DIÁRIO DE BORDO, 15 de Dezembro de 2011


 

 

É impossível no momento que se vive passar por cima dos problemas económicos e financeiros; aparecem-nos a cada momento no nosso dia a dia. Hoje procuram alegrar-nos com a notícia de umas palavras simpáticas de Angela Merkel, mas daqui a pouco lá virão as parcas (Cloto, Laquesis e Atropos), perdão, as agências de notação (Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch) a fiarem, perdão, a ditarem o nosso destino. Sobre estas, há grandes discussões sobre qual será o seu peso real na política económica e financeira, mas ninguém duvida que é grande. Mas como explicá-lo? Ao fim e ao cabo, são do conhecimento geral as falhas de previsão em que incorreram, por exemplo, quando não previram a crise actual.

 

Discute-se muito sobre se Portugal deve ou não continuar no euro; há fortes argumentos de ambos os lados. Contudo, nenhum nos aponta o caminho da recuperação da economia do nosso país, nem da economia europeia. Querem que equilibremos as contas e não tenhamos défice, mas esquece-se que para tal é necessário aumentar a produção. E que tal não se pode fazer reduzindo a população á miséria. A Alemanha conseguiu chegar à situação actual infringindo os limites ao défice, entre outras benesses, entre os quais as vantagens obtidas quando da reunificação.

 

Nas análises que proliferam sobre a situação que atravessamos, a necessidade da austeridade é dominante. E a dispensa dos privilegiados dessa austeridade parece merecer, não o apoio unânime, mas o da maioria dos opinadores (para não lhes chamar opinion makers, à maneira do jet set da informação). Dizem eles que essa dispensa se justifica porque fazê-los pagar impostos na proporção das suas fortunas não rende e fá-los-ia fugir para outras paragens, porque o cadastro das propriedades é insuficiente, porque eles é que fazem andar a economia, etc. Nem o caso BPN, com a série de casos a ele associados, lhes conseguiu abrir os olhos (melhor dito a consciência) para a vacuidade destas posições.

 

O argonauta Júlio Marques Mota apresentou no nosso blogue significativos elementos sobre os efeitos perversos da desindustrialização. São conhecidos os efeitos nocivos resultantes do desinteresse progressivo pela agricultura, em várias zonas do país, muito agravados após a adesão à (então) CEE. A inversão destes caminhos é fundamental. Mas a excessiva concentração de riqueza, o sistema oligárquico predominante (a nomenklatura), e a subordinação à burocracia de Bruxelas e aos chamados mercados (omitindo-se que estes são controlados por pessoas, com interesses próprios) constituem obstáculos que têm de ser vencidos. 

1 Comment

  1. Ouvi ontem na rádio uma fugidia notícia em que se dizia termos um dos mais altos níveis de pessoal qualificado em ciência e tecnologia da Europa. Mas continua a afirmar-se que o país está desindustrializado e aos empresários não se podem pedir sacrifícios senão vão-se embora daqui. Ainda não ouvi foi ninguém relacionar a sério uma coisa com a outra, ou seja, que os “senhores industriais” ignoram pura e simplesmente as competências que, este momento, existem em Portugal porque não querem retirar um cêntimo às suas fortunas para investirem no emprego destes jovens que vieram de países onde lhes dariam condições compatíveis com os níveis de saber que atingiram e vieram trabalhar para a sua terra onde pouco lhes ligam e mal lhes pagam. É nesta tremendíssima pouca vergonha e vigarice que vivemos.

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