decisivo entre a obra e o criador, diálogo que o artista considera invariavelmente decisivo para a sua realização enquanto criador autónomo, aparentemente livre da influência supostamente contaminadora.

 

 

No que concerne à obra de Dorindo, obra pujante de originalidade, fremente de novas propostas e de novos caminhos, o tributo aos mestres tornou-se um gesto imperativo. Não se trata apenas de uma prova de humildade, que o é, mas também de uma prova real que esclarece o espectador, confrontando-o com a evidência de um passado glorioso. Dorindo não se perde na teia dessa herança inconsútil: regista-a ao longo destes vinte e dois quadros e regista-a de uma forma precisa, no pleno rigor do traço, no pleno rigor da obra original que se projecta no quadro. Não se trata de uma colagem, ao contrário do que possa julgar o espectador mais incauto: trata-se da recriação rigorosa do cânone pictórico, feita pela própria mão do pintor. E é na evidência dessa projecção que o espectador é surpreendido ao deparar-se com um inquietante fragmento de Picasso, ou com o enigmático sorriso da Mona Lisa, ou com o rosto lânguido e desafiador de Francis Bacon, ou com aquele, ainda, de Kandinski na sua explosão abstraccionista. Mas também aqui se encontram a paciente Rapariga de Vermeer; os corpos suados de Portinari; a angústia de Goya, transposta no olhar daquele que vai ser executado; os seios dolentes da jovem de Modigliani, ou a beleza idealizada de Botticelli. Mas surpreendemo-nos, ainda, com o universo fantástico do atormentado Jerónimo Bosch; com a solitária e expressiva cadeira de Van Gogh; com a mulher dolente de Malhoa. Há ainda o anjo solitário de Valerio Adami, sem dúvida a referência mais próxima de nós no tempo.

 

 

A par dos mestres, cuja lição surge aqui na plenitude do seu génio, eis que o traço geométrico de Dorindo se manifesta na sua polícroma expressividade, impondo ao quadro o seu manifesto estético. E dizemos «manifesto» porque o traço geométrico, em Dorindo, pode ser visto como a manifestação mais incisiva e arrojada de todas as suas propostas estéticas; a geometria impõe-se na obra de Dorindo como o abstraccionismo em Kandinsky ou o surrealismoem Dalí. Trata-se da geometria feita acto, a expressão fundamental de uma poética própria, uma poética da imagem que se repete sempre, não obstante os novos caminhos que procura trilhar.

 

 

Está o espectador perante um fresco admirável da herança pictórica universal, a confirmação da sua modernidade inscrita na geometria da forma e na irradiante multiplicidade desta. Ao lado da lição dos mestres, aos quais presta tributo, deparamo-nos também com a lição que Dorindo Carvalho nos transmite: aquela que nos anuncia a existência de uma herança incontornável, inscrita na matriz de tudo aquilo que fazemos; em suma, o legado genético do acto (ou do génio) criador, sem o qual jamais poderão ser compreendidas as manifestações estéticas da arte contemporânea.

 

 

 Nota: Este texto de José Fernando Tavares, bem como que ontem publicámos, da autoria de Maria João Fernandes, fazem parte do catálogo da exposição de Dorindo Carvalho no Museu da Água.

 

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